“Não tem como trazer nosso filho de volta, mas temos que continuar lutando”, diz palestino em Aida

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Shadi Obeidallah, pai de Aboud Sadhi, palestino morto em frente ao escritório da UNRWA em Aida. Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

Pai de Aboud Sadhi lida com a perda do filho, retratado em muro do campo de refugiados próximo à cidade de Belém

Por Alethea Rodrigues
Em Aida (Cisjordânia)

Shadi Obeidallah é um dos palestinos que nasceu, cresceu e vive no campo de refugiados de Aida, em Belém (Cisjordânia). Hoje com 43 anos, continua no campo, agora com esposa e quatro filhos, exatamente no mesmo lugar, só que já não mais em uma tenda, em situação tão desumana. O palestino trabalhou por 30 anos em uma empresa de mármore que exportava o material para o Brasil. Com o dinheiro desses anos trabalhados, pouco a pouco conseguiu construiu própria sua casa, com a ajuda do pai. Eles mesmo fizeram todo o serviço que durou cerca de cinco anos.

Foi no campo onde Obeidallah viveu toda sua historia até hoje, com conquistas, tristezas e desafios diversos, que ele viu seu filho de apenas 13 anos perder a vida. Em 2 de outubro de 2015, o pequeno Aboud Shadi, estava voltando da escola, e a caminho do parquinho, onde passava a tarde se divertindo com amigos, parou na frente do escritório da UNRWA, que fica bem na entrada do campo, para conversar com os colegas. No local estava acontecendo um pequeno protesto de moradores, algo comum na região, quando um sniper [atirador de elite] do exército israelense disparou, a menos de 200 metros de distância, um único tiro no menino, que o acertou no coração.

“A partir daí tudo mudou, nossa família nunca mais foi a mesma. Meu filho era tudo pra nós, um menino alegre, sem maldade no coração, estudioso e cheio de sonhos”, contou o pai, emocionado.

Obeidallah afirmou que, segundo testemunhas, seu filho não estava atirando pedras nos soldados israelenses ou teve qualquer atitude que justificasse o disparo. Aboud morreu sem saber o motivo e se tornou, para os moradores do campo, símbolo da luta pela paz, desejada ha décadas. Em um cartaz, na entrada do Aida Camp, na frente do escritório da UNRWA onde aconteceu o crime está um cartaz com a fotografia de Aboud e a seguinte mensagem: “Meu nome é Aboud Sadhi, um refugiado palestino de treze anos. Estava aqui mesmo, parado com meus amigos, quando um sniper israelita me matou com um tiro. Minha alma vai ficar aqui, perseguir o assassino, e motivar meus colegas de turma. Me questiono se a comunidade internacional trará justiça para as crianças palestinas”.

Foto de Aboud Sadhi no portal de entrada do campo de Aida.
Crédito: Alethea Rodrigues

Na época do crime, Israel afirmou que o tiro não foi intencional e que o alvo era um adulto que organizava frequentes protestos e estava próximo da criança no momento do disparo. Até o momento não ouve nenhum tipo de punição para o atirador. “Nessa guerra, punição para esse tipo de crime comum aqui praticamente não existe. Não temos a quem recorrer. Infelizmente tivemos que aceitar e conviver com essa dor que será eterna. O pior é que, se você observar o cartaz com a foto do meu filho está cheio de marcas de tiros, isso significa que foi intencional e não houve qualquer tipo de arrependimento”, concluiu o pai.

Por décadas o campo de refugiados palestinos de Aida foi um dos principais alvos das tropas israelenses – principalmente por estar próximo ao muro de 750 quilômetros de extensão construído por Israel para restringir a entrada de palestinos em Jerusalém. Um outro forte motivo seria porque Belém, segundo a Bíblia, é exatamente o local onde Jesus Cristo nasceu – e os israelenses também consideram a cidade como sagrada.

Há quase um ano, Israel deu uma trégua e o campo dificilmente está sendo alvo de conflitos. Apesar disso, a família do pequeno Aboud ainda convive com o medo e todos estão traumatizados. “Temos o sonho de voltar para onde nossas famílias nasceram, mas se isso não for possível viveremos aqui, porque é nesse lugar que temos as memórias do nosso filho. Fico preocupado todos os dias quando meus filhos saem para ir a escola, mas não temos outra opção”.

Coincidentemente, Obeidallah trabalha há três anos no escritório da UNRWA, exatamente. Ele faz serviços gerais e com esse dinheiro sustenta toda a família. “Não tem como trazer o nosso filho de volta, mas temos que continuar lutando e tentando viver a vida da melhor maneira possível. Só espero que meus outros filhos terminem os estudos e tenham um futuro brilhante, e principalmente em paz. E se for possível voltar para nossa terra, voltaremos”, finalizou.

Escritório da UNRWA em Aida, local onde Aboud Sadhi foi morto e que tem hoje um retrato seu.
Crédito: Alethea Rodrigues

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