Com linguagem universal, Copa dos Refugiados 2018 inaugura etapa em São Paulo

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Capitães das 16 nações que disputarão o torneio recebem os uniformes. Crédito: Pâmela Vespoli/MigraMundo

Após Porto Alegre e Rio, torneio volta à capital paulista. Partidas começam já neste sábado e campeão será conhecido no próximo dia 2 de setembro

Por Pamela Vespoli
Em São Paulo (SP)

O futebol é conhecido no Brasil como o esporte nacional capaz de unir todos em uma vibração só a cada gol, pênalti, falta ou bola na trave. A emoção é tanta que é capaz de ajudar a deixar de lado diferenças políticas, sociais, religiosas ou raciais. Inspirada nesse potencial, a ONG África do Coração promove pelo quinto ano consecutivo uma copa composta e organizada por refugiados.

Na última sexta-feira (24), a Copa dos Refugiados deu o pontapé inicial para a edição paulista do evento, no auditório do Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa (COTP) da Prefeitura – neste ano já aconteceram edições em Porto Alegre e no Rio de Janeiro.

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A cerimônia foi apresentada em cinco línguas diferentes (espanhol, inglês, francês, árabe e português), a fim de contemplar e respeitar a diversidade do público presente. Além da África do Coração, o evento teve a presença de representantes da Prefeitura de São Paulo e do ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados), apoiadores do torneio.

Capitães das 16 nações que disputarão o torneio recebem os uniformes.
Crédito: Pâmela Vespoli/MigraMundo

16 times na disputa

Durante o encontro foram distribuídos os uniformes para os jogadores dos 16 times participantes deste ano: Venezuela, Níger, Marrocos, Togo, Nigéria, Mali, Guiné-Bissau, Angola, Camarões, Senegal, Congo, Gana, Iraque, Síria, Líbano e Coreia do Sul.

Foram também realizados sorteios para decidir quais nações se enfrentam nas oitavas de finais, partidas essas que estão ocorrendo neste sábado, no Campo Jardim São Paulo. Os vencedores serão classificados para as quartas de final, a ser disputada no domingo (26), das 8h às 17h no estádio Municipal Jack Marins.

Já a semifinal acontecerá no dia 1º de setembro, das 8h às 15h, no Campo de Manchester City. E a final será no dia seguinte, das 9h às 12h, no estádio do Canindé. A entrada é franca para todas os jogos, mas serão recolhidas doações de alimentos não perecíveis que serão doados a refugiados que ainda não conseguiram se estabilizar no país.

O país que conquistar o troféu de campeão disputará um outro torneio, com os vencedores das competições de Porto Alegre (Senegal) e Rio de Janeiro (Angola) – fase programada para a última semana do mês de setembro, também em São Paulo. Para completar a chapa das disputas da etapa nacional, a organização incluiu o time Malaica, equipe formada por refugiados de várias nações.

Por enquanto, as seleções africanas dominam o torneio. O atual campeão da Copa dos Refugiados é a Nigéria, única bicampeã até o momento – também faturou a edição inaugural, em 2014. Também já comemoraram o título da copa em São Paulo os times que representaram Camarões (2015) e República Democrática do Congo (2016).

Apesar do prazer de gritar “é campeão”, o título de campeão da Copa dos Refugiados é simbólico e serve muito mais à causa do refúgio do que representar uma competição em si. A cada ano seu troféu também passa de vencedor para vencedor.

Benazira Djoco, embaixadora da ONG África do Coração, apresenta troféu do torneio.
Crédito: Pâmela Vespoli/MigraMundo

Uma linguagem universal

Segundo Jean Katumba, presidente da ONG África do Coração, a Copa dos Refugiados exerce um papel fundamental para provocar o protagonismo dos refugiados e dar visibilidade à causa, por meio de uma linguagem, nomeada por ele como universal. “Porque para o futebol não é preciso falar português ou inglês. Ele é uma linguagem que mostra amor, solidariedade e irmandade”.

Os sentimentos descritos por Katumba puderam ser notados na abertura do evento, marcado por um clima de festa e ansiedade para a equipe organizadora e os jogadores presentes. Foi o caso do iraquiano Muhand Najah, 34 anos, que treinou o ano todo para representar seu país no torneio.

“Você está vendo com a gente está feliz aqui, né?! Se Deus quiser vamos fazer um jogo bonito. Esse é o nosso sonho”, afirma.

Muhand Najah, do Iraaque, mostra o amor pelo seu país desde a primeira edição das Copas dos Refugiados em 2014.
Crédito: Pâmela Vespoli/MigraMundo

No entanto, o coordenador da Copa dos Refugiados, o sírio Abdulbaset Jarour, comenta que para realizar o projeto foram superadas muitas dificuldades de estrutura – por exemplo, falta de ambulância, estádio, uniforme, arbitragem, transporte, entre outros. Mas ressalta que tal esforço é gratificante diante da importância do projeto.

“A gente trabalha um ano inteiro para poder chegar neste momento e fazer barulho. Para a gente poder fazer as pessoas olharem que somos todos iguais”.

Para se tornar realidade, a Copa dos Refugiados buscou o apoio de uma série de instituições, entre setor público, empresas e organizações da sociedade civil: Sodexo, Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania, Sindicato dos Árbitros de Futebol do Estado de São Paulo, Ponto – Agência de Inovação Social, Secretaria Municipal de Esporte e Lazer, Conectas Direitos Humanos, Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, Cruz Vermelha e ACNUR.

Ao lado de apoiadores da Copa dos Refugiados, o sírio Abdulbaset Jarour (d) autografa a bola do torneio.
Crédito: Pâmela Vespoli/MigraMundo

Expansão a caminho

A repercussão positiva sobre a Copa dos Refugiados tem resultado em novos estados brasileiros contemplados pela iniciativa. A novidade agora é que o ano que vem já haverá as edições Braíslia, Recife e Curitiba, segundo Katumba.

“Estamos quebrando a mentalidade das pessoas que pensam que refugiado tem só em São Paulo. Isso dá visibilidade aos refugiados de outras partes do Brasil. É isso o que a gente quer”.

Ele também comenta que estão estudando a possibilidade de fazer a Copa dos Refugiados no Chile e na Argentina. Assim, o time vencedor brasileiro disputaria com o time vencedor desses países.

“Aí que o brasileiro vai entender que somos brasileiros também, porque vamos defender a bandeira do Brasil”. No entanto, o presidente da ONG reforça que essa possibilidade ainda está em discussão e que o foco principal, no momento, é ampliar a Copa no Brasil.

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