Alerta sobre informação enganosa deve ser feito com empatia para ser eficaz, apontam especialistas

Especialistas em checagem falam sobre como proteger os cidadãos de “onda de informação enganosa vinda do Ocidente” em assuntos como Covid-19 e migrações

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(Foto: Gerd Altmann from Pixabay)

Quebrar o momento entre a recepção e o compartilhamento para dar tempo para a reflexão e alertar com empatia o leitor sobre informação de cunho enganoso, impedindo que ele se sinta estúpido e que não queira ler a versão confiável dos fatos. Esses são alguns dos conselhos dados por especialistas em checagem de dados durante o Congresso Humanitário de Berlim deste ano, sobre como combater informação enganosa ( no inglês, “misleading information”).

O MigraMundo está acompanhando o evento, realizado à distância por streaming devido ao contexto sanitário gerado pelo novo coronavírus (Covid-19). O Congresso teve início na segunda (26) e vai até sexta-feira (30).

Segundo os especialistas presentes no painel “Como proteger a vida das pessoas face ao surto de informação enganosa”, o trabalho de checagem de fatos é fundamental para assegurar a capacidade de escolha das pessoas, que estaria ameaçada por um “surto de informações enganosas vindas principalmente de governos do Ocidente” sobre questões como a pandemia do novo coronavírus (Covid-19) e os fluxos migratórios.

A diretora do Centro de Comunicações e Mídia da London School of Economics, Myria Georgiou, alertou, em evento acompanhado pelo MigraMundo em setembro, sobre a hostilidade gerada em leitores que liam informações enganosas dadas sobre os migrantes.

Segundo a última pesquisa dirigida por Georgiou entre 2015 e 2018, quase a metade de cidadãos de países como Reino Unido e França tinham a impressão de que havia entre duas a três vezes mais migrantes em seus territórios do que o que de fato havia.

Má informação x fake news

“Ao contrário das fake news, a informação enganosa não é criada para fins políticos, mas é uma informação mal dada e utilizada para fins políticos para controlar ou orientar o comportamento de um grupo de pessoas”, explicou Urvashi Aneja, diretora do grupo indiano Tandem Research, consultor em governabilidade e tecnologia para instituições e agentes humanitários.

Em 2019, a Organização Internacional para Migrações (OIM) lançou uma nova aba em seu site que analisa os dados da organização sobre os fluxos migratórios na Europa. Tal aba é atualmente gerenciada pela própria OIM em parceira com a União Europeia.

Como combater informação enganosa?

Uma das ações importantes é quebrar o momento entre a recepção da mensagem e o repasse dela”, afirmou a especialista fact-checking Kate Wilkinson, baseada há sete anos na África do Sul de onde dirige o Africa Check, um dos principais portais de checagem de informação do continente.

Em 2018,  Wilkinson descobriu um erro no balanço anual do governo sul-africano sobre os crimes cometidos no território nacional, o que obrigou o governo a revisar a sua base de dados. Atualmente, a editora treina jornalistas em pesquisa de dados, assim como crianças, a identificar uma notícia não-confiável publicada nas redes sociais.  

“Quando quebramos esse momento, as pessoas vão pensar sobre o que viram. E ao pensarem, uma boa parte delas não irá passar para frente”, acrescentou. De acordo com Wilkinson, os números de compartilhamento de informações mal dadas , principalmente via WhatsApp, caem exponencialmente quando essa pausa é feita.

Um elemento é o “re-informar com empatia”. “Isso porque ninguém quer se sentir estúpido, enganado. E se uma pessoa se sente assim quando você a informa que o que ela compartilhou não era algo verossímil, ela não vai te escutar, ela não vai querer ler a versão confiável”, afirmou.

Checar e espalhar a versão confiável dos fatos deve ser feito em “diversas fontes”, acrescentou AbdelHalim AbdAllah , conselheiro em fact-checking do meio médico durante a pandemia da Covid-19 no Líbano. “Precisa-se publicar vídeos, mensagens de áudio no WhatsApp, artigos detalhados mais ainda acessíveis às pessoas.” Segundo ele, o acesso à versão correta deve ser garantido ao máximo, atingindo todos os gostos.

“Hoje para informar você precisa garantir que o leitor vá se divertir, que ele vá encontrar algum tipo de entretenimento”, afirmou Wilkinson em complemento à fala de AbdAllah.

Uma nova dominação ocidental ?

Essa foi uma das perguntas feitas pela audiência. “ O trabalho de checagem de dados não é uma dominação, mas sim um trabalho feito para remediar as consequências destrutivas que uma informação enganosa pode ter na vida das pessoas”, afirmou Urvashi Aneja. “A maioria dessas informações são espalhadas por governos ou por robôs trabalhando para governos”, acrescentou.

“Você pode argumentar que as pessoas precisam pensar por elas mesmas, mas desde 2012 o número de visitantes únicos no nosso portal tem crescido exponencialmente e isso nos mostra que existe uma demanda real por informação de qualidade”, afirmou Wilkinson, editora do portal Africa Check. “As pessoas devem pensar por si mesmas, mas elas precisam de informações confiáveis para tal (…), assim como políticos e organizações”, acrescentou.

Segundo a especialista, informações mal dadas manipulam o comportamento e a decisão das pessoas, e, ao checar essas informações, ela espera poder habilitar os leitores à tomar boas decisões, “seja sobre onde morar, onde comprar ou em quem votar para o governo.”


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