Volta do Afeganistão ao noticiário mostra persistência na mídia da islamofobia e outros estereótipos

Com os 20 anos dos ataques de 11 de setembro e as recentes tensões no Afeganistão, três entrevistados refletem acerca do tratamento que o islã recebe pela grande mídia, e qual sua influência no dia-a-dia de muçulmanos

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Muçulmanos de diferentes nacionalidades durante oração na Mesquita Brasil, em São Paulo. Local também atua como centro de apoio a migrantes de fé islâmica na cidade. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Ao longo das duas últimas décadas, o contexto da Guerra ao Terror, iniciado sobretudo com os ataques de 11 de setembro de 2001, vêm sendo alimentado pela criação de um imaginário popular que reproduz a cultura árabe e o islamismo sob forte desconfiança e associando ambos com a questão do terrorismo. A grande mídia, efetuando seu papel nesse cenário, influencia a visão das pessoas por meio de sensacionalismos e interpretações próprias a respeito da temática.

Essa percepção ganhou novo impulso desde agosto passado, com a saída das tropas dos Estados Unidos do Afeganistão e a volta do grupo Talibã ao poder no país asiático. A capa da edição de 25 de agosto da revista Veja é um exemplo — a ocupação militar dos Estados Unidos e países aliados no Afeganistão, vale lembrar, foi uma das reações imediatas da Casa Branca aos atentados de 11 de Setembro.

Capa Veja
Capa da Veja em 25 de agosto de 2021 (Foto: Reproduão/Veja)

Papel educativo da mídia

Para entender melhor como se configura o papel da mídia na criação de uma visão geral do ocidente acerca do islã, além de quais são as influências que essa abordagem midiática tem no dia-a-dia daqueles que seguem a religião, o Migra Mundo conversou com Khairul Islam, migrante muçulmano de Bangladesh, Guilherme Curi, autor do artigo “Somos todos Estado Islâmico?”, e Karine Garcêz, brasileira muçulmana residente no Ceará.

Khairul, que vive no Brasil desde 2013, afirma que a mídia tem o costume de fazer uma ligação entre o islã e o conceito de terrorismo: “Nos EUA, por exemplo, sempre vemos notícias de tiroteios que aconteceram e que resultam em várias mortes, em locais como escolas. Vemos que a mídia não trata isso como terrorismo, mas sim como a pessoa em questão simplesmente tendo algum problema mental ou algo do tipo. A mídia não tenta resolver a problemática educando as pessoas, explicando, por exemplo, como o terrorismo foi criado.”

Além disso, Khairul enxerga um problema maior na mídia, chamando a atenção para o problema geral da falta de um conteúdo educativo vindo dela: “A mídia foca muito apenas no problema e no negativo. Se ela focasse também nas coisas boas, com o intuito de educar as pessoas, as pessoas iriam entender melhor os diversos contextos do mundo. Se a pessoa só ler maldade, assistir maldade, ficará com isso na cabeça, e assim, quase ninguém está aprendendo alguma coisa de educativo.”

Construção histórica

Com a falta de um conteúdo que se prontifique e se preocupe em identificar o terrorismo como algo separado do islã, a ideia de que os dois estão interligados se reproduz. E, conversando com Guilherme, a forma como essa relação é construída em primeiro lugar fica mais fácil de entender. Guilherme é professor de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria, e seu artigo aborda a dependência da cultura ocidental na construção simbólica e discursiva do mundo árabe.

O pesquisador também identifica o Orientalismo, conceito que foi cunhado por Edward Said na obra “Orientalismo: o Oriente como invenção do ocidente”, na abordagem midiática em questão, reconhecendo uma construção histórica. “A construção do estereótipo do árabe não vem acontecendo de hoje, mas sim ao longo do século XX, sendo construído discursivamente a forma como o árabe é representado no mundo, como sinônimo de alguém inferior.”

Guilherme também nos convida a refletir acerca da reprodução do orientalismo em outros formatos de mídia sem ser propriamente o do jornalismo, como no cinema, recomendando um livro [e documentário] chamado The Real Bad Arabs. Aqui, foi feito uma pesquisa acerca da estereotipação de árabes, e uma das principais conclusões foi a de que, durante todo o século passado, o cinema hollywoodiano estereotipou o árabe como um fanático religioso não-civilizado.

Além disso, o professor abordou o papel da mídia na temática da migração, chamando a atenção para a influência da abordagem da mídia para o nível de aceitação e hospitalidade do país receptor de migrantes: “Quando falamos de migrações, o que está em crise não é a migração em si, mas sim o sistema. Agora vamos ver uma onda nova de refugiados com o que está acontecendo no Afeganistão. Teve [recentemente] o pronunciamento do Jeremy Corbin no parlamento inglês dizendo que não adianta a Inglaterra apenas querer receber os afegãos. O que é preciso é haver uma mudança de postura em relação aos migrantes, como são tratados, um combate à xenofobia, à forma como os migrantes são excluídos. Precisa-se tratar a questão discursivamente, e é aqui que entra o poder da mídia: A mídia tem que colocar a importância de recebê-los e a ideia que somos todos migrantes, que a terra é de todos, ao invés de reforçar o estereótipo do árabe.”

Um exemplo da persistência desse estereótipo é verificada em uma pesquisa feita pelo Pew Research em dez países europeus, em 2016, na esteira do fluxo de refugiados que entrou no continente a partir de 2015, especialmente de países com predominância de praticamentes muçulmanos. Na média continental, 59% dos entrevistados acreditavam que a presença de refugiados aumentaria o risco de um ataque terrorista. E dos dez países contemplados pela pesquisa, oito apresentaram tal percepção em mais de 50% da população.

O mesmo levantamento revelou ainda a historicamente construída visão negativa dos europeus acerca do islã. Dos dez países integrantes da pesquisa, cinco apresentaram um índice igual ou superior a 50% de rejeição aos praticantes da religião.

Necessidade de romper com estereótipos

Karine Garcêz, do canal Fora da Pauta – Relações Internacionais que, além de ser fotógrafa e autora dos livros Tunga na Sababuw e Infância Refugiada, é Coordenadora do Comitê Islâmico de Solidariedade – CIS (Ceará), falou sobre a capa da Veja de agosto, que representa a estátua da liberdade vestindo o niqab, vestimenta típica islâmica, junto ao título “Uma derrota da civilização”. Ela afirma que “A primeira abordagem é percebermos que esse contexto [no caso, da saída estadunidense do Afeganistão e da retomada do Talibã] se refere à questões geopolíticas e não religiosas. Na capa da Veja, está a estátua da liberdade, na qual colocam um niqab. Eles representam isso como o fim e a derrota da civilização, e, ao fazerem isso, afirmam que quem é civilizado, por lógica, não é uma mulher de véu.”

Ela continua afirmando que “Coloca-se todo o problema da civilização na religião. Se despir desses estereótipos é um começo, assim como desse discurso de que o ocidente é civilizado e o oriente é o bárbaro que precisa ser civilizado, o que justifica invadir o território e matar crianças, mulheres etc. Tem uma questão política: a mídia é um instrumento político, ela não é só informação, e estamos falando da mídia hegemônica que chega na casa de todo mundo, que tem um discurso e um projeto político. Ela direciona esse discurso.”

Por último, ela chama a atenção para as implicações que a forma como a mídia retrata o islã reverbera nos muçulmanos aqui no Brasil. Assim como há 20 anos atrás com os ataques de 11 de setembro, a retomada do Talibã no Afeganistão e a abordagem da mídia à respeito reverberaram na reprodução da islamofobia.

“Essa história do Afeganistão reverbera em cima de nós muçulmanas brasileiras que usamos véu. Ouvi recentemente uma pessoa comentando para a outra, em tom de deboche, que deveriam me mandar para o Afeganistão. Além disso, também temos o nosso acesso ao emprego formal dificultado, porque quando aparecemos para as entrevistas de véu não somos contratadas, se dizemos que vamos usar o véu somos demitidas. Isso acontece mesmo quando temos um currículo muito bom e uma qualificação profissional.”


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