Migração já vira tema da eleição presidencial de 2020 nos EUA

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Barreira na fronteira entre México e EUA, entre Tijuana e San Diego. Barreiras físicas e imateriais dos dois países têm colocado em risco a vida de milhares de refugiados da América Central Crédito: Anistia Internacional

Assim como em 2016, fluxo migratório é um dos pontos nevrálgicos do debate entre republicanos e democratas

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, dá o pontapé inicial no jogo que abre a corrida eleitoral à Casa Branca. E da mesma forma que na campanha eleitoral de 2016, o tema das migrações aparece novamente como um dos pontos nevrálgicos nos debates a serem travados entre os candidatos republicanos e os democratas.

O editorial do Jornal O Globo, na data de 20/06/2019, pág. 2, afirma que “Donald Trump decidiu transformar tarifas alfandegárias em instrumento da política de segurança nacional. Um dos pretextos é tentar inibir o fluxo migratório da América Central aos Estados Unidos, via México. Notável coincidência, essa é uma das bandeiras eleitorais de Trump na sua campanha pela reeleição”. A verdade é que a teimosia insana na construção do famigerado muro na fronteira entre EUA e México, que paralisou por boas semanas a máquina administrativa, já vinha preparando o cenário para o pleito.

De resto, não foi diferente o que ocorreu nas recentes eleições ao Parlamento europeu. Também nesse caso, prevaleceu a retórica nacional-populista dos que, como o vice-premiê da Itália, ministro do Interior e Eurodeputado Matteo Salvini, defendem o fechamento dos portos e das fronteiras. Desde alguns anos, a União Europeia sustenta um pacto com a Turquia e a Líbia, no sentido de que esses dois países retenham o fluxo nutrido de refugiados, migrantes e prófugos, em troca de investimentos europeus. Tais investimentos, teoricamente, deveriam servir para melhorar as condições de vida nos países pobres de origem, evitando assim a sangria da população. Mas, boa parte das verbas ou acaba engordando os cofres dos governos ditadores, ou cai nas mãos de milícias bélicas.

Nos dois casos, o que se verifica é um aumento da violência, seguida de novas fugas em massa. Instala-se, desse modo, um círculo vicioso que só faz aumentar tragicamente a mobilidade humana da África, Oriente Médio e Ásia em direção ao velho continente.

Escreve ainda o mesmo articulista: “A impulsividade de Trump nas ações anti-imigração tem razões eleitorais e um potencial de reflexos negativos duradouros” (Idem). As motivações eleitorais, como é fartamente conhecido e notório, mergulha suas raízes profundas na onda do nacionalismo popular que vem varrendo o planeta. Atualmente as campanhas eleitorais, com a assessoria dos melhores peritos do marketing, sabem como manipular e instrumentalizar o medo, a ameaça e a insegurança que o estrangeiro supostamente representa para o conjunto da nação. Numa primeira etapa, lançam as sementes altamente fecundas do medo, misturando de forma propositada migração e terrorismo. A fórmula é simples e habilmente simplificada: basta tomar alguns casos isolados e localizados, divulgá-los ampla e repetidamente, sempre de forma sensacionalista e espetacular. Uma vez que o medo constitui uma das coisas mais contagiosos e epidêmicas, generaliza-se, dessa maneira, o sentimento de fobia para com o “outro, o estranho, o diferente”. O estrangeiro converte-se em “bode expiatório” de todos os males!

A xenofobia e a discriminação, provocadas, orquestradas e/ou amplificadas, revertem em farta colheita de votos para os candidatos de índole nacional-populista. No caso de Trump (e de outros), porém, a intolerância vai bem mais longe. O artigo citado alerta para “um potencial de reflexos negativos duradouros”. Entre estes últimos, convém sublinhar os riscos embutidos no pacote para a desestabilização da economia mexicana e do Caribe, com evidentes reflexos para os países do sul do continente americano. A nosso ver, porém, outro perigo se expande aberta ou subrepticiamente nas asas dos ventos autoritários e truculentos. Tanto no discurso quanto no comportamento e nas medidas de certos políticos de extrema direita, há fortes indícios de ódio supremacista. Neste caso, a raça branca defende uma superioridade sobre os demais povos e etnias, requisitando ao mesmo tempo o direito ao espaço vital para a sobrevivência dos seres humanos supostamente melhores e mais aptos. Beiramos aqui as águas turvas, torvas e tumultuosas do nazifascismo e da Ku Klux Klan, movimentos que defendiam (e defendem) correntes reacionárias e extremistas, bem como a supremacia branca.

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