O ‘discurso de poluição’ e a narrativa sobre refugiados e imigrantes no Brasil

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Escultura sobre migração no Museu da Imigração, em São Paulo. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Uso de linguagem xenofóbica por Bolsonaro, conhecido como o ‘Trump dos trópicos’, reforça a perigosa narrativa na qual refugiados e imigrantes são retratados como ameaças à segurança nacional

Por Bruna Kadletz
Do Círculos de Hospitalidade
Traduzido pela autora do Cassandra Voices

Em visita oficial à Casa Branca em março de 2019, o presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro declarou apoio às desumanas políticas migratórias implementadas pela administração do presidente americano, Donald Trump.

Em uma entrevista à rede de televisão americana Fox News no dia 18 de março, Bolsonaro reforçou publicamente o ardiloso estereótipo de que refugiados e imigrantes são uma ameaça à segurança nacional, herança cultural e ordem social ao declarar: “Grande maioria dos imigrantes não tem boas intenções nem quer fazer o bem aos americanos”. Durante a mesma entrevista, o presidente demonstrou seu apoio ao plano da administração de Trump em construir um muro ao longo da fronteira entre os Estados Unidos e México.

Tais comentários estão alinhados com o crescente sentimento xenofóbico global, que trata refugiados e imigrantes como indesejados, associando-os a potenciais criminosos e ameaças a estabilidade.

A linguagem populista de violência e xenofobia promove a ideia de que solicitantes de refúgio, refugiados e imigrantes vulneráveis poluem sociedades, contaminando relações sociais e econômicas, e que suas presenças deixam as ruas sujas. Esta linguagem e linha de pensamento normaliza o confinamento de tais populações em zonas de exclusão, seja nas periferias de sociedades, em campos de refugiados ou em centros de detenção.

Um exemplo claro desta linguagem pode ser observado nos comentários de uma matéria sobre a abordagem violenta da Guarda Municipal em Florianópolis no dia 14 de abril, onde um imigrante senegalês foi brutalmente imobilizado e preso durante uma operação no Centro da cidade. Os imigrantes que comercializam produtos no Centro de Florianópolis são denominados de ‘pragas’, ‘folgados’, ‘vagabundo que vem emporcalhar a cidade’

O autor americano e crítico cultura Henry Giroux cunha esta retórica de ‘discurso de poluição’. Nos Estados Unidos, a administração de Trump emprega este discurso como um instrumento de desumanização de sujeitos que migram em busca de segurança e estabilidade, pavimentando desta forma o caminho para “políticas nas quais pessoas são transferidas para fora dos limites da justiça, e tornam-se a força motora para políticas de exclusão terminal”

A administração de Bolsonaro segue os passos de Trump e emprega uma retórica inspirada no ‘discurso de poluição’. Ao assumir o governo, uma das primeiras ações de Bolsonaro foi retirar o Brasil do Pacto Global para a Migração, da Organização das Nações Unidas (ONU), adotado por mais de 160 países em dezembro de 2018. “Não é qualquer um que entra em nossa casa”, ele declarou no Twitter.

A visão de Bolsonaro sobre imigrantes é consistente com o seu histórico de comentários xenofóbicos. Em uma entrevista em 2015, ele se referiu a Senegaleses, Haitianos, Sírios e outros buscando refúgio no Brasil como a “escória do mundo”, indicando que o país já tinha problemas o suficiente e que eles inclusive formavam uma ameaça as Forças Armadas Brasileiras.

No dia 6 de janeiro de 2019, Bolsonaro postou em sua página oficial do Facebook o vídeo de uma mulher muçulmana sendo morta a predadas. Na descrição do post, lê-se, “Debaixo da Lei Sharia, a mulher é morta à pedradas por vários covardes muçulmanos. É com esta cultura que querem invadir o Ocidente e nos submeter a este tipo de aberração”.

A xenofobia do presidente brasileiro e sua decisão em retirar o país do pacto de migração sinaliza dias escuros de hostilidade e possível fortificação do controle das fronteiras.

Refugiados e imigrantes em busca de proteção e melhores condições de vida são os mais afetados pelo discurso de poluição. Como é o caso de imigrantes senegaleses e de outras nacionalidades que se tornam alvos de abuso de autoridades e violência pela crença popular de que sua presença emporcalha cidades. Ao invés de terem seus direitos humanos garantidos e protegidos, a lógica que impulsiona este discurso amplifica vulnerabilidade e o medo de sociedades em receber refugiados e imigrantes.

Líderes globais de extrema direita tendem a pensar que seu ativismo online existe em um vácuo, mas suas palavras estão inseridas em sistemas de crenças que legitimam e encorajam o comportamento de extremistas. Ter o líder de uma nação afirmando que imigrantes não têm boas intenções ou que são escória, atesta a irresponsabilidade deste líder com vidas humanas. Verdadeiros líderes devem unir seu povo com visão progressista de união, ao invés de explorar conflitos já existentes e incitar violência.

A perversa linguagem do discurso de poluição influencia políticas públicas, abordagem policial e comportamento social, resultando em mais exclusão e vulnerabilidade.

Desta forma, governos como o de Bolsonaro são uma ameaça aos direitos humanos de refugiados. Se o seu discurso de poluição continuar a se disseminar, políticas de exclusão, hostilidade e ataques xenofóbicos também se disseminarão.

A linguagem violenta e xenofóbica somente contribui para mais atos de violência sendo perpetuada contra comunidades refugiadas e imigrantes. O recente massacre de cinquenta pessoas nas duas mesquitas na cidade de Christchurch, Nova Zelândia, é o último exemplo global do terrorismo da extrema direita e supremacia branca encorajado pela narrativa de que refugiados e imigrantes são seres poluentes que precisam ser exterminados de sociedades.

Em contraste com outros líderes políticos, a premiê da Nova Zelândia, Jacinta Arden, respondeu ao massacre com coragem e liderança. Sua atitude compassiva e amorosa é um exemplo vivo que palavras e gestos inclusivos nos fortalecem como sociedade. Somente como o poder do amor nós podemos seguir adiante como uma comunidade global unificada sob a visão de que todos temos direitos iguais a existência neste planeta.

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