Espanha vira principal destino de migrantes no Mediterrâneo: e o que vem agora?

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Mais de 270 refugiados foram resgatados próximos à costa espanhola. Crédito: F. Malavolta/ACNUR

Guarda costeira do país reclama de sobrecarga de trabalho com aumento das operações, e governo espanhol vive “teste de fogo”de sua liderança dentro da UE

Por Victória Brotto,
em Estrasburgo (França)

Nos últimos seis meses, a Espanha ultrapassou a Itália e se tornou o principal destino dos migrantes que cruzam o Mar Mediterrâneo em busca de uma vida melhor.  A informação é da Organização Internacional para Migrações (OIM) e do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) (veja aqui as atualizações em tempo real desses números).

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A Espanha encabeça a lista de países-destino dos migrantes semanas depois da Itália endurecer a sua política nos portos, fechando-os para a chegada de novos migrantes. Sob o comando do ministro do Interior Matteo Salvini, de extrema-direita, foram ao menos quatro barcos de ONGs de resgate impedidos de desembarcar na costa italiana.

Migrantes são resgatados próximos à costa da Espanha, que se tornou o principal destino dos barcos que atravessam o Mediterrâneo.
Crédito: F. Malavolta/ACNUR

É a primeira vez que a Espanha se torna o destino número um da maioria dos migrantes desde a intensificação do fluxo migratório em 2015.  Do dia 1º de janeiro até o dia 30 de julho, de acordo com a OIM, foram 23.993 pessoas que tomaram a chamada “rota ocidental do Mediterrâneo”, que liga o Marrocos à Espanha. Já pela rota central, entre países do norte da África e a Itália, registrou-se 18.298 pessoas chegando em solo italiano. Na Grécia, foram 16.142 pessoas chegando pela rota oriental, partindo de países como Turquia e Egito.

Em comparação com os anos anteriores, a Espanha tem hoje quase três vezes mais pessoas chegando em seu território. De acordo com a OIM, em 2017, foram 9.300 chegadas de migrantes e em 2016, 4.900.  Já as chegadas na Itália vêm caindo sistematicamente. De acordo com o representante da OIM em Roma, Flavio Di Giacomo, julho foi o mês no qual a Itália viu menos pessoas desembarcando em seus portos vindas principalmente do norte da África.

Sobre o crescimento do número de pessoas se dirigindo à Espanha e não mais à Itália, o presidente espanhol Pedro Sánchez afirmou na semana passada que a preferência pela rota ocidental, que parte do Marrocos e desemboca na Espanha, já havia começado a crescer anos atrás e que não está nada ligada ao que ele chamou “fator específico” – em referência ao fechamento dos portos pela Itália.

O presidente espanhol Pedro Sánchez cutuca países europeus, mas também sofre pressões dentro e fora da Espanha.
Crédito: Divulgação

À agência internacional de notícias Reuters, um dos líderes do governo espanhol que não teve seu nome revelado afirmou que o país está “pressionando a Europa para uma política de harmonização”, quando se trata de acolhimento de migrantes.

No mês passado, a Espanha protagonizou a solução para uma crise diplomática entre Itália e a União Europeia depois de aceitar dois barcos com migrantes que foram recusados por Salvini. Ao anunciar que as embarcações seriam recepcionadas na Espanha, Sánchez cutucou os italianos falando que “a Espanha cumpre os valores fundadores da União Europeia, como os da solidariedade”.

Em artigo publicado na influente revista norte-americana Foreign Policy, o economista Gonzalo Fanjul, cofundador do site porCausa Foundation, plataforma de notícias espanhola especializado em migrações, afirmou que o presidente espanhol vive um teste de fogo para provar sua liderança dentro do bloco europeu.

“Quando se trata de migração e políticas de refúgio, a Espanha não é muito diferente do resto da Europa. A única razão pela qual o atual governo espanhol parece estar progredindo é porque o resto da Europa está regredindo. A mostra real da liderança de Sánchez acontecerá se ele conseguir ir além de meros gestos simbólicos e mostrar que ele tem visão e vontade política para promover uma política migratória na UE baseada em ambos, princípios e interesses nacionais”.

Migrantes aguardam resgate no mar durante tentativa de travessia no Mediterrâneo.
Crédito: Anistia Internacional

Pressão política

Entretanto, desde as últimas semanas, o governo espanhol começa a sentir a pressão política que chega na mesma velocidade dos migrantes fugindo de guerras na África.  Na última sexta-feira (28), a União dos Guardas Costeiros da Espanha pressionou o governo por uma resposta dizendo que os oficiais estão “sobrecarregados” devido ao aumento dramático de operações de resgates. Só na manhã da última quinta-feira, os agentes resgataram 600 migrantes no estreito de Gibraltar. Em uma semana, foram 2 mil migrantes recém-chegados.

No mesmo dia, no final da tarde, o governo espanhol anunciou um orçamento extra de 30 milhões de euros (120 milhões de reais) para as agências que lidam com as questões migratórias no país. A ministra do Trabalho, Migração e Segurança Social, Magdalena Valerio, pediu ajuda à União Europeia no quesito portos e fronteiras, citando o caso de Gibraltar.

Migrantes conseguem chegar em terra firme após arriscada travessia de bote pelo Mediterrâneo.
Crédito: ACNUR

“Nós não podemos deixar isso explodir”, afirmou um diplomata europeu, que preferiu não ter o nome revelado, à agência Reuters.  “A rota Marrocos-Espanha está sendo mantida sobre controle há anos. O que vemos hoje não é algo dramático, mas nós devemos ficar de olho nesse crescimento”, acrescentou.

À publicação semanal alemã “Die Welt am Sonntag”, o diretor da agência europeia de segurança Frontex, Fabrice Leggeri, afirmou que a sua maior preocupação hoje é a Espanha. “Se os números continuarem a crescer com eles estão, a rota se tornará a mais importante da Europa”, acrescentou.

No final de junho, 28 líderes da União Europeia fecharam um novo acordo em Bruxelas aumentando, entre outras medidas, o número de policiais nas fronteiras do bloco. O previsto é de que até 2020 o número de oficiais aumente para 10 mil.

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