A bandeira haitiana: a negritude se hasteou diante do mundo

A bandeira haitiana foi o meio pelo qual os negros tiraram do papel o ideal iluminista de Liberdade, de Igualdade e de Fraternidade

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O haitiano Johny Gardere ostenta com orgulho a bandeira do Haiti durante a Marcha dos Imigrantes 2019, em São Paulo. (Foto: Eduarda Esteves/MigraMundo

Por Handerson Joseph

No Haiti e na diáspora haitiana, o dia 18 de maio é comemorado como o dia da bandeira. Não é simplesmente a celebração de um nacionalismo haitiano por meio de tecidos que o próprio colonialismo contribuiu para desenhar através das cores azul, vermelho e branco, as mesmas da bandeira francesa, cuja bandeira passou por várias mudanças e transformações ao longo da história.

No dia 18 de maio de 1803, no Congresso em Arcahaie, Jean Jacques Dessalines, um dos maiores líderes da Revolução Haitiana, tirou o branco da bandeira francesa que simbolizava o colonialismo, e pediu para Catherine Flon costurá-la somente com o azul e o vermelho, como prova de união entre os negros e os mestiços para se engajarem na luta pela libertação e pela independência do país.

Após a libertação oficial dos negros escravizados em São Domingos e a independência do Haiti em 1º de janeiro de 1804, Dessalines se proclamou imperador. Em 20 de maio de 1805, Dessalines criou uma nova bandeira com as cores preta e azul costuradas em vertical, simbolizando duas principais palavras: a cor vermelha, representando a liberdade e a preta, a morte. Após o assassinato de Dessalines em outubro de 1806, o novo presidente na época chamado Alexandre Pétion redesenhou a bandeira, retomando o azul e o vermelho de 1804, acrescentando o lema “A união faz a força” e um quadrado de pano branco no meio no qual foram colocadas as armas da República.

Assim, o dia 18 de maio, celebrado como o dia da bandeira, está para além dos pedaços de tecidos em azul e vermelho, do patriotismo haitiano e do nacionalismo exacerbado. Trata-se da profundidade simbólica e humana da bandeira na vida das pessoas haitianas, das populações negras e não negras no mundo que se engajam em lutas pela independência e pela libertação dos povos, principalmente os mais marcados racialmente, os negros. A bandeira haitiana está entre os maiores símbolos anticoloniais em todo o planeta; ela desenha a soberania negra por meio de uma das mais expressivas vitórias dos oprimidos sobre os opressores, hasteando a liberdade negra. Em sua bandeira estão estampados os primeiros sentidos pragmáticos da Democracia, da Liberdade e dos Direitos Humanos.

Haitianos posam com a bandeira do Haiti após missa na Missão Paz, em São Paulo.
(Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo – mai.2014)

É a primeira bandeira nacional costurada pelas mãos de uma mulher negra e erguida por pessoas negras. Por meio dela, a negritude se hasteou diante do mundo, olhando o colonialismo horizontalmente e de cabeça erguida, dando uma lição de humanidade, reivindicando a libertação dos povos negros sob o jugo colonial. A grandeza dessa bandeira não está apenas na sua formosura, mas sim na sua profundidade histórica e humana, uma das mais belas lições do ponto de vista do existencialismo negro, a afirmação da existência do ser-negro-no-mundo que precede a essência colonial, além da afirmação do humanismo diante do fracasso do universalismo ocidental. A bandeira haitiana foi também o meio pelo qual os negros tiraram do papel o ideal iluminista de Liberdade, de Igualdade e de Fraternidade.  A bandeira haitiana é igualmente metafórica e enigmática, pois desvelou as amarras coloniais espelhando teias de significados que o próprio colonialismo teceu.

Sobre o autor

Handerson Joseph é haitiano e doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional (UFRJ), com estágio doutoral na Écoles des Hautes Études en Sciences Sociales e École Normale Supérieure em Paris. Também é professor do Departamento de Antropologia e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).


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