“Minha terra mora em mim”: livro traz histórias de pessoas em refúgio

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Publicação será lançada nesta quinta-feira (12) em Florianópolis

Por Bruna Kadletz

A vida em exílio é difícil
A terra natal torna-se um objeto de desejo e saudade
A terra natal torna-se uma amada intocável, imaginada e reimaginada na distância de fronteiras, visitada nas memórias
Pessoas refugiadas anseiam pela terra que moram neles

O livro Minha terra mora em mim é um singelo passo em direção à visão de paz, justiça, inclusão e equidade que muitos de nós almejamos. Ao compartilhar algumas das histórias que cruzam meu caminho nas viagens humanitárias que faço, eu tenho a intenção de ressaltar as nuances que geralmente não rendem manchetes, a face humana que sustenta os números e as estatísticas da conhecida “crise dos refugiados”.

O lançamento do livro acontece no dia 12 de setembro, quinta-feira, das 19h às 21h, no Centro Integrado de Cultura (CIC), em Florianópolis. A porcentagem da venda do livro que cabe a mim será integralmente destinada aos projetos de ajuda humanitária que o Círculos de Hospitalidade, organização que presido, apoia no Líbano.

Abaixo, compartilho com os leitores do MigraMundo a história que inspirou o nome do livro. Se você quiser adquirir um exemplar ou organizar um evento sobre o livro em sua cidade, envie um e-mail para contato@circulosdehospitalidade.org

Todas as pessoas moram em sua terra, mas a minha mora em mim”
Said As, refugiado palestino no Líbano

As idas ao campo de refugiados de Bourj el-Barajneh, em Beirute, Líbano, renderam uma amizade com Said As, professor palestino nascido no exílio. Said cresceu no campo. Apesar das ruelas empoçadas e construções empoleiradas serem a única casa que conhece, não é a única com a qual ele sonha. Em um de nossos encontros, num momento de inspiração poética entre os goles do forte café árabe, ele virou-se para mim e falou “todas as pessoas moram em sua terra, mas a minha mora em mim”.Quando disse a ele que visitaria a Palestina, o seu pedido de presente foi um punhado de terra dentro de uma garrafa, para se sentir mais próximo da sonhada casa.

Com formação em tradução árabe-inglês, ele fala que o diploma é somente um pedaço de papel na parede. Por ser palestino, ele não pode exercer sua profissão de escolha no Líbano. Esta proibição faz parte de um pacote de restrições impostas a refugiados palestinos no país.Resta-lhe atuar como professor de árabe, ensinando crianças, jovens e adultos a ler e escrever.

Said é uma inspiração e um dos professores mais amados que já conheci. Caminhar com ele pelas estreitas ruas e labirintos de Bourj el-Barajneh é ser recebido com sorrisos e brincadeiras, é ter crianças correndo atrás de nós, mas é também ouvir histórias trágicas e sentir na pele a dor da guerra e da ocupação, sentir e saber no seu âmago que o custo humano de guerras pesa desproporcionalmente sobre mulheres e crianças.

Em novembro de 2018, Said entrou em contato comigo e contou uma história comovente sobre um de seus alunos, Radwan, sírio que perdeu a audição durante os bombardeios da Guerra Síria, na cidade-natal Raqqa. O professor começou a conversa dizendo que Radwan era um aluno esforçado, de coração puro. O menino sírio de 9 anos deixou seu lar e seu país junto com sua mãe e quatro irmãos por causa da guerra. O pai, estava desaparecido. Radwan frequentava a escola do campo, mas não conseguia acompanhar as aulas, uma vez que não consegue ouvir e se comunicar. O pedido era simples: um aparelho auditivo para que voltasse a ouvir. A complicação seria levar o aparelho até o campo. Eu teria que entregar em mãos.

Essa história me tocou e me mobilizou. Desenhei uma campanha que incluía sensibilização sobre a causa, arrecadação de dinheiro para compra do aparelho e despesas médicas e contato com organizações internacionais que assistiam crianças e jovens surdos sem condições financeiras para a compra do aparelho. Para garantir o sucesso da campanha, solidariedade e comunicação foram essenciais. Muitos amigos e parceiros apoiaram e divulgaram. O período de arrecadação de dinheiro reforçou dois aprendizados que já carregava em mim, ninguém faz nada sozinho e juntos caminhamos mais longe.

Em abril de 2019, cinco meses após receber o pedido, estava no Líbano para entregar a ajuda ao Radwan e sua família. A organização suíça Hear the World, junto com a clínica libanesa Houring Hear, doou o par de aparelhos auditivos novinhos em folha. No dia em que vi Radwan e sua mãe pela primeira vez, meu coração transbordou de felicidade. Já me sentia próxima deles, mesmo sem conhecê-los pessoalmente. O primeiro passo foi levá-lo para a clínica, onde faria nova audiometria – exame que mede a capacidade auditiva e moldagem dos ouvidos – para receber o aparelho. Neste mesmo dia, Hani, o proprietário da clínica, me trouxe outro desafio. Na minha ingenuidade, eu pensava que o aparelho auditivo seria a solução para o problema, mas logo descobri que era somente a primeira etapa do tratamento.

Como Radwan perdeu a audição com cerca de 3 anos de idade, ele não aprendeu a falar propriamente. E como a família vivia sob bombardeio e o regime do Daesh, conhecido como o Estado Islâmico, proibia o funcionamento de escolas nas áreas ocupadas, o menino tampouco aprendeu a se comunicar. Essas condições deixaram consequências danosas. Ele não consegue expressar o que pensa, sente ou deseja. Apenas aponta, faz caretas e emite poucos sons. Assim, ele precisaria de um acompanhamento, aprender a ouvir e se expressar, a usar a língua dos sinais com seus familiares e amigos.

Após a consulta na clínica, fomos visitar o Centro para Aprendizagem de Surdos, em Beirute. Foi lá, durante a conversa com Nadine, coordenadora do centro, uma senhora gentil e sensível, que pude entender mais do drama de Zayneb, a mãe de Radwan.

Zayneb casou-se jovem. Não sei dizer se o enlace foi por amor, mas a união lhe deu cinco filhos: dois meninos e três meninas; Radwan é o segundo mais velho, vindo depois da primogênita Ammar. A guerra roubou a audição de seu filho e o seu marido. Após virem juntos para o Líbano em busca de refúgio, o marido voltou para a Raqqa ocupada pelo Daesh, para buscar seus pais, que estavam doentes. Eles ficaram em contato por algumas semanas, por meio de mensagens e ligações, e depois veio o silêncio mortal. Zayneb não sabe o que aconteceu com seu marido e sogros. Não conseguiu mais contato com eles. Ela conta que todas as noites, depois de um árduo dia de trabalho como faxineira, dos cuidados da sua casa e das crianças, ela deita a cabeça no travesseiro e chora escondida, sozinha.

Foi o irmão de Zayneb, ainda em Raqqa, que observou que o menino não conseguia ouvir. Depois de visitar alguns médicos, ela recebeu uma enxurrada de comentários desencorajadores de familiares e conhecidos. Falavam que um filho surdo era um fardo que carregaria pelo resto da vida, que ele nunca aprenderia nada. Ainda assim, ela não desistiu do filho. Bem pelo contrário. Foi por insistência de Zayneb, que suplicou que o filho frequentasse a escola do campo mesmo sem entender, que os diretores permitiram isso. Ao ouvir este relato, Nadine logo contou a história de seu marido, fundador do centro. Ele também nasceu surdo, mas teve acesso à educação específica quando criança. Aprendeu a língua dos sinais, formou-se no ensino médio e graduou-se na universidade. Hoje, é doutor em educação e assegura que outras crianças e jovens tenham oportunidades semelhantes à sua.

A primeira vez em que Zayneb sentiu esperança de um futuro promissor para Radwan foi no escritório do Centro para Aprendizagem de Surdos. Nos emocionamos e choramos ao saber que Radwan e sua família poderiam trilhar um caminho diferente, mais próspero que o atual. O dinheiro arrecadado com a campanha asseguraria o tratamento, acompanhamento de terapeutas, transporte e visitas de professores à casa da família no campo para o ensino da língua dos sinais. Entretanto, um desafio permanece. O acesso a uma escola para crianças e jovens surdas. Nadine nos informou que, por ele ter agora 10 anos, seria difícil conseguir uma vaga para Radwan, já que os estudantes ingressam nessas escolas mais novos, na fase de alfabetização, entre 5 e 6 anos. Ademais, tais escolas são particulares. Então, mais uma campanha nos aguarda: realizar parcerias e arrecadar dinheiro suficiente para garantir a formatura de Radwan no ensino médio. Meu sonho hoje é vê-lo de beca, sorrindo com o diploma na mão, ao lado dos familiares.

A história de Radwan me apresentou a realidade de crianças e jovens que carregam em seus corpos o custo desumano da guerra. Muitos têm seu tímpano rompido e o nervo auditivo afetado, como o nosso menino sírio, enquanto que muitos outros trazem cicatrizes, perdem membros e outros sentidos.

Guerras e conflitos armados destroem a inocência de crianças e massacram seus sonhos. As palavras de Olara Otunnu, ex-subsecretária geral das Nações Unidas, falam mais do que eu poderia dizer a respeito da necessidade de cuidarmos de nossas crianças e jovens. “No futuro a paz e a prosperidade de muitos países dependerão de como lidaremos com as crianças afetadas pelos conflitos de hoje e sua reabilitação e desenvolvimento posteriores”1.

1 Prefácio do livro Diários de Guerra: Vozes Roubadas.

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