Mãe, trabalhadora, estudante: as jornadas múltiplas de Mariza no Brasil

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A fisioterapeuta angolana, Mariza Kalongua: mulher, migrante, mãe, trabalhadora e estudante. Crédito: Eva Bella/MigraMundo

Este perfil é parte do Especial Mulher Migrante e Trabalho, produzido pelo MigraMundo e disponível em português e espanhol

Por Eva Bella
Tradução para o espanhol: Brisia Pina Zavala

Ela não queria vir para o Brasil. Mas cedeu ao sonho do pai, que era formar os filhos no exterior, pois assim teriam uma carreira mais valorizada em Angola. Foi assim que Mariza Kalongua, 30, caçula da família, chegou ao Brasil há oito anos, junto com dois irmãos – a outra irmã casou cedo e ficou em Angola.

Antes de chegar aqui, Mariza conta que levava uma vida tranquila, sem preocupações. Tinha um noivo em Angola, mas terminou o relacionamento devido à insistência dos pais em se mudar para o Brasil.

Mariza se estabeleceu em São Paulo (atualmente é a única entre os irmãos que continua no Brasil), passou no vestibular e começou a estudar fisioterapia na Unip (Universidade Paulista) com a ajuda dos pais que queriam investir na carreira da filha caçula. Marisa começou a namorar com um amigo angolano que vinha visitá-la no Brasil – e que agora é seu marido e pai do seu filho, de dois anos e meio. Mas como a gravidez foi de alto risco, precisou paralisar temporariamente a graduação, perto do fim do curso. O bebê nasceu prematuro, com apenas seis meses de gravidez, mas está saudável.

Pouco depois do nascimento do filho, Mariza retornou à universidade e concluiu a graduação em fisioterapia. Em seguida, começou a enviar currículos e entrou na pós-graduação – contrariando o marido, que queria que ela voltasse para Angola para cuidar do bebê. Chamada para trabalhar em três locais diferentes, escolheu um hospital na zona sul de São Paulo por ter expediente compatível com a creche na qual deixa o filho durante a semana.

Atualmente Mariza tem a pós-graduação concluída e já completou um ano trabalhando no hospital. Mesmo com a insistência do marido para que volte para Angola, ela pensa ainda em fazer mestrado e doutorado antes de um possível retorno à terra natal. “Não sei se fico mais, se retorno”.

Mesmo com uma trajetória aparentemente tranquila, ela também sente o peso da sobreposição de jornadas de trabalho que afetam outras mulheres – migrantes ou não: ser mãe, trabalhar, estudar, cuidar da casa, entre outras tarefas.

“Fica um pouco puxado. Depois que comecei a pós-graduação ainda ficou mais complicado, porque tem que fazer a pós, tem que trabalhar, que cuidar de casa, do bebê, não tenho quem me ajude com o bebê no dia a dia”. Aos finais de semana, quando trabalha 12 horas por dia e não tem creche, Mariza deixa o filho com uma tia.

Além da dificuldade de conciliar as diferentes jornadas, Mariza conta que já sofreu preconceito no Brasil. No entanto, ela diz que se sente feliz e que sabe se defender sozinha. “Conheço bem meus direitos, já vim para o Brasil sabendo o que poderia passar aqui, mas é a vida que segue. Hoje está aqui, amanhã quem sabe?”

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