Às vésperas de interiorização, venezuelanos sofrem com hostilidades em RR

4
17
Migrantes venezuelanos tem sofrido com xenofobia e hostilidades em Roraima. Crédito: Felipe Larozza/REPAM Brasil

Discurso de ódio ganha espaço no Estado e se traduz em tensão e atos de xenofobia; sociedade civil tem procurado se contrapor a essa visão negativa sobre as migrações

Por Rodrigo Borges Delfim e Nayra Wladimila
Em São Paulo (SP) e Boa Vista (RR)

Praça Simón Bolívar, centro de Boa Vista. O local é atualmente um dos principais pontos de concentração dos venezuelanos que estão em Roraima. Foi nessa praça também que aconteceu uma manifestação de brasileiros contra a presença dos venezuelanos na cidade, no último dia 24 de março.

Enquanto o grupo de brasileiros protestava contra a presença venezuelana, um grupo de migrantes na praça começou a rezar, como mostra o vídeo feito pela Folha de Boa Vista. Uma situação que acaba por exemplificar bem o estado das discussões e das ações relacionadas à migração em Roraima.

O protesto em Boa Vista – e seus organizadores, de um grupo chamado “Manifesto a Roraima”, prometem realizar outros – não foi o único a ocorrer no Estado. As cidades de Mucajaí e Pacaraima também tiveram mobilizações de brasileiros contra a presença venezuelana. O mais grave deles aconteceu em Mucajaí, quando brasileiros expulsaram venezuelanos de um prédio abandonado que ocupavam e tiveram seus pertences queimados, em reação à morte de um brasileiro após uma briga entre venezuelanos. O grupo ainda fechou temporariamente a BR 174, a principal rodovia do Estado.

Clique aqui para assinar a newsletter do MigraMundo

“Os atos em Mucajaí [e em outras cidades] representam a xenofobia instalada no Estado de Roraima. Você percebe uma organização e grupos que aproveitam da situação e de uma insatisfação que muitas vezes não é com a migração, mas relacionada a outras temáticas, que acabam desembocando nela”, aponta o professor João Carlos Jarochinski, coordenador do curso de Relações Internacionais da UFRR (Universidade Federal de Roraima).

O professor, no entanto descarta uma ligação direta entre esses incidentes e o ataque confessado pelo guianense Gordon Fowler, em fevereiro. “Foi  uma questão muito específica, muito mais pela instabilidade emocional. É bem diferente das outras, organizadas, que tentam pleitear ações públicas e políticas contra a migração em Roraima. E isso é preocupante”.

Os migrantes são apontados pelos manifestantes como culpados pela má qualidade dos serviços públicos e pelo aumento nos índices de violência, embora não existam estudos consolidados que comprovem tal ligação. O professor aponta ainda que o desconhecimento sobre a realidade migratória (tanto local como global), a insatisfação com a classe política roraimense [que tem seus principais representantes envolvidos em denúncias de corrupção] e visões equivocadas sobre o que são direitos humanos criam um cenário propício para criminalização do outro – no caso, os venezuelanos.

“Dentro desse sentimento de insatisfação, encontrar alguém que você possa culpabilizar acaba tendo uma atração muito grande, e isso é preocupante. Em Roraima, mais de 50% da população nasceu fora do Estado, são migrantes também. Esses casos de violência devem ser coibidos não só com o rigor da lei, mas também por um melhor quadro de informação sobre a temática. A migração faz parte da história da humanidade. Temos de aprender a trabalhar com isso e que o que importa é o acolhimento e a necessidade de criar um ideal de dignidade humana que está muito presente nos documentos internacionais e nas leis, mas que é pouco corroborado pelas pessoas – para elas próprias e para os outros”, completa Jarochinski.

Migrantes venezuelanos tem sofrido com xenofobia e hostilidades em Roraima.
Crédito: Felipe Larozza/REPAM Brasil

Reação da sociedade civil

As hostilidade contra os venezuelanos geraram mobilizações de entidades da sociedade civil organizada em apoio aos venezuelanos.

Entidades católicas e igrejas cristãs que atuam na acolhida e apoio aos migrantes em Roraima convocaram uma coletiva no último dia 23 de março para repudiar os ataques. Ao final, foi divulgado um documento, assinado por 46 instituições, que pede que a sociedade roraimense deixe a xenofobia de lado.

“Nossa cidade mudou, mas isso não nos dá o direito de maltratar, desrespeitar, causar danos aos bens dos imigrantes, fragilizando ainda mais a situação dos irmãos. Vamos deixar verter em nossos corações a solidariedade, o olhar atento, a boa vontade e a capacidade em servir aos mais necessitados”, disse o Bispo Dom Mario Antônio, da Diocese de Roraima.

“A sociedade civil vai continuar combativa, com a mesma postura de denúncia e monitoramento da situação de xenofobia no Estado”, frisou Cleyton Abreu, coordenador do SJMR (Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados) em Boa Vista, uma das entidades que assina a carta e que tem atuado na acolhida e assistência aos migrantes em Roraima.

Para Jarochinski, a sociedade civil de fato tem sido muito importante para tentar desconstruir a imagem negativa sobre as migrações no Estado, mesmo sem ainda ter uma capilaridade junto à sociedade local para amplificar uma narrativa mais positiva.

“Ela tem feito um papel muito interessante e informativo, dentro de suas possibilidades, e tem trabalhado bastante para coibir essas manifestações. Hoje ela tem ocupado espaço na mídia para não validar esse discurso xenofóbico e apresentando dados e uma série de questões que mostram uma coerência com a legislação e com um padrão ético a ser seguido”.

Interiorização a caminho

Enquanto as hostilidades marcam presença em Roraima, aumenta a expectativa sobre a chamada interiorização, programada para começar a partir de 5 de abril. As cidades de São Paulo e Manaus devem ser as primeiras a receber os migrantes realocados pelo processo, que foi um dos pedidos da sociedade civil e do Conselho Nacional de Direitos Humanos para lidar com a questão migratória no Estado.

Com a interiorização, coordenada pelo governo federal, o objetivo é que não se repitam equívocos e embates como os que ocorreram em 2014, em relação aos haitianos. Na época, o governo do Acre, que desde 2010 vinha recebendo os migrantes sem quase nenhum apoio da União, decidiu por contra própria alugar ônibus para enviar os migrantes para outros Estados do país.

O caso gerou uma grande tensão com outros governos, amplificada pelo fato de ter sido também um ano eleitoral. O fato também pegou a sociedade civil de surpresa, que foi obrigada a improvisar no acolhimento aos migrantes.

4 COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA

Insira seu comentário
Informe seu nome aqui

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.