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sexta-feira, setembro 30, 2022

Além da polêmica antivacina, caso Djokovic ajuda a expor lado sombrio da política migratória australiana

Refugiados estiveram nos holofotes do mundo todo ao dividirem prédio com o tenista. Mas a situação precária dessas pessoas deve continuar, apesar das críticas e denúncias

As últimas semanas foram de esperança para os refugiados e solicitantes de asilo instalados no antigo Park Hotel, em Melbourne. De um dia para outro, viram o mundo todo dar atenção ao local com a chegada do tenista sérvio Novak Djokovic, atual líder do ranking mundial da categoria.

Pouco antes do início do Australian Open, em que tentaria seu 21º título em torneios do chamado Grand Slam (um recorde na história do tênis), Djokovic foi barrado pela Polícia Federal australiana por não cumprir os requisitos sanitários da covid-19 para a entrada no país. De lá, foi enviado para o Park Hotel.

Na última segunda-feira (17), ainda domingo no Brasil, o sérvio teve seu visto cancelado em definitivo, foi deportado da Austrália e não poderá pisar no país da Oceania pelos próximos três anos. A medida vem como consequência da falta de justificativa para a isenção de vacinação contra a Covid-19. 

A cobertura dada ao tenista número um do mundo em sua viagem à Austrália possibilitou focar também no tratamento que imigrantes e refugiados recebem, explicou Chris Breen, ativista do Refugee Action Collective, uma entidade que luta por direitos aos refugiados e solicitantes de asilo. 

Condições do local

O antigo hotel foi usado anteriormente pelo governo australiano como um espaço de quarentena para pessoas infectadas por covid-19 e há pouco mais de um ano, se tornou um centro de detenção para refugiados.

As condições no espaço não são das melhores. As pessoas lá não têm o direito de sair, as janelas são lacradas e a academia do prédio pegou fogo no ano passado. Entre outubro e novembro do ano passado, um surto de covid-19 atingiu o prédio e 22 de 46 pessoas foram infectadas. Em dezembro, fotos de alimentos com larvas e bolor estiveram nas redes sociais dos detentos que lá vivem. 

Dijana Djokovic, a mãe do tenista disse que o filho estava sendo tratado como prisioneiro, o hotel é sujo e a comida horrível. “Não é justo. Não é humano”, apontou. 

O tenista já voltou para a Sérvia. Por outro lado, as condições enfrentadas pelos refugiados e solicitantes de refúgio no hotel seguem as mesmas.

Refugiados e solicitantes de asilo detidos

Segundo o Asylum Seeker Resource Centre, 33 refugiados e solicitantes de asilo estão alocados na detenção no Park Hotel, enquanto outros 70 estão espalhados por centros pelo país, sem data para sair. Ainda, 810 pessoas estão em centros de detenção em outras regiões da Oceania, em condições sub-humanas. Desde 2013 a Austrália tem uma lei em que pessoas que chegam de barco, por vias marítimas, não são integradas na sociedade e vivem encarceradas em centros de imigrantes na Ilha de Manus, em Papua-Nova Guiné, e Nauru.  

Chris Breen contou que muitas pessoas, incluindo apoiadores do tenista que estavam protestando no local, ficaram surpresas ao saberem das condições em que essas pessoas estão. 

Para o ativista, o movimento de refugiados tem tido ganhos parciais, como a chegada de crianças e famílias trazidas de outros centros offshore e a legislação Medevac, que permite que os refugiados com condições de saúde fragilizadas sejam trazidos para tratamento no país. Entre os “refugiados Medevac”, estão os 33 do Park Hotel. Mas, para ele, ainda existem questões políticas que não permitem um avanço maior.

“Legalmente, o governo se recusa a emitir os vistos dos refugiados do Medevac, deixando-os tecnicamente em situação irregular”, explicou. Por isso, essas pessoas continuam sem liberdade.

Nove anos em prisão

Vizinho do andar de cima de Djokovic, o iraniano Mehdi está detido há nove anos, desde que chegou no país aos 15 anos buscando proteção. Aos 24, membro da minoria dos árabes awazi no Irã, conseguiu seu documento formal de refugiado e não tem antecedentes criminais. Mesmo assim vive em condição semelhante a de um prisioneiro. Durante os nove anos detidos, já passou por Nauru, Brisbane e agora está em Melbourne.

Em seu twitter, ele desabafou: “É tão triste que tantos jornalistas me contataram ontem para me perguntar sobre Djokovic. Estou numa jaula há 9 anos, hoje faço 24 anos e tudo o que vocês querem falar comigo é sobre isso. Fingem se preocupar ao me perguntar como estou e imediatamente fazem perguntas sobre Djokovic”.

Série inspirada em fatos reais

A série Estado Zero, lançada em 2020 pela Netflix, retrata a política migratória australiana nesses centros de detenção. A produção é contada através da narrativa de quatros histórias principais que se cruzam nas prisões. 

Recomendada pelo ACNUR, a Agência da ONU para Refugiados, o drama expõe as violências físicas e psicológicas sofridas por imigrantes e refugiados dentro dos espaços. 

Na série Estado Zero (Netflix), os atores Fayssal Bazzi e Soraya Heidari interpretam refugiados afegãos detidos em centros mantidos pelo governo australiano. (Foto: Divulgação/ Estado Zero)

Ex-detido escreveu livro

Um dos solicitantes de refúgio que conheceram a realidade desses centros de detenção australianos foi o jornalista curdo iraniano Behrouz Boochani, que passou seis anos na ilha de Manus. Seu caso, no entanto, teve um final que pode ser considerado feliz.

Ainda preso, Boochani ganhou notoriedade internacional após escrever, pelo WhatsApp, o livro “No Friend But the Mountains: Writing from Manus Prison” (Nenhum Amigo Além Das Montanhas: Escrevendo a partir da prisão de Manus).

A obra rendeu ao jornalista, em 2019, o maior prêmio literário da Austrália, o Victorian Prize for Literature. Ele também ganhou na categoria de não-ficção do mesmo evento. Mas, não conseguiu comparecer a cerimônia de premiação por não ser liberado.

No entanto, ele conseguiu liberação meses mais tarde para participar de um festival literário em Christchurch, na Nova Zelândia. A ideia, após o evento, é obter em um outro país o asilo político que foi negado até então pela Austrália.


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