Controle europeu e verão já fazem do mês de julho o mais mortal no Mediterrâneo

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Diariamente, milhares de pessoas se arriscam no mar Mediterrâneo em busca de uma vida melhor na Europa. O que os espera do outro lado (quando chegam) é incerto. Crédito: Victória Brotto/MigraMundo

ONGs que atuam no resgate aos migrantes criticam os governos europeus e pedem medidas urgentes para estancar o número de mortes na rota mais mortífera do mundo

Por Victória Brotto
Em Estrasburgo (França)

O mês de julho é considerado para muitos europeus o mês de pico do verão na Europa. Com os dias mais longos, que duram até as 22h ou 23h, o mês se torna também a época mais propícia para as centenas de migrantes que tentam atravessar o Mar Mediterrâneo, fazendo com o número de chegada de botes aumentam em quase 50%, de acordo com dados do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR).

Mas este verão, especialmente o mês de junho, se mostra atípico com o baixo número de migrantes chegando aos portos europeus. Isso porque eles estão morrendo afogados no meio do caminho – mais do que nos quatro anos anteriores. De acordo com números da OIM (Organização Internacional para as Migrações) e do ACNUR,  só nas últimas quatro semanas 629 pessoas morreram – entre mulheres, adolescentes e crianças – ao tentar atravessar o Mar Mediterrâneo.

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Isso é consequência da decisão política de alguns países do bloco, como, por exemplo, a Itália (de fechar seus portos para os barcos de resgate de migrantes) e também das novas medidas adotadas pela União Europeia para o resgate e para o acolhimento dos migrantes.

Migrantes resgatados pelo barco Aquarius.
Crédito: Karpov/S.O.S. Mediterranee

“A Europa carrega o peso dessas mortes em sua consciência”, afirmou Sophie Beau, vice-presidente da SOS Mediterranee, ONG francesa que faz resgates no Mediterrâneo e que teve o acesso aos portos italianos negados depois de resgatar 629 migrantes em junho passado. “Os governos europeus devem reagir imediatamente e garantir que as leis internacionais marítimas e humanitárias que estabelecem a obrigação de resgatar pessoas em perigo no mar sejam plenamente respeitadas”.

O porta-voz da OIM, Leonardo Doyle, disse que as mortes se devem a fatores como o mau tempo e o fim do Ramadan (mês sagrado dos muçulmanos, religião professada por parte dos migrantes que se arriscam nas travessias pelo Mediterrâneo). “Mas também reconhecemos que, com a União Europeia controlando mais as suas águas, os coiotes estão tentando fazer o máximo de lucro possível até quando eles conseguirem, colocando cada vez mais botes e mais pessoas no mar. Traficantes colocam sempre o lucro na frente da segurança”.

Já Karline Kleijer, chefe de emergência da organização humanitária Médicos sem Fronteiras (MSF), que também atua no resgate a migrantes no Mediterrâneo, foi mais dura em sua observação sobre esses dados. “As decisões políticas europeias tomadas durante as últimas semanas tiveram consequências mortais. Foi tomada a sangue-frio uma decisão que deixa homens, mulheres e crianças se afogarem no mar Mediterrâneo. Isso é ultrajante e inaceitável”.

Diariamente, milhares de pessoas se arriscam no mar Mediterrâneo em busca de uma vida melhor na Europa. O que os espera do outro lado (quando chegam) é incerto.
Crédito: Victória Brotto/MigraMundo

Ainda de acordo com os dados divulgados pelo Missing Migrants Project, da OIM (veja aqui os infográficos em inglês), os primeiros doze dias de julho foram tão mortais quanto o mês todo de julho do ano passado e matou mais do que a metade de pessoas em 2016.  De acordo com a organização, 121 pessoas morreram até agora no mar Mediterrâneo, sendo que no mesmo mês nos anos de 2017 e 2016 foram 132 e 226 fatalidades, respectivamente.

Os seis primeiros meses de 2018 contabilizam até agora 1,8% de mortes em relação ao total de chegadas – sendo que o ano todo de 2017 registrou 1,7%.  Ou seja, em 2018, 1 pessoa em cada 14 morreu ao tentar atravessar o Mar Mediterrâneo. No ano passado, era uma em cada 29 – de acordo com a ONU.

Para a médica pediata Seema Jilani,  a atmosfera política, na Europa, ao entorno do tema dos migrantes, por não terem uma resposta adequada, tem se tornado “tóxica e cada vez mais perigosa”. “Conforme a atmosfera política ao entorno dessas rotas migratórias tem se tornado cada vez mais tóxicas e perigosas, a União Europeia tem tomado ações contra a onda de migrantes que chega às suas costas”, afirmou Jilani em relato exclusivo ao jornal The New York Times (leia aqui, em inglês). Além de ter acompanhado resgates no Mediterrâneo,a médica também já trabalhou em situações de catástrofe humanitária em regiões como Afeganistão, Gaza, Iraque e Sudão.

Em seu editorial logo após a reunião do Conselho Europeu em Bruxelas, o jornal francês Le Monde afirmou que a Europa entrava em seu novo consenso: de que ela não pode mais se abrir aos migrantes e que ela acolherá os que chegarem, como manda o direito internacional, mas que também restringirá o acesso ao continente. “ A Europa mostra que está se fechando, que ela não vai mais ser tão acolhedora como foi em 2014”, afirmou o editorial do jornal, que acrescentou. “A questão está resolvida? Evidentemente que não. A urgência imediata passou, agora é um fenômeno que os Estados devem perceber e se adaptar a ele, quaisquer que sejam suas motivações, mais dignas ou menos dignas.”

Rotas mortais

Ainda de acordo com a OIM, a rota mais mortal é a do Mediterrâneo Central, a principal tomada pelos barcos que saem da Líbia e vão em direção à Itália ou à Grécia. Neste ano, foram  1.083 mortes, contra 2.853 em 2017 e 4.581 em 2016. A rota leste do Mar Mediterrâneo registraram 45,62 e 434 mortes em 2018, 2017 e 2016, respectivamente. Na rota oeste, 294,224 e 128 pessoas morreram nos últimos três anos.

A alcunha de “rota da morte” do Mediterrâneo não é de hoje. Já em 2014, um relatório da própria OIM, intitulado Fatal Journeys, já trazia dados assustadores na época sobre a quantidade de mortes de migrantes em travessias pelo mar na tentativa de chegarem à Europa.

O Fatal Journeys foi iniciado após a tragédia ocorrida em outubro de 2013 na ilha de Lampedusa, ao sul da Itália, na qual 366 imigrantes morreram em um naufrágio – uma trágica realidade continua a se fazer presente dia após dia.

Porta Di Lampedusa, monumento erguido em homenagem aos migrantes que perdem a vida tentando entrar na Europa.
Crédito: Reprodução/Global Project

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