Por Pe. Alfredo J. Gonçalves
O primeiro passo é a saída. Deixar para trás o calor familiar, o ambiente conhecido e a terra natal. Toda saída comporta dor e lágrimas, separação e dispersão. E comporta, ainda, o desejo de um retorno, quase sempre desmentido pelo destino. Certo é que arrancar as raízes é cortar na carne. Fragmentam-se parentes e amigos. Sofre quem parte e sofre quem fica. Para quem parte, a saudade e a solidão apertam o peito antes mesmo de iniciar a marcha e virar a esquina. Para quem fica, não há como ignorar o vazio da cama, da mesa, do sofá, da casa, da existência. Uma ausência sempre presente, doída, feito um espectro.
No caminho, porém, não será difícil dar de cara com um poço. Lugar de matar a sede, descansar um pouco, recarregar as energias. Poço é lugar de encontro. Nomes, rostos, histórias e tradições se entrelaçam. Intercâmbio de vozes, valores, culturas e experiências. Laços se tecem e se amarram, nós se atam, desatam e reatam. Medos e dúvidas, perguntas e respostas buscam saciar-se reciprocamente. Cruzam-se idas e vindas, alegrias e tristezas, sucessos e fracassos. Para alguns, “no meio do caminho tinha uma pedra” – como diz o poeta. Para outros, veredas novas e novas descobertas. Caminhar é descortinar surpresas e imprevistos.
Ao longe, em meio ao sol escaldante, descobre-se o contorno de uma árvore e, com ela, a garantia de uma sombra. Hora de sentar, deixar-se envolver por esse abraço amigo. Mas também é um momento oportuno para refletir, meditar. De onde eu vim, para onde vou? Que me reserva o futuro? Em pauta, no coração, na mente, e na alma, o projeto migratório. Terá valido a pena abandonar o solo de origem? Onde e como encontrar novo chão? O migrante toma nas mãos as rédeas de seu caminhar. Sujeito e protagonista do próprio destino – artífice, sim, mas em meio a múltiplas e complicadas adversidades, que parecem não ter solução.
Depara-se, então, com uma encruzilhada. Abrem-se diversas e diferentes direções, é preciso fazer uma opção, seguir um rumo. Mas toda escolha comporta renúncia. Esta ou aquela trilha, aquela ou esta? Como medir, de uma e de outra, as vantagens e desvantagens? Qual o critérios de perdas e ganhos? Certo, em toda encruzilhada, cedo ou tarde, passam outros caminhantes. Nova troca de vivências e saberes, novas incertezas e interrogações, decisões e indecisões. Mesclam-se os pareceres, várias, uns divergentes, outros convergentes. Em última instância, porém, cada viajante terá de tomar a sua direção. Por vezes, prevalece a aposta, o salto no escuro, mas há também contatos e conhecimentos que podem servir de orientação.
Por fim, a chegada. E aqui o migrante pisa em terreno minado, ambíguo. Rechaço e acolhimento se misturam, sorrisos e caretas se confundem. A intransigência anda de mãos dadas com a abertura de coração. De um lado, preconceito e discriminação; de outro, a solidariedade de quem “já passou por isso”. Entre os braços aconchegantes e a intolerância, distintos graus de indiferença. Como navegar em águas tão turvas, torvas e traiçoeiras? Como driblar os olhares oblíquos, os muros invisíveis e as leis adversas!?… Ilusões podem se converter em desilusões, sonhos em pesadelos. Logo começa a procissão de porta em porta. Umas fechadas, hermeticamente cerradas; outras, felizmente, abertas e solidárias. E com elas, um ouvido atento e qualificado, uma casa de repouso e uma série de serviços de acolhida. Mas sobretudo um novo solo pátrio, rocha firme e forte, trampolim de onde é possível tomar impulso para retomar a TRAVESSIA.
Sobre o autor
Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, é sacerdote da Congregação dos Missionários de São Carlos (scalabrinianos), cujo carisma é atuar com migrantes e refugiados. Durante 5 anos, foi assessor do Setor Pastoral Social da CNBB, depois Superior Provincial e Vigário Geral na Congregação supracitada. Hoje, exerce a função de vice-presidente do Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM). Autor do livro Retratos da Metrópole, organizado pela Missão Paz.
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