Make the World Great (Again)

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Fronteiras livres (muito além das físicas), uma das reivindicações da Marcha dos Imigrantes 2017, em São Paulo, com temas locais e globais. Crédito: Filipe Dias

O mundo globalizado demonstra fraturas com a marcha do nacionalismo. Será essa uma ameaça à globalização e tantas outras conquistas multiculturais dos últimos anos?

Por Manuela Marques Tchoe

Quantas vezes nos últimos anos ouvimos slogans derivados do “Make America Great Again”? De início, essa frase parece inocente, um daqueles slogans para motivar pessoas após uma crise a levantarem um país. Mas essa frase logo perde o tom ingênuo quando é seguida da máxima “America First”. Daí vieram o India First e até, quem sabe, o Brazil First. Todos esses movimentos para ser o primeiro revelam o caráter nacionalista exagerado, aquele que repele pessoas que não pertencem a certo padrão. No caso da América de Trump, são os brancos republicanos quem fazem parte do clube. Na Índia, são os hindus, apesar da diversidade étnica e religiosa do país. E no nosso Brasil, uma miríade pessoas que se identificam com o conservadorismo da família “tradicional” brasileira.

Outros países não são tão indiscretos como a tríade EUA, Índia e Brasil, mas a marcha para o primeiro lugar leva a China a exercer sua força e ignorar disputas territoriais em mar e terra, assim como levou o Reino Unido, sempre com o rei na barriga, a votar contra a permanência na União Europeia. É cada vez mais óbvio que muitos estão insatisfeitos com o internacionalismo, a cooperação entre países em temas globais, desde o terrorismo até o combate às drogas. Cada vez mais o isolacionismo ganha força, sob a estampa do patriotismo (mas que de patriótica nada tem).

A globalização rendeu frutos em diversos aspectos, no comércio, turismo, imigração intensa (aqui não me refiro a questão dos refugiados, mas de imigrantes econômicos), cooperação internacional como a União Europeia e tantos outros acordos multilaterais. Mas o benefício principal da globalização é difícil de mensurar: são mais pessoas transitando por países diferentes, aprendendo diferentes línguas e culturas, casando-se com estrangeiros e abrindo o leque de famílias multiculturais. O mundo nunca foi tão plural, tão diverso na capacidade de misturar pessoas de diferentes culturas em relacionamentos duradouros. Nunca houve tanta curiosidade de conhecer comidas diferentes, de viajar, de trabalhar num país distinto. De, ao conhecer o diferente, tolerar e aceitar.

Mas fato é: a globalização tem aspectos fantásticos, mas também deixou muita gente a ver navios, como os trabalhadores industriais do meio-oeste americano. E essas pessoas que perderam seus empregos ou que não fazem parte dos vencedores do mundo globalizado estão reagindo, nostálgicos de um tempo em que tudo parecia em ordem. Nesse âmbito, procura-se o isolamento em fórmulas populistas como America First até o apego irracional aos tempos de ditadura no Brasil. O nacionalismo moderno ganha forma novamente, e formas de cooperação internacional caem por terra porque cada país quer ser o primeiro a chegar no pódio. Mais especificamente, o nacionalismo cresce na frustração dessas pessoas, criando um movimento de reação que é excludente de minorias (imigrantes, gays) e que cegamente abraça retrocessos que se baseiam em tradição.

Nesse sentido, nações e cidadãos se isolam em suas próprias confabulações, onde temas que correm o mundo como imigração, feminismo, diversidade de orientações sexuais, etc., vão de encontro à agenda conservadora. De repente, os ganhos obtidos com a multiculturalidade caem por terra, assim como a possibilidade de estar aberto ao novo e ao diferente, porque a corrida do “{{nome do país}} First” é um movimento de exclusão. Aqueles que fazem parte do clube se beneficiam, enquanto o “resto” fica ao Deus dará.

Bandeira dos EUA em noite de neblina no Empire State Building, em Nova York. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo – mai.2013

Na cabeça de Trump, deve ser a América (branca e religiosa). Para Xi Jianping, são os chineses da etnia Han que devem triunfar. Para Narendra Modi, são os hindus. Os movimentos nacionalistas dão carta branca para o racismo, a misoginia, a xenofobia. Assim todo mundo quer ser o primeiro a chegar no pódio, e não importa o resto. E isso é perigoso para um mundo que poderia ser muito melhor depois de tantas guerras, colonização, limpezas étnicas e supremacia seja lá de que cor da pele.

O mundo globalizado e conectado é a base para a tolerância, para o respeito do que é diferente. Se cada um se isola na sua redoma de vidro e grita fake news toda vez que algo é contra a sua opinião, se cada um acha que deve ser o primeiro sem medir as consequências, o resultado é mais do que previsível – vide as guerras mundiais que o século XX presenciou, com líderes megalomaníacos que tanto queriam ser os primeiros.

Existem provas suficientes que o nacionalismo não é a resposta para as frustrações de quem não beneficiou da globalização; mas qual será a resposta?

O maior desafio do século XXI é, sem dúvida, encontrar respostas e caminhos de inclusão, até mesmo para aqueles que se dizem nacionalistas.

Manuela Marques Tchoe é uma escritora baiana que atualmente reside em Munique, Alemanha. É autora de “Ventos Nômades”, uma coletânea de contos que cruzam continentes e exploram o desejo de viajar e a vida de imigrante, e do romance “Encontro de Marés”. Manuela também escreve para o seu blog pessoal Baiana da Baviera e está presente no Facebook, Instagram e Twitter com reflexões sobre a vida de imigrante, viagens e literatura.


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