Marcha dos Imigrantes vai à Paulista para enfrentar medos e retrocessos

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Com otimismo e espírito de resistência, imigrantes e refugiados mostrarão suas bandeiras. Crédito: Pâmela Vespoli/ MigraMundo.

Com o lema “Não me julgue antes de me conhecer”, ato deste ano ganha mais importância devido ao contexto nacional e internacional de discriminação e xenofobia

Por Pâmela Vespoli
Em São Paulo (SP)

Em uma aconchegante sala, com grandes almofadas coloridas para quem quisesse se acomodar, diferentes dialetos se misturavam a calorosas risadas. Foi nesse clima de intimidade que representantes de entidades e cidadãos independente iniciaram na tarde do último sábado (17), na sede da BibliASPA, em São Paulo, a última reunião para organizar a 12ª Marcha dos Imigrantes.

Os presentes confirmaram o tradicional evento para o dia 02 de dezembro na avenida Paulista, reunindo imigrantes, refugiados e simpatizantes a fim de combater a discriminação e xenofobia, e reivindicar por acesso à justiça e políticas públicas.

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Entre eles estavam: Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras), BibliASPA, Centro de Apoio e Pastoral do Imigrante (CAMI), ONG África do Coração, Além das Fronteiras, Centro de integração e cidadania do imigrante (CIC), Associação Folclórica Cultural Bolívia Brasil (ACFBB) e imigrantes representando suas diferentes nações.

Representantes de diversas nações e organizações fazem últimos ajustes para o tradicional ato.
Crédito: Pâmela Vespoli/ MigraMundo

Resistência

Apesar do clima amistoso, falas de anseio e preocupação pairaram no ar. Segundo a comissão, a marcha tem um papel essencial neste ano diante de posicionamentos políticos nacionais e internacionais discriminatórios e xenofóbicos, tendo por objetivo desconstruir rótulos e defender a dignidade dessas pessoas. Foi inspirado neste pensamento que o lema deste ano será: “Não me julgue antes de me conhecer!”

Conforme mencionou Carla Aguilar, assistente social do CAMI, a ação não tem somente o papel de sensibilizar os brasileiros, mas também realizar o debate com os imigrantes sobre o que eles esperam do país nesta atual fase. “Nós temos quatro anos aí pela frente que não vão ser fáceis para os imigrantes. Então a gente tem que ver como lidar com toda essa situação e o imigrante tem que estar muito consciente também”.

Para Roque Patussi, coordenador do CAMI, nas manifestações anteriores havia uma garantia da liberdade democrática de expressão que agora eles ficam receosos de não existir. Refletindo sobre o futuro da marcha, comenta:

“Olhando para o panorama que é a nova gestão que está assumindo o país, dado o contexto, como escolha de ministros e quais países estão tendo o primeiro contato com essa nova gestão do Brasil, países que olham para o imigrante e refugiado como criminosos. Por isso, o contexto é de medo e talvez perda de continuidade desse movimento aqui no país”.

“A Paulista também é nossa”

A Marcha dos Imigrantes é uma ação internacional decretada pela Organizações das Nações Unidas (ONU), em 1990, com o propósito de dar visibilidade aos imigrantes do mundo. No Brasil ela ocorre desde 2007, apenas em São Paulo. Este ano ela acontecerá pela terceira vez num dos pontos mais conhecidos da cidade, a famosa Avenida Paulista, às 14h, no vão do MASP.

“A Paulista também é nossa, essa é a mensagem da marcha ir para a Paulista. Por que o imigrante tem que ficar nas periferias? Por que ele não pode se manifestar num espaço que é de todos? ”, questiona Roque.  Segundo a organização, a região ter se tornado um local de lazer aos finais de semana, permitindo que a marcha ganhe mais apoiadores e transmita sua mensagem para um maior público.

Entre o ano retrasado para o ano passado o número de aderentes dobrou de 2 mil para 4 mil manifestantes, segundo estimativas do CAMI. “A marcha não é minha. É de todos aqueles que estão na marcha e também aqueles que não estão”, diz Carla ao recordar de manifestantes que foram à Paulista com outro propósito, porém ao depararem com o ato agregaram à causa.

Cartaz que conduzia a 11ª Marcha dos Imigrantes, já realizada na Avenida Paulista.
Crédito: Filipe Dias

No entanto, o itinerário ainda está em aberto por receio de encontrarem manifestantes contrários aos princípios da manifestação e assim evitar possíveis transtornos. “No ano passado tínhamos dois grupos se manifestando lá, eram grupos anti-imigrantes. Então, fomos ver qual era o menor para seguir”, comenta Roque. Pensando nisso, a organização analisará o melhor percurso para evitar confrontos, já que este não é o objetivo da ação.

Ao preparar os pormenores, a equipe toma o máximo de cuidado para que o maior número de nações esteja presente e assim possa ser representada. Além disso, há uma atenção voltada a intérpretes, para que os passantes da avenida possam entender do que se trata e abstraírem a mensagem que esses povos estão dispostos a transmitir.

Falta de incentivo financeiro

Apesar do comprometimento dos envolvidos, os preparos são dificultados pela falta de retornos diante apoios financeiros e estruturais, entre eles o fornecimento de água potável para consumo, confecção de camisetas e outros recursos. Mesmo assim, os organizadores não se mostram abalados e procuram alternativas.

Para a questão da água decidiram divulgar que cada um leve sua própria garrafinha. “Essa marcha é mais uma marcha em que a gente tem que reafirmar a nossa existência, que estamos aqui para resistir”, diz Alexandre Divul, representante da comunidade de Angola.

Roque reforça que a marcha não funciona se as instituições não organizam seus grupos. “O que vai fazer ter gente lá é o boca a boca, convidar os amigos, discutir o tema com grupos e assim vamos levar gente para a Paulista”.

Com otimismo e espírito de resistência, imigrantes e refugiados mostrarão suas bandeiras.
Crédito: Pâmela Vespoli/ MigraMundo.

Para ele, a principal dificuldade é mobilizar os imigrantes, porque muitos deles estão concentrando suas energias e preocupações em necessidades básicas para sobrevivência, como moradia e comida. O que os restringem de voltarem suas atenções aos demais direitos.

A organização do evento já confirmou presença na final da Copa dos Refugiados, no dia 20 de novembro, para ajudar na divulgação da Marcha e apoiar a Copa Brasil, mostrando como as diferentes organizações unem forças em prol dos imigrantes e refugiados. “A marcha é mais um de nossos eventos que temos que divulgar, porque a Marcha é nós e a Copa é nós”, afirma o congolês Jean Katumba, presidente da ONG África do Coração, responsável pela Copa dos Refugiados.

12ª Marcha dos Imigrantes – Não me Julgue Antes de me Conhecer
Data e hora: 02 de dezembro de 2018, a partir das 14h
Local: avenida Paulista (concentração em frente ao MASP)
Contato: tel. (11) 3333-3847, cel. 96729-4238 e marchadosimigrantes@gmail.com
Mais informações: evento no Facebook

 

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