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quarta-feira, setembro 9, 2026

Feira cultural celebra independência e comunidade migrante da Colômbia em São Paulo

Sexta edição da feira Imigração em Cena teve o país vizinho como tema e dá continuidade a projeto que já trouxe outras comunidades

Por Lola Guerra

O Complexo Cultural da Funarte, em São Paulo, foi palco no último domingo (26) da VI edição da Feira Cultural e Artística – Imigração em Cena. Desta vez, o tema foi a comunidade colombiana que vive na capital paulista e arredores, além de festejar os 216 anos do início da independência do país vizinho, comemorado oficialmente em 20 de julho.

Realizada pelo Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante (CDHIC) e pelo Café Colombiano, a feira ofereceu um dia inteiro de programação gratuita, com apresentações de cumbia, danças típicas, contação de histórias, vivências infantis, comidas tradicionais, barracas de artesanato e sessão de cinema. O evento contou com o apoio da Organização Internacional para as Migrações (OIM), da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), da Prefeitura de São Paulo, da Rede Sem Fronteiras, da Funarte e da União Geral dos Trabalhadores (UGT).

“É importante que as pessoas saibam que há espaço para a cultura, para apresentações, para concorrer a editais da FUNARTE”, reivindicou o ex-coordenador de políticas para imigrantes na Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura de São Paulo (2013-2016), Paulo Illes. Para ele, a parceria com a Funarte para a representação da cultura dos povos através da intervenção pelo espaços públicos seria uma forma das comunidades migrantes ocuparem espaços. Atualmente, Illes coordena o CDHIC, que apenas este ano atendeu a 1780 refugiados, sendo os colombianos o 4º grupo nacional mais atendido pelos serviços da instituição. 

Reforçou a importância do apoio da Secretaria de Cultura da Prefeitura de São Paulo ao evento como forma de facilitar o acesso de comunidades migrantes às políticas públicas. “Essas festas não são de um país, não são da Colômbia, do Togo, do Afeganistão, são as festas de São Paulo”, disse Illes. 

Público durante edição dedicada à Colômbia na Feira Imigração em Cena, na Funarte, em São Paulo – julho/2026.
(Foto: Lola Guerra/MigraMundo)

A força da comunidade colombiana em São Paulo

A edição dedicada à Colômbia destacou a presença da maior comunidade do país vizinho no Brasil. Dados do Observatório das Migrações (NEPO/Unicamp), com base em registros da Polícia Federal, apontam que mais de 34 mil imigrantes colombianos vivem na capital paulista e na Região Metropolitana .

O projeto Imigração em Cena já havia homenageado anteriormente os povos do Togo, Haiti, Palestina e Afeganistão, consolidando-se como um espaço permanente de intercâmbio cultural e valorização da diversidade dos imigrantes em São Paulo.

Um dos destaques da programação foi a exibição do filme colombiano “La Suprema”, dirigido por Felipe Holguín . A obra, que já foi aclamada em diversos festivais internacionais, incluindo o Festival de Toronto e o Festival de Cine Iberoamericano de Huelva, conta a história de Laureana, uma adolescente em um povoado caribenho onde não há eletricidade .

Quando descobre que seu tio distante lutará pelo título mundial de boxe e o evento será transmitido ao vivo pela televisão, ela mobiliza toda a comunidade para conseguir energia elétrica e uma TV na praça, para que todos possam assistir ao combate . A trama é inspirada em uma anedota real de Kid Pambelé, boxeador colombiano que conquistou o título mundial em 1972 .

Entre as atrações promovidas pelo evento estavam as apresentações musicais, como aquela que marcou o encontro do coletivo de dança Prende la Vela e a banda Cumbia de los Mares. “Mais do que nos apresentarmos como um espetáculo, gostamos de dizer que estamos promovendo uma experiência para multiplicar, para mostrar um pouco de nossa cultura e para compartilhá-la”, disse a dançarina Andrea Villalobos. O grupo, criado em 2018, apresentava-se pela primeira vez com a banda colombiana radicada em Campinas (SP). 

“Prende la Vela” faz alusão à famosa música homônima, que já foi interpretada por grandes nomes como Totó La Momposina, convidando os ouvintes a acenderem uma vela para iniciar a dança e a festa à beira-mar. Assim, as dançarinas entraram em cena portando velas para dar vida ao que diz a letra. Conforme a explicação de Villalobos, o significado da vela seria juntar as pessoas perto da luz, uma vez que a cumbia é uma tradição que se realiza próximo ao fogo, por seus múltiplos usos e significados.

Sobre a festividade celebrada, Villalobos comentou que “é uma independência que ainda estamos em busca em muitos sentidos”, mas que adquire um significado mais forte para a comunidade migrante “porque também é uma forma de reivindicar nossos direitos e de reconhecer de onde viemos, mas também de entender o lugar onde estamos e que nos acolhe”. Destacou também a importância da união entre os colombianos na diáspora não apenas em torno de uma data, mas também para compartilhar da cultura e do sentimento de pertencimento que precedem a independência. “Cada dia que resistimos dançando, tocando tambor ou recordando de onde viemos, é independência para nós”, concluiu. 

Breve histórico da independência colombiana e contexto atual

A data de 20 de julho de 1810 marca o “grito de autonomia” que deu início ao movimento pela independência do vice-reino de Nova Granada. O episódio conhecido como “El Florero de Llorente” – um pedido de um vaso de flores feito por criollos a um comerciante espanhol que resultou em insultos e na revolta popular – é considerado o estopim simbólico do processo.

A independência, no entanto, só foi consolidada após anos de conflitos. Em 1819, Simón Bolívar liderou a campanha que culminou na Batalha de Boyacá, garantindo a libertação do território. Em 17 de dezembro daquele ano, foi criada a República da Colômbia (Gran Colombia), que reunia os atuais territórios da Colômbia, Venezuela, Equador e Panamá. O projeto unionista, porém, desfez-se em 1830, quando cada região seguiu seu próprio caminho .

Na Colômbia, as comemorações do 20 de julho tiveram um tom político especial. O presidente Gustavo Petro, que deixa o cargo em 7 de agosto quando Abelardo de la Espriella tomar posse , fez seu último discurso como mandatário durante o tradicional desfile militar, que pela primeira vez ocorreu na localidade de Ciudad Bolívar, no sul de Bogotá .

Cerca de 6 mil militares desfilaram na ocasião, acompanhados por bandas marciais, veículos táticos e unidades caninas . Petro convocou a população para dar um “segundo grito de independência” em defesa das reformas sociais implantadas em seu governo e advertiu sobre os riscos de retrocessos . O presidente eleito, De la Espriella, acompanhou o desfile em Medellín .

Em São Paulo, a celebração da independência colombiana aconteceu longe das tensões políticas, com foco na cultura, na gastronomia e na arte que unem a comunidade imigrante e o público brasileiro em torno da rica herança colombiana.


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