Vivemos um apartheid dos passaportes, diz a escritora italiana Idiaba Scego

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A escritora italiana Idiaba Scego (ao centro), durante debate na Livraria Cultura, em São Paulo. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Em passagem por São Paulo, a autora pediu um novo paradigma para os deslocamentos globais

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)

Um dos destaques da edição deste ano da Flip (Feira Literária Internacional de Paraty), onde afirmou que o mar Mediterrâneo virou um cemitério de imigrantes, a escritora italiana Idiaba Scego, 44, voltou a refletir sobre a temática migratória em sua passagem por São Paulo.

“O tema dos refugiados é muito próximo do meu coração. É uma dor imensa ver que essas pessoas que foram maltratadas, violentadas, usurpadas durante essas travessias”.

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Nascida em Roma e filha de imigrantes somalis, Idiaba participou de um debate sobre suas obras na noite desta quarta-feira (1º) no teatro da Livraria Cultura, na avenida Paulista. Ela também vai falar nesta quinta-feira (2) no Circolo Italiano, no centro da capital paulista.

Em suas obras, a italiana reflete e procura chamar a atenção sobre temas como identidade, migrações, colonialismo, racismo e gênero, como nos romances “Adua” e “Minha Casa é Onde Estou”. Pensadores como Edward Said e Antonio Gramsci, e escritores como Cervantes e Italo Calvino estão entre suas referências principais.

A escritora italiana Idiaba Scego (ao centro), durante debate na Livraria Cultura, em São Paulo.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

“A gente usa uma só palavra, ‘refugiados’, para descrever todas essas pessoas sem pensar que existem professores, músicos, atores, tradutores, pessoas com diferentes histórias que poderiam fazer muitos tipos de trabalhos. E tem uma expressão pior, os ‘imigrantes econômicos’, que expressa que você só está vindo pela questão do clima, por algum conflito ou questão econômica.

Durante o debate, ela recordou um diálogo que teve há quatro anos no norte da Somália com a mãe de um jovem que certa noite partiu para tentar chegar à Europa por meio da travessia pelo Mediterrâneo, mas nunca chegou ao destino final. “‘O navio, com seus dentes de tubarão, despedaçou meu filho’, recordou”.

A partir dessa história, a escritora afirmou que é necessária uma mudança de paradigma sobre os deslocamentos globais para evitar novas tragédias como as as que ocorrem quase que cotidianamente no Mediterrâneo e em outras travessias.

“Vivemos um momento de apartheid dos deslocamentos porque quem tem um passaporte forte, como o meu (italiano, europeu) pode se deslocar, viajar. E quem não tem um passaporte assim, não pode. Nós poderíamos fazer com que as pessoas não fizessem migrações forçadas, mas sim viagens circulares regulamentadas. Quem se aproveita desse sistema atual são as máfias”, ressalta.

No livro “A Minha Casa é Onde Estou”, ela relata um episódio do qual participou pessoalmente, em 2005, que foi um funeral coletivo em Roma de somalis que morreram nessa travessia do Mediterrâneo, contando inclusive com o apoio do então prefeito de Roma. “Agora, quase 15 anos depois, a Europa é um lugar totalmente diferente, e um funeral como esse não poderia ser feito daquela forma”.

Além de “Minha Casa é Onde Estou” e “Adua”, Idiaba também divulga no Brasil uma outra obra, “Caminhando Contra o Vento”, ensaio-depoimento sobre Caetano Veloso. Ela já adiantou que já está escrevendo um novo livro, em conjunto com alguns refugiados.

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