“Estamos aqui”: 11ª Marcha dos Imigrantes leva 4.000 à avenida Paulista

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Bandeiras unidas na 11ª Marcha dos Imigrantes, tradicional ato das comunidades migrantes em São Paulo. Crédito: Filipe Dias

“Vidas Pretas Também Importam”, direito ao voto e políticas públicas efetivas foram algumas das reivindicações do ato deste ano, que atraiu pessoas de dezenas de nacionalidades

Por Amanda Rossa, Géssica Brandino e Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)
Atualizado às 16h46 em 04/12/17

Pela segunda vez, a avenida Paulista foi palco da Marcha dos Imigrantes, principal mobilização das comunidades migrantes que vivem em São Paulo e que chegou à 11ª edição neste ano.

Segundo os organizadores, cerca de 4.000 pessoas participaram da edição deste ano, contra 2.000 em 2016. O ato foi organizado por uma comissão composta por brasileiros e imigrantes (que eram maioria) e contou com apoio logístico do CAMI (Centro de Referência e Acolhida do Imigrante). Juntos, trabalharam por cerca de quatro meses para mobilizar as diferentes comunidades migrantes, instituições da sociedade civil envolvidas na temática migratória, e também para conseguir a infraestrutura necessária para o evento – colaboraram, por exemplo, a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) e os gabinetes das vereadoras Juliana Cardoso (PT) e Patrícia Bezerra (PSDB).

“Foi um trabalho de mobilização muito grande feito por muitos imigrantes latino-americanos, africanos e asiáticos para trazer os imigrantes aqui, o que também é um processo de empoderamento, construção de redes e contatos pessoais para o brasileiro também entender a pauta dos imigrantes”, reforça Alex Vargem, da equipe de organização da marcha.

O esforço, pelo jeito, foi recompensado. Bandeiras de Bolívia, Chile, Angola, Mauritânia, Senegal, Mali, Haiti, República Democrática do Congo, Paquistão, Bangladesh e Palestina, entre outras, dão uma ideia da diversidade presente nas cerca de três horas de duração da Marcha.

Bandeiras unidas na 11ª Marcha dos Imigrantes, repetindo a fórmula de anos anteriores.
Crédito: Filipe Dias

Apresentações culturais da comunidade boliviana, a segunda maior entre os migrantes em São Paulo (ao menos 60 mil pessoas, de acordo com a Prefeitura de São Paulo, sem contar descendentes) e do grupo musical Lakitas Sinchi Warmis (formado apenas por mulheres migrantes e brasileiras de primeira geração) trouxeram ainda mais cores e sons para a manifestação.

Também era nítida a presença de mulheres com crianças em maior número do que nas edições anteriores da Marcha.

“Estamos Aqui”, direito ao voto…

Para este ano o tema da Marcha foi “Pelo Fim da Invisibilidade dos Imigrantes”, em alusão às dificuldades vividas no cotidiano e pela ausência ou deficiência de políticas públicas voltadas às comunidades migrantes.

Cartaz que conduzia a 11ª Marcha dos Imigrantes.
Crédito: Filipe Dias

A manifestação ganhou ainda mais significado e importância frente aos acontecimentos recentes no Brasil, como a entrada em vigor da Lei de Migração e as mudanças promovidas pelo governo tanto no ato de sanção como no decreto regulador, fortemente criticados pela sociedade civil.

“Marchamos pela anulação do decreto 9.199/2017 que regulamentou a Lei de Migração (Lei 13.445/2017), com artigos que criminalizam migrantes, sobretudo em situação irregular e reivindicamos uma nova regulamentação democrática com ampla participação da sociedade civil, imigrantes e refugiados. Marchamos pela criação e fortalecimento de políticas públicas e instituições que promovam a inclusão e garantia de direitos de imigrantes e refugiados em nível municipal, estadual e nacional”, traz trecho do manifesto da Marcha, que foi lido ao final do ato.

Imigrantes de países como Angola, Haiti e República Democrática do Congo também leram manifestos e aproveitaram o microfone aberto para expressar suas pautas, como os protestos contra a situação dos migrantes na Líbia e a frase “Vidas Pretas Também Importam”. Ao final do ato, o coordenador-geral do CAMI, Roque Patussi, antecipou a data da próxima edição da marcha para 2 de dezembro de 2018, também na avenida Paulista.

A marcha deste ano também trouxe de volta as bandeiras confeccionadas por imigrantes e que ficaram expostas em estações do metrô de São Paulo na intervenção artística Fronteiras Livres, nos meses de outubro e novembro.

Primeira vez

Outro indício de sucesso da mobilização pela marcha foi a presença de muitos imigrantes e refugiados que pela primeira vez participaram da marcha.

Adade Veiga Ponce é boliviano e mora no Brasil há 15 anos e estava muito feliz em poder carregar pela Avenida Paulista a bandeira de seu país. “Estou muito alegre. Nunca tinha participado, mas agora que estou ligado à comunidade boliviana quero participar todos os anos. Essa é a segunda vem que venho a essa avenida e estou achando tudo muito bonito”, conta. Ao lado de Adade, marchavam também outros bolivianos da comunidade de Guaianases, bairro da zona leste de São Paulo, onde moram e trabalham.

Apresentação cultural da comunidade boliviana durante a 11ª Marcha dos Imigrantes.
Crédito: Filipe Dias

Imigrantes africanos também marcaram presença no ato. Boubou Diacko é da Mauritânia e está há 10 meses no país. Também pela primeira vez na marcha, foi para o ato com um grupo de cerca de 70 pessoas para denunciar as arbitrariedades e violações de direitos que acontecem na terra natal. “No meu país tem muito racismo. O presidente não considera a raça preta e somos contra essa discriminação, que não é normal”.

Há dois anos no Brasil, Maria Helena Lusango é angolana e foi para a marcha para denunciar as dificuldades enfrentadas no país, como a regularização migratória e o acesso a trabalho digno. “Temos que defender e lutar por direitos. Temos que valorizar a nossa cultura”, destaca.

Violência contra a mulher

Pela quarta vez na marcha, a Frente de Mulheres Imigrantes e Refugiadas participou novamente nesse ano trazendo a luta pelos direitos das mulheres para o debate sobre migrações.

“A Marcha é uma forma das mulheres conseguirem visibilidade nos espaços públicos, onde estão outras pessoas que não são migrantes, como os brasileiros. Para algumas mulheres, é a única forma de visibilidade, de mostrar que existem no Brasil e que tem os mesmos direitos que os nativos”, contou a colombiana Lida Tascon, representante da Frente e membro da Equipe de Base Warmis- Convergência das Culturas.

Frente de Mulheres Imigrantes e Refugiadas marcou presença na Marcha pela quarta vez.
Crédito: Amanda Rossa/MigraMundo

Uma novidade na edição deste ano foi que a frente de mulheres imigrantes se dividiu em dois blocos: um composto pelo projeto Lakitas, apresentando diversas canções com flautas andinas e percussão; e outro, ao final da marcha, pedindo um basta à violência contra as mulheres.

Com camisetas cor de rosa, as participantes exibiam as mensagens basta de violência, Ni Una a Menos, em referência ao enfrentamento do feminicídio, e Eles por Elas, referência à campanha internacional da ONU Mulheres, que chama os homens a participarem ativamente na desconstrução de estereótipos de gênero, no enfrentamento do machismo e na promoção dos direitos das mulheres, pelo fim da violência.

A boliviana Blanca Bautista participa desde 2009 da marcha. “É uma luta contra a discriminação e pelos nossos direitos”, frisa. Ela vê a violência contra as mulheres como um problema que está presente em todos os países e que é importante denunciar o problema e ajudar as mulheres a romperem o ciclo da violência.

Conscientizar as mulheres imigrantes sobre a violência doméstica e promover o empoderamento é um dos trabalhos desenvolvidos pela ONG Presença América Latina (PAL). Oriana Jara conta que o bloco é composto por mulheres que participam do projeto de formação Tecendo Sonhos, que promove a autonomia das mulheres, passo fundamental para superar a violência.

“Trabalhamos com grupos em que a violência doméstica está muito presente, mas não é reconhecida pelas mulheres porque está naturalizada pela cultura colonialista e patriarcal. Ser mulher imigrante de uma etnia tradicional é diferente de ser urbana e classe média. Elas vivem muito mais dentro da violência estrutural, cultural e doméstica”, frisa.

Por meio da conscientização, muitas mulheres superaram quadros depressivos, passaram a sair de casa e alcançaram a autonomia e uma vida livre da violência, como o bloco pede para todas as mulheres.

 

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