Por Flávio Carvalho
“Alá, lá, ô. Atravessamos o deserto do Saara. O sol estava quente…” (Haroldo Lobo e Nássara, 1940).
O Instituto de Estatística do Marrocos divulgou na semana passada o dado de desemprego juvenil mais alto desde a pandemia, no país empobrecido e com uma das maiores desigualdades sociais (poucos extremamente milionários e a grande maioria de empobrecidos vulneráveis) de todo o continente africano.
29,2% estão procurando emprego, sem conseguir, apesar de mais da metade possuir diploma de nível técnico ou superior. No pós-pandemia, eram 39,5%.
O país vive do turismo. É seguro, barato e bonito de se visitar. Ao sair do centro histórico e turístico, maravilhoso, logo percebe-se claramente a imensa pobreza. Nas montanhas da Cordilheira do Atlas, principalmente.
A Espanha, em comparação com o vizinho estratégico, Marrocos, possui o maior desemprego juvenil de toda a Europa, 25%. Na UE, a média é de 14%. Adivinhe a origem da maioria dos desempregados, na Espanha.
Marroquinos compõem a primeira comunidade migrante de toda a Espanha. Mais de um milhão e cem mil pessoas.
No desemprego juvenil espanhol, país que também vive do turismo, tanto o emprego juvenil de piores salários quanto o desemprego juvenil absoluto (nem estudam nem trabalham) recaem sobre a população jovem marroquina. É uma relação instrumental. Injusta. Extremadamente desigual.
No dia 26 de agosto, semana passada, o bilionário Rei do Marrocos assinou 11 convênios econômicos com os Estados Unidos. Um deles inclui a construção da rodovia chamada President Donald Trump Way. No mesmo dia, Trump insultou novamente o governo da Espanha.
Será a maior avenida do deserto do Saara Ocidental. 1.055 km de extensão.
Passa exatamente na região de maior conflito histórico, desde 1860, quando a maior parte do deserto foi passando de mãos, do Rei de Portugal, pro Rei da Espanha até o Rei do Marrocos, expulsando os povos do deserto das áreas ocupadas com registro de mais de 4 mil anos.
No dia 8 de junho de 2026, o enviado oficial (Steffan de Mistura) do Secretário-Geral da ONU chegou ao Saara para reunir-se com o líder do Front Polisario, organismo precariamente armado de resistência e reivindicação territorial das terras sagradas (e ricas em minério) do deserto. Seu objetivo era fazer cumprir a resolução da ONU, redigida por especialistas e votada por todos os países do sistema da ONU, que obriga o Reino do Marrocos a sentar-se e negociar com os moradores históricos da região.
Naquele dia, drones de suposta fabricação israelense, assassinaram a tiros, perto do local de negociação com a ONU, o jovem Lahbib Abdelaziz, filho de Mohamed Abdelaziz, supremo comandante do Front Polisario (morto recentemente). Nenhum meio de comunicação ocidental noticiou esse fato. Lahbib era o mais cotado para substituir o líder atual, Brahim Gali.
15 dias depois, em 20 de julho de 2026, quase na véspera de 60 mil marroquinos tentaram migrar para a Europa, com vista grossa (proposital) dos policiais marroquinos de controle de fronteiras e ajuda das máfias (que controlam a região faz 11 anos, quando o Mediterrâneo do Norte diminuiu suas crises, após a entrada da Turquia, comprada, junto à União Europeia), o Presidente do Reino da Espanha, Pedro Sánchez assinou na Argélia o acordo comercial que torna aquele país o maior fornecedor na Espanha. Antes, já foi a Rússia e a Ucrânia.
Agora, o maior parceiro comercial energético da Espanha é o inimigo número 1 do Reino do Marrocos, exatamente por causa do conflito a respeito do deserto do Saara.
No meio de mais um bombardeio à Gaza, o governo de Israel intrometeu-se a denunciar esse convênio com a Argélia, classificando o governo da Espanha como inimigo estratégico.
27 de outubro de 2026 é o prazo máximo regimental para que Netanyahu faça, finalmente, as eleições que está empurrando com a barriga e com bombas. A cada palestino assassinado e a cada declaração como aquela, o atual presidente de Israel estanca sua perda de votos, agora que até israelenses dizem-se cansados dele e das suas caríssimas (e corrompidas) guerras. Principalmente pelas perdas de vidas jovens nas famílias israelenses.
Naquela mesma época da eleição israelense, perto das eleições brasileiras, o partido de Trump pode perder as eleições para o Senado.
Tudo está relacionado.
18 de abril, 16 de setembro e 22 de dezembro de 2027, são datas-limite para eleições na França, Espanha e Itália, respectivamente. Todas no ano que vem. Isso explica muito. Analistas políticos dos 3 países dizem que os atuais governantes não conseguirão aguentar-se no cargo até lá. Isso explica todos os seus atuais gestos políticos, de olho no barômetro (pesquisa social e política) Eurostat: (in)segurança e migração são os temas escolhidos por direita (incluindo nazifascistas, crescentes nas pesquisas) e esquerda para atrair votos decisivos, conservadores.
Quanto mais perto das eleições, mais assistiremos a estas barbaridades. Sempre tem sido assim. Imigrantes sabem disso e se preparam como podem.
Trump comprou brigas recentes com Macron, Sánchez (mais ainda, por ser o mais à esquerda) e Meloni.
No primeiro semestre, a UE aprovou nova diretiva para migraçao, asilo e refúgio, endurecendo todas as condições e dando mais dinheiro para todas as polícias de fronteira. Pro Marrocos, estão prometidos 434 milhões de Euros. Agora, vai aumentar a promessa.
A imigração irregular africana para a Europa nunca passou de 5% do total das outras rotas que chegam por avião e grandes navios. É apenas o principal bode expiatório. Um fenômeno de velho nome: racismo.
Na semana passada, o Tribunal Supremo da Espanha (herdado da ditadura franquista), foi obrigado a reconhecer o direito humanitário de não devolver migrantes que acabam de tentar entrar irregularmente nos países europeus.
Foi exatamente isso, aqui chamado de Devolução Quente, o que fez, ontem e hoje, o Reino da Espanha (monarquia medieval, da herança colonialista) de mãos dadas com o Rei do Marrocos, um ditador contemporâneo.
Longe de ser uma invasão, sempre foi uma questão humanitária, estrategicamente instrumentalizada por alianças orquestradas entre governos conservadores.
A tempestade perfeita é construída não naturalmente, e sim pela ação de determinados governantes.
E vem muito mais por aí.
Aquele abraço.
Sobre o autor
Flávio Carvalho é sociólogo e escritor. Vive em Barcelona
Quer receber notícias publicadas pelo MigraMundo diretamente no seu WhatsApp? Basta seguir nosso canal, acessível por este link
O MigraMundo depende do apoio de pessoas como você para manter seu trabalho. Acredita na nossa atuação? Considere a possibilidade de ser um de nossos doadores e faça parte da nossa campanha de financiamento recorrente

