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sábado, setembro 5, 2026

Ceuta, Melilla e a teoria política da tempestade perfeitamente orquestrada

Longe de ser uma invasão, Ceuta sempre foi uma questão humanitária, estrategicamente instrumentalizada por alianças orquestradas entre governos conservadores

Por Flávio Carvalho

“Alá, lá, ô. Atravessamos o deserto do Saara. O sol estava quente…” (Haroldo Lobo e Nássara, 1940).

O Instituto de Estatística do Marrocos divulgou na semana passada o dado de desemprego juvenil mais alto desde a pandemia, no país empobrecido e com uma das maiores desigualdades sociais (poucos extremamente milionários e a grande maioria de empobrecidos vulneráveis) de todo o continente africano.

29,2% estão procurando emprego, sem conseguir, apesar de mais da metade possuir diploma de nível técnico ou superior. No pós-pandemia, eram 39,5%.

O país vive do turismo. É seguro, barato e bonito de se visitar. Ao sair do centro histórico e turístico, maravilhoso, logo percebe-se claramente a imensa pobreza. Nas montanhas da Cordilheira do Atlas, principalmente.

A Espanha, em comparação com o vizinho estratégico, Marrocos, possui o maior desemprego juvenil de toda a Europa, 25%. Na UE, a média é de 14%. Adivinhe a origem da maioria dos desempregados, na Espanha.

Marroquinos compõem a primeira comunidade migrante de toda a Espanha.  Mais de um milhão e cem mil pessoas.

No desemprego juvenil espanhol, país que também vive do turismo, tanto o emprego juvenil de piores salários quanto o desemprego juvenil absoluto (nem estudam nem trabalham) recaem sobre a população jovem marroquina. É uma relação instrumental. Injusta. Extremadamente desigual.

No dia 26 de agosto, semana passada, o bilionário Rei do Marrocos assinou 11 convênios econômicos com os Estados Unidos. Um deles inclui a construção da rodovia chamada President Donald Trump Way. No mesmo dia, Trump insultou novamente o governo da Espanha.

Será a maior avenida do deserto do Saara Ocidental. 1.055 km de extensão.

Passa exatamente na região de maior conflito histórico, desde 1860, quando a maior parte do deserto foi passando de mãos, do Rei de Portugal, pro Rei da Espanha até o Rei do Marrocos, expulsando os povos do deserto das áreas ocupadas com registro de mais de 4 mil anos.

No dia 8 de junho de 2026, o enviado oficial (Steffan de Mistura) do Secretário-Geral da ONU chegou ao Saara para reunir-se com o líder do Front Polisario, organismo precariamente armado de resistência e reivindicação territorial das terras sagradas (e ricas em minério) do deserto. Seu objetivo era fazer cumprir a resolução da ONU, redigida por especialistas e votada por todos os países do sistema da ONU, que obriga o Reino do Marrocos a sentar-se e negociar com os moradores históricos da região.

Naquele dia, drones de suposta fabricação israelense, assassinaram a tiros, perto do local de negociação com a ONU, o jovem Lahbib Abdelaziz, filho de Mohamed Abdelaziz, supremo comandante do Front Polisario (morto recentemente). Nenhum meio de comunicação ocidental noticiou esse fato. Lahbib era o mais cotado para substituir o líder atual, Brahim Gali.

15 dias depois, em 20 de julho de 2026, quase na véspera de 60 mil marroquinos tentaram migrar para a Europa, com vista grossa (proposital) dos policiais marroquinos de controle de fronteiras e ajuda das máfias (que controlam a região faz 11 anos, quando o Mediterrâneo do Norte diminuiu suas crises, após a entrada da Turquia, comprada, junto à União Europeia), o Presidente do Reino da Espanha, Pedro Sánchez assinou na Argélia o acordo comercial que torna aquele país o maior fornecedor na Espanha. Antes, já foi a Rússia e a Ucrânia.

Agora, o maior parceiro comercial energético da Espanha é o inimigo número 1 do Reino do Marrocos, exatamente por causa do conflito a respeito do deserto do Saara.

No meio de mais um bombardeio à Gaza, o governo de Israel intrometeu-se a denunciar esse convênio com a Argélia, classificando o governo da Espanha como inimigo estratégico.

27 de outubro de 2026 é o prazo máximo regimental para que Netanyahu faça, finalmente, as eleições que está empurrando com a barriga e com bombas. A cada palestino assassinado e a cada declaração como aquela, o atual presidente de Israel estanca sua perda de votos, agora que até israelenses dizem-se cansados dele e das suas caríssimas (e corrompidas) guerras. Principalmente pelas perdas de vidas jovens nas famílias israelenses.

Naquela mesma época da eleição israelense, perto das eleições brasileiras, o partido de Trump pode perder as eleições para o Senado.

Tudo está relacionado.

18 de abril, 16 de setembro e 22 de dezembro de 2027, são datas-limite para eleições na França, Espanha e Itália, respectivamente. Todas no ano que vem. Isso explica muito. Analistas políticos dos 3 países dizem que os atuais governantes não conseguirão aguentar-se no cargo até lá. Isso explica todos os seus atuais gestos políticos, de olho no barômetro (pesquisa social e política) Eurostat: (in)segurança e migração são os temas escolhidos por direita (incluindo nazifascistas, crescentes nas pesquisas) e esquerda para atrair votos decisivos, conservadores.

Quanto mais perto das eleições, mais assistiremos a estas barbaridades. Sempre tem sido assim. Imigrantes sabem disso e se preparam como podem.

Trump comprou brigas recentes com Macron, Sánchez (mais ainda, por ser o mais à esquerda) e Meloni.

No primeiro semestre, a UE aprovou nova diretiva para migraçao, asilo e refúgio, endurecendo todas as condições e dando mais dinheiro para todas as polícias de fronteira. Pro Marrocos, estão prometidos 434 milhões de Euros. Agora, vai aumentar a promessa.

A imigração irregular africana para a Europa nunca passou de 5% do total das outras rotas que chegam por avião e grandes navios. É apenas o principal bode expiatório. Um fenômeno de velho nome: racismo.

Na semana passada, o Tribunal Supremo da Espanha (herdado da ditadura franquista), foi obrigado a reconhecer o direito humanitário de não devolver migrantes que acabam de tentar entrar irregularmente nos países europeus.

Foi exatamente isso, aqui chamado de Devolução Quente, o que fez, ontem e hoje, o Reino da Espanha (monarquia medieval, da herança colonialista) de mãos dadas com o Rei do Marrocos, um ditador contemporâneo.

Longe de ser uma invasão, sempre foi uma questão humanitária, estrategicamente instrumentalizada por alianças orquestradas entre governos conservadores.

A tempestade perfeita é construída não naturalmente, e sim pela ação de determinados governantes.

E  vem muito mais por aí.

Aquele abraço.

Sobre o autor

Flávio Carvalho é sociólogo e escritor. Vive em Barcelona


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