Hebron, uma síntese da questão palestina

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Soldado israelense armado vigia rua na cidade de Hebron, que é uma síntese do conflito entre Israel e Palestina. Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

Na última reportagem da série MigraMundo na Palestina, entenda a situação da maior cidade da Cisjordânia e compreenda o impasse que se estende há décadas entre Palestina e Israel – e por que tantos palestinos vivem deslocados de sua terra natal

Por Alethea Rodrigues
Em Hebron (Palestina)

Não é exagero dizer que, se você quiser entender o conflito Israel-Palestina, seu conjunto de histórias conflitantes e a dura realidade que torna a paz uma possibilidade distante, vá a Hebron.

Situada bem no centro da Palestina, é uma das cidades mais antigas do mundo, a maior da Cisjordânia e a segunda maior do território palestino – depois de Gaza. É o lar de cerca de 200 mil palestinos e uma das terras mais almejadas por Israel, que a considera sagrada.

Hebron é dividida em três setores: H1, controlada pela Autoridade Palestina; H2, que corresponde a cerca de 20% da cidade que é administrada por Israel; e um terceiro setor sob o controle total das Forças Defensivas de Israel em que a população é formada por judeus, com algumas dezenas de palestinos.

Vista parcial da cidade histórica de Hebron, um dos pontos nevrálgicos do conflito Israel-Palestina.
Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

Depois da Guerra dos 6 Dias (1967), Hebron voltou a estar sob o controle israelense e começaram a ser construídos assentamentos judeus e desapropriar casas dos palestinos residentes, exatamente no coração da cidade. Após esse acontecimento, grande parte do centro se tornou fantasma, pois os palestinos fecharam as portas de suas casas e comércios e saíram para escapar dos postos de controle e conflitos existentes.

O exército israelense controla o movimento dos palestinos que vivem dentro do H2 e nas ruas da Cidade Velha através de câmeras e postos de controle. Várias delas estão fechadas para acesso dos mesmos. Há 18 postos de controle – os chamados checkpoints – no local, causando tensão na região e restrição da liberdade de ir e vir dos residentes. Aqueles que vivem dentro de áreas restritas ainda devem passar por esses pontos de verificação diariamente.

Hebron é sagrada para judeus, cristãos e muçulmanos. Segundo a tradição, o local que os judeus chamam de Túmulo dos Patriarcas – e os muçulmanos, de Mesquita de Ibhraim – estão sepultados Abraão, Sara, Isaac, Rebeca, Jacó e Lea. É considerada a segunda cidade mais sagrada do judaísmo após Jerusalém. Seria o principal motivo pelo qual Israel ocupou e atualmente controla essa área.

Instalações israelenses na cidade de Hebron, considerada sagrada por judeus e também por muçulmanos.
Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

“Queremos viver em paz”

Enquanto vende seus artesanatos típicos palestinos no mercado mais famoso e antigo de Hebron, que fica na chamada “parte velha” da cidade, Jamal Maraga, 57, conta como é viver no meio de uma guerra.

“A vida dos palestinos piorou desde 1967, quando Hebron voltou a estar sob o controle israelita e começaram a ser construídos assentamentos judeus e desapropriar casas da população residente, exatamente no coração da cidade”.

Após a ocupação israelita, o mercado foi perdendo clientes, principalmente turistas que ficaram receosos de frequentar o local que nem sempre é seguro.

“Milhares de palestinos fugiram daqui, não aguentaram a pressão que os soldados fazem todos os dias para que a gente desista de continuar trabalhando e vá embora da nossa própria terra”, afirmou o comerciante.

Jamal tem uma loja no mercado há cinquenta anos. É com a renda desse estabelecimento que sustenta a esposa e os três filhos. O pequeno comércio é herança do pai, que construiu e criou toda a família com a renda dos mesmos artesanatos e faleceu, sem desfrutar da paz na região.

“Comecei a trabalhar aqui com sete anos ajudando meu pai. Vimos a guerra de perto, mas nunca desistimos. Por quase três anos Israel proibiu de abrirmos nossa loja. Vivíamos de doações de familiares que vivem fora da Palestina. Mas resistimos, estamos aqui e eles não vão me convencer de deixar o lugar onde nasci, onde está meu coração”.

Atualmente, as lojas do mercado da cidade velha que ainda permanecem abertas foram revestidas com redes de proteção, segundo o comerciante, para se protegerem dos ataques dos israelenses. O estabelecimento é a céu aberto e cercado por assentamentos judeus, fruto da ocupação de Israel. Através das redes é possível ver quilos de lixo como garrafas, madeiras velhas, papeis e restos de ovos.

Grade sobre o mercado de Hebron impede que o local seja alvo de lixo jogado de assentamentos judaicos vizinhos ao local.
Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

“Eles atiravam da janela dos prédios diversos materiais que caíam dentro do mercado e estragavam nossas mercadorias. Hoje trabalhamos cercados como prisioneiros e isso não é saudável para ninguém, mas pelo menos estamos mais seguros”.

Jamal aposta no testemunho de seus clientes turistas como força de mudança dessa realidade em Hebron – e na Palestina como um todo.

“Muita gente de fora desconhece essa realidade, por isso, sempre peço aos meus clientes turistas que vejam essa situação de perto, sintam o que vivemos aqui e espalhem isso ao mundo. Vale muito mais do que qualquer mídia. Queremos viver em paz e não como animais dentro do nosso próprio território.”

Dados da UNRWA, entidade da ONU (Organização das Nações Unidas) responsável especificamente pelos refugiados palestinos, indicam que
há 5,4 milhões de palestinos refugiados no mundo. Alguns deles vivem em campos de refugiados dentro da própria Cisjordânia, como Aida – visitado pelo MigraMundo.

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