Em crise ignorada, conflitos em Moçambique geram medo e deslocamentos forçados

Segundo o Acnur, pelo menos 100 mil pessoas foram deslocadas desde o primeiro ataque em Cabo Delgado, em outubro de 2017

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Casas queimadas por ataques de grupos armados em Cabo Delgado, Moçambique. (Foto: Padre Edegard Silva Júnior)

Pouco se fala de um cenário que assola milhares de vidas dia após dia. Na província de Cabo Delgado, no nordeste de Moçambique, milhares de pessoas vivem em uma guerra, com constantes ameaças e ataques brutais que partem de grupos armados do Estado.

O primeiro ataque aconteceu em 5 de outubro de 2017, na cidade de Mocímboa da Praia, por grupos até então desconhecidos. Em novembro do mesmo ano, algumas mesquitas acabaram sendo fechadas por suspeita de que a violência tenha surgido a partir delas. No entanto, a motivação e os mandatórios desses ataques seguem sem um esclarecimento pelo Estado.

Cabo Delgado é uma das províncias mais pobres de Moçambique, localizada no extremo nordeste do país. Sua capital é a cidade de Pemba, distante 2.442 km da capital, Maputo. A província, que conta com 2,3 milhões de habitantes, enfrenta uma guerra que já deixou muitos mortos e milhares de deslocados desde outubro de 2017.

No momento, cerca de 600 mil pessoas têm sido afetadas pelos ataques. A população é formada por pequenos agricultores e artesãos, em sua maioria sem envolvimento ideológico nem conflito religioso. 

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) informa que ao menos 100 mil pessoas já foram deslocadas forçadamente desde o primeiro ataque. Segundo o porta-voz da agência Andrej Mahecic, a violência se espalhou para nove dos 16 distritos. “Grupos armados têm como alvo aleatório aldeias locais e aterrorizam a população local” afirma.

Ainda segundo Mahecic, alguns estão envolvidos no banditismo e outros são motivados por razões oportunistas ou ideológicas. No entanto, até o momento, não há informações claras de quem são os responsáveis pelos ataques, nem de um movimento do governo para controlar as ações terroristas. 

Motivação de ordem religiosa ou econômica

O padre Edegard Silva Júnior é Missionário Saletino brasileiro e trabalha na Missão de Muidumbe, na Diocese de Pemba. Acompanhando a rotina do povo em Cabo Delgado, o padre informou que é impossível saber das reais motivações, já que muitas aldeias estão abandonadas e em várias é proibida a entrada.

Segundo ele, o que se tem no momento são apenas hipóteses:

  • Algumas mortes que ocorrem estão sendo associadas à não adesão da proposta religiosa do estado islâmico. Na comunidade de Xitaxi, em 8 de abril deste ano, houve um massacre de 52 jovens que supostamente se recusaram a aceitar as propostas dos terroristas de entrarem em suas fileiras. Também aconteceu a violação e profanação de diversos templos católicos.
  • A província de Cabo Delgado é uma das mais ricas em gás natural. É onde está a ser feito o maior investimento para a construção da “Cidade do Gás”, na Península de Afungi. Os recursos petrolíferos do local são explorados por multinacionais, enquanto a população vive na pobreza, sem acesso à educação, aos cuidados da saúde e ao trabalho. Dessa forma, pode-se dizer que essa desigualdade econômica fomenta os pregadores do fundamentalismo islâmico, que veem um terreno fértil para sua expansão ou até mesmo grupos locais que desejam garantir uma fatia. Fala-se também de um controle da região em vista da riqueza de seu solo e oceano. Consequentemente, atacar as aldeias é uma forma de despovoar a região para se ter um melhor “controle” dessas riquezas. 

Tática de sobrevivência

Os insurgentes chegam nas aldeias e tendem a atacar pessoas inocentes. As vítimas são os pobres que vivem de forma muito simples, em casas de taipa, cobertas de palha. Com os constantes ataques, também foi criado uma estratégia em que alguém da comunidade bate o sino para alertar a população assim que chegam os grupos armados. No entanto, a tática nem sempre funciona. Nessa altura, cada família já sabe que deve fugir em direção ao mato. Os insurgentes queimam casas e tudo o que têm dentro delas. Às vezes, até pessoas são queimadas vivas ou mesmo decapitadas.

População em Cabo Delgado vive sob constante medo pelos frequentes ataques de grupos armados. (Foto: Padre Edegard Silva Júnior)

As aldeias são interligadas e, por isso, mesmo com poucos recursos, a comunicação acontece de forma rápida. O padrão de ataques faz com que toda a população viva modificando seus hábitos cotidianos. O horário das celebrações e das escolas são alterados, as pessoas voltam para casa bem cedo, temem ir sozinhas trabalhar na roça. Todos vivem sob constante medo, esperando como e onde será o próximo ataque.

A ação terrorista parece crescer e manusear armas mais pesadas e modernas. Em um dos ataques ao distrito de Mocímboa da Praia, terroristas entraram por terra e por mar, com forte arsenal bélico. Percebe-se também que o grupo de insurgentes vem aumentando, uma vez que jovens são recrutados em oferta de dinheiro – considerando a realidade de desemprego e de abandono.

Piora da situação

Em abril do ano passado, algumas áreas foram devastadas pelo ciclone Kenneth. A situação tornou a população local ainda mais dependente de ajuda.

O Acnur informa que a situação humanitária na província se deteriora rapidamente e as pessoas precisam urgentemente de ajudas básicas. O padre Edegard afirma que as aldeias se encontram abandonadas, as áreas de cultivo estão completamente destruídas, recursos como roupas e alimentos estão em escassez, as famílias e a vida comunitária estão desestruturadas, e a educação está comprometida.

Mãe observa seu lar destruído. (Foto: Padre Edegard Silva Júnior)

Diante do cenário, a agência de refugiados pede apoio internacional para ampliar a sua operação humanitária.

Impactos da pandemia

Ainda de acordo com Mahecic, “há situações em que mais de 20 pessoas são obrigadas a ficar numa casa com apenas duas camas”.

Como as escolas estão fechadas devido à pandemia do novo coronavírus, as autoridades moçambicanas têm transformado algumas instituições em centros de acolhimento, mas o risco da pandemia levanta desafios em províncias com um número expressivo de casos. No distrito de Metuge, pelo menos 10 mil pessoas estão abrigadas em escolas, segundo Samuel Chakwera, representante do Acnur.

*A reportagem foi realizada em parceria do MigraMundo com a Imprensa das Irmãs Scalabrinianas em São Paulo.


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