Refugiados do próprio país, palestinos vivem há décadas em campos na Cisjordânia

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Grafite em muro no campo de refugiados palestinos de Aida, na Cisjordânia. Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

A maioria sobrevive com o básico, sente na pele diariamente as dores de um conflito que parece sem fim, mas ainda alimenta a esperança de retornar para casa

Por Alethea Rodrigues
Em Aida (Cisjordânia)

No Brasil, pouco se conhece sobre a real complexidade do problema existente há décadas entre Israel e Palestina. Mas, a “catástrofe”, denominada assim pelos palestinos, pode ser resumidamente compreendida se pensarmos a partir de 14 de maio de 1948, quando Israel foi fundado e 750 mil deles tiveram que fugir de suas casas para países vizinhos ou foram expulsos pelas tropas israelenses.

O ano de 1948 era apenas o começo de um conflito que dura até hoje e parece longe de um acordo de paz. Mas, a pergunta é: “Como e onde vivem esses refugiados atualmente?” Cerca de 5.000 estão no campo de refugiados de Aida. Centenas deles sentiram na pele toda essa mudança de vida, e o restante foi a herança deixada por eles de uma vida toda de sofrimento e luta pela liberdade.

O campo de Aida foi criado em 1950 na Cisjordânia, mais precisamente em Belém. A cidade é considerada sagrada porque, segundo a Bíblia, foi o local do nascimento de Jesus Cristo. Uma região que supostamente deveria reinar a paz, é palco de um conflito que parece eterno, uma panela de pressão, sempre prestes a explodir.

Entrada do campo de refugiados de Aida, na Cisjordânia. Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

Um acordo entre Israel e Palestina é complicado, já que os conflitos vão além de divergência religiosa, dinheiro, disputa por territórios e questões políticas. Mexe com o ego, vontade de exercer a liberdade de ir e vir e com o futuro de milhares de famílias, misturados com mágoa do que já passou e indignação por parte de quem perdeu casa, integrantes da família e até a própria identidade, já o território palestino não é oficialmente considerado um país – embora seja considerado membro observador da ONU, mesmo status conferido ao Vaticano.

O acampamento foi estabelecido pela UNRWA, entidade da ONU (Organização das Nações Unidas) responsável especificamente pelos refugiados palestinos, que o arrendou do governo da Jordânia – que à época controlava a região.

Dados do relatório Tendências Globais, do ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados) indicam que há 5,4 milhões de palestinos refugiados no mundo, todos sob mandato da UNRWA.

Fazendo arte a partir dos restos da guerra

Por pelo menos uma década, essas pessoas viveram em tendas improvisadas de maneira precária em Aida. Pouco a pouco, com cada dia menos esperança de voltarem a terra natal juntamente com o desejo de terem uma vida “normal”, começaram a construir suas casas ali mesmo e se estabeleceram no local onde permanecem até os dias de hoje.

Akram Warah foi um deles. Nasceu e cresceu no campo, junto com mais 13 irmãos. Os pais já faleceram, e hoje com 51 anos de idade, ainda vive em Aida – agora com os seis filhos e a esposa que conheceu há 24 anos, durante uma temporada de trabalho no Iraque.

Akram Warah, ao lado de uma das filhas. Ele nasceu, cresceu e vive até hoje no campo de Aida. Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

Warah contou que depois de muito esforço conseguiu se formar como Engenheiro Civil, mas depois das restrições e barreiras impostas por Israel, principalmente com a construção de um muro com mais de 700 quilômetros de extensão, que isola os palestinos de regiões agrícolas e cidades vizinhas como Jerusalém, trabalhar em qualquer lugar, principalmente na área em que se formou se tornou cada vez mais difícil. Além disso, pelo fato da população não ter mais acesso ao mercado israelense, poucos conseguiram ser absorvidos pela frágil economia palestina.

Foi com a ajuda de um dos irmãos que vive em Dubai que o engenheiro conseguiu o dinheiro necessário para construir a humilde casa que abriga a família, casa essa que ele mesmo empilhou tijolo por tijolo.

“Pode parecer brincadeira, mas construí tudo isso, os dois andares, sozinho, em apenas um ano inteiro de trabalho duro. Cada tijolo, cada janela, toda a parte elétrica. E é assim que consegui dar um pouco mais de conforto para a minha família”, contou orgulhoso e com lágrimas nos olhos. A construção foi finalizada dois anos atrás. Durante muito tempo Akram viveu de improviso na casa de um dos irmãos, que também vive em Aida.

O campo que já foi palco de conflitos perigosos, mortes, protestos com finais tristes e invasões de soldados israelenses a todo momento, há quase um ano desfruta de um pouco de paz.

Na rua, muçulmano palestinos param e fazem uma das orações diárias do Islã em Aida. Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

“Não vou dizer que estamos 100% seguros, mas vivemos mais tranquilos, não passamos mais noites em claro com a sensação que algum soldado israelense vai invadir nossa casa a qualquer momento. Há um tempo atrás batiam frequentemente na minha porta para fazerem revistas, nos tiravam força da própria casa. Apesar de me sentir triste com tudo que já vivemos, além de ver meus filhos e minha esposa passarem por essa situação constrangedora, sempre preguei a paz. Não oferecemos perigo algum, portanto não temos problemas com ninguém e não criamos nenhuma situação que nos torne alvos. Dessa forma, procuramos viver da melhor maneira possível”, finalizou.

Atualmente o acampamento sofre com a superlotação, mas ainda assim está ligado as redes municipais de eletricidade e água de Belém, e todos conseguem ter acesso. A população sobrevive com o básico – quase metade da população não trabalha e as redes de esgotos são bastante pobres. Em contrapartida, a ONU gerencia duas escolas dentro do próprio campo de Aida e praticamente todas as crianças têm a educação garantida.

O campo de refugiados de Aida recebe um grande número de turistas, muitos curiosos para conhecer a história de vida dessas pessoas e outros que decidem voluntariar em algumas organizações existentes ao redor do campo que dão assistência aos moradores palestinos. E é através do turismo que Akram consegue sustentar a família. Além de receber frequentemente intercambistas em sua casa, que passam uma temporada compartilhando culturas e ainda desenvolvem projetos para melhorias campo e bem estar dessas famílias, ele mantém uma lojinha a poucos metros de casa, há pelo menos dez anos.

O diferencial do pequeno comércio, em relação aos muitos outros existentes em Belém, é que todos os produtos vendidos são reciclados dos materiais que sobraram de bombas e outros artefatos usados durante esses anos de conflitos entre Israel e o território palestino. “Estava pensando em como tirar bom de uma guerra tão horrível como essa. Até que, de repente, a ideia veio na minha cabeça.

Loja mantida por Warah no campo de refugiados de Aida, que vende artesanato reciclado de artefatos de guerra.
Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

Com a ajuda de um dos filhos Akram confecciona cada peça, como bijuterias e artigos palestinos que lembram a luta pela tão sonhada liberdade. “Agora o movimento está melhor. Teve uma época que o campo deixou de receber turistas porque era um local perigoso e isso prejudicou bastante o nosso trabalho”, contou o palestino. Apesar do esforço a renda mensal é muito instável, varia ao equivalente a R$ 200 a R$ 1.000, dependendo da quantidade de estrangeiros que recebem.

Muitos dos refugiados que vivem no acampamento, e na Palestina como um todo, ainda aguardam uma solução para esse problema e a chance de voltarem para a verdadeira casa. Ao ser questionado sobre o assunto, Akram não pensou duas vezes.

“Penso em voltar pra casa, para o lugar onde meus pais nasceram, é o sonho de toda a nossa família. Mas, antes disso, um acordo precisa acontecer. Quero me mudar daqui com a certeza de que viveremos em paz. Todos os meus filhos estão estudando e meu sonho é que eles tenham um futuro brilhante, aqui ou em qualquer outro lugar do mundo que estiverem, mas sempre seguros”, concluiu.

Artesanato preparado por Akram Warah e sua família a partir dos restos de artefatos de guerra.
Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

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