Praça onde vivem venezuelanos é fechada em Boa Vista

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Praça Simón Bolívar, em Boa Vista, é cercada por tapumes. Crédito: Irmã Telma Lage

Prefeitura diz que o espaço vai passar por manutenção “para ser devolvido à população”; migrantes e sociedade civil dizem que foram pegos de surpresa, e que discurso da gestão municipal fomenta ações de xenofobia

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)
Atualizada em 02/04/18, às 07h

Uma ação da Prefeitura de Boa Vista pegou de surpresa os venezuelanos que vivem acampados na Praça Simón Bolívar, no centro da cidade. Na manhã de sábado (31/03), o local foi cercado e fechado com tapumes de madeira.

De acordo com a Prefeitura de Boa Vista, o espaço foi fechado para manutenção e obras de revitalização. Guardas municipais foram colocados em um portão para controlar a entrada e saída de pessoas no local.

Mesmo com venezuelanos no local, praça Simón Bolívar é cercada com tapumes pela Prefeitura de Boa Vista.
Crédito: Irmã Telma Lage

Nessa praça vivem cerca de 600 pessoas que, sem conseguir vaga nos abrigos criados para receber os migrantes venezuelanos ou outro tipo de residência, acabaram se fixando na praça – que tem o nome do revolucionário venezuelano que lutou pela libertação de vários países sul-americanos, incluindo a própria Venezuela.

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Integrantes da sociedade civil que lidam com a questão migratória no Estado dizem que nada sabiam sobre a ação da Prefeitura de Boa Vista.

“Acordamos com a praça sendo fechada. Não houve nenhuma comunicação, nenhum planejamento, nada. As famílias lá dentro também não foram avisadas, não havia nenhum servidor da prefeitura para dizer qualquer coisa ali”, apontou a Irmã Telma Lage, coordenadora do CMDH (Centro de Migrações e Direitos Humanos) da Diocese de Roraima, que gravou um vídeo com os tapumes sendo erguidos em torno da praça – disponível no canal do MigraMundo no YouTube.

Reportagem do portal G1 publicada no domingo (01/04) informou que a Guarda Civil Municipal impediu a entrada de novos migrantes na praça e começou a cadastrar os que já estavam no local. Também estão sendo questionados se desejam permanecer em Boa Vista ou aderir ao processo de interiorização, que deve ter inicio em 5 de abril.

Um das lideranças dos venezuelanos na praça, Angel Sandoval afirmou ao G1 que os demais acampados passaram a sentir mais seguros com o fechamento da praça – consequência de atos de hostilidade já vividos pelos migrantes. No entanto, ele disse que a Prefeitura de Boa Vista não deu qualquer explicação sobre o que está sendo feito no local.

Na semana anterior, parte dos ocupantes da Simón Bolíviar foi levada para um novo abrigo aberto em Boa Vista, localizado no bairro Jardim Floresta e que é gerido pelo Exército em parceria com o ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados).

“Para recuperar danos”

Em nota divulgada pelo portal G1, a Prefeitura de Boa Vista disse “que se trata de uma ação que já estava prevista de manutenção das praças da capital”, e que tinha sido adiada por conta da presença dos venezuelanos no local.

Ainda segundo a nota, “o trabalho na praça Simon Bolívar é necessário para recuperar os danos causados em virtude da ocupação” e que “a praça será recuperada e devolvida à população”.

A ideia de intervir na praça já havia sido levantada pela Prefeitura de Boa Vista em reunião no último dia 26 de março da prefeita, Teresa Surita (MDB), com representantes das Forças Armadas e com os ministros da Defesa, general Joaquim Silva e Luna, e do Gabinete de Segurança Institucional, general Sérgio Westphalen Etchegoyen.

Reunião entre a prefeita de Boa Vista, Teresa Surita (MDB) e integrantes do governo federal e das Forças Armadas sobre migração venezuelana.
Crédito: Prefeitura de Boa Vista

Na reunião, noticiada no site da Prefeitura de Boa Vista, a prefeita relatou aos ministros “os problemas vividos no município por conta da imigração venezuelana.” O Exército, por sua vez, relatou as ações humanitárias junto aos venezuelanos na fronteira e a gestão dos abrigos provisórios para os migrantes, em parceria com o ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados). E também que um dos objetivos era de realocar os migrantes que estão nas praças de Boa Vista – especialmente as praças Capitão Clóvis e Simon Bolívar – para locais adequados.

A Secretaria de Comunicação da Prefeitura de Boa Vista informou que só vai se pronunciar sobre a praça em uma coletiva de imprensa marcada para terça-feira (03/04).

“Praças mais importantes do que pessoas”

A ação na praça Simón Bolívar é mais um elemento na já tensa situação vivida pelos venezuelanos não apenas em Boa Vista, mas em todo o Estado de Roraima. Além da capital, outras duas cidades (Mucajaí e Pacaraima) registraram protestos de grupos contrários à presença dos migrantes.

Irmã Telma aponta que o discurso de “devolver” determinado local à população já foi usado outras vezes pelo poder público local, citando como exemplo a retirada de venezuelanos do entorno da Rodoviária de Boa Vista. E que tais ações ajudam a legitimar discursos e ações de xenofobia.

Praça Simón Bolívar, em Boa Vista, é cercada por tapumes.
Crédito: Irmã Telma Lage

“Em momento algum o migrante é considerado alguém com direitos, mas sim alguém que está atrapalhando a vida da cidade. Isso é muito sério e reforça, inequivocadamente, essas manifestações de repúdio. O Estado, além de ser omisso, tem iniciativas que reforçam essa restrição à presença dos venezuelanos”.

A fala de Telma é reforçada por uma carta aberta divulgada pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) após visita a Roraima, entre os dias 1 e 4 de março, na qual aponta que o poder público se “preocupa mais com praças do que com a dignidade de pessoas”.

“Nosso coração sentiu: profunda indignação diante dessa desumana e injusta realidade ao constatar a ausência e descompromisso dos poderes constituídos em dar respostas; de averiguar que a preocupação com a beleza das praças tem mais importância que o cuidado à pessoa humana; de escutar expressões discriminatórias em relação aos migrantes e refugiados e de entender o quanto nos falta para viver o Projeto de Deus que nos faz todos irmãos e irmãs”

A íntegra da carta pode ser lida no site da CNBB.

 

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