Os longos e esperançosos caminhos da integração dos imigrantes

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Refugiada síria que vive na Alemanha durante aula em escola na cidade de Golzow. Crédito: Gordon Welters/ACNUR

Imigrantes raramente contribuirão com a economia de um país da noite para o dia. A integração é um projeto de longo prazo, como mostra a Alemanha – após receber mais de 1,5 milhão de refugiados nos últimos anos

Por Manuela Marques Tchoe
Em Munique (Alemanha)

2015 foi um ano singular na história da Alemanha. Após uma decisão evidentemente difícil de abrir as fronteiras para milhares de refugiados, o país recebeu mais de um milhão de pessoas deslocadas, principalmente da Síria. De início, muitos alemães deram boas-vindas à tantas pessoas que, finalmente, tinham chegado a um lugar relativamente amistoso. Apesar do começo eufórico, a história da maior recepção de refugiados na Alemanha viveu diversos percalços, principalmente quando os meses passavam e os alemães perceberam que seu país não era um mero pit-stop para tanta gente. A Alemanha se tornou refúgio e a única esperança de casa para essas pessoas – e essa nova realidade se fez sentir em aumentos de aluguel e uma competição enorme por serviços básicos como saúde e educação, além de escândalos como o assédio em massa em Colônia.

Os bons sentimentos dos alemães logo sofreram com uma dose de realidade que nem sempre era positiva, e isso fez com que a xenofobia se tornasse mais uma vez manchete de jornal. Muitas questões – válidas, por sinal – perguntavam como o país daria conta de integrar tanta gente. A religião muçulmana da maioria dos refugiados amedrontou os mais conservadores, que passaram a investir na mensagem de islamização não só da Alemanha, como da Europa. Um novo partido político de extrema-direita se formou – o Alternativ für Deutschland (Alternativa para a Alemanha) –  e logo abocanhou 10% das cadeiras do Parlamento Alemão. Tudo isso por causa da questão migratória e também da preocupação de gastar tanto orçamento com os refugiados, que para muita gente estava “mamando na teta” do Estado.

A integração de tanta gente jamais seria fácil, principalmente no clima político hostil que colocou a migração como tema central das negociações políticas. No plano micro, as dificuldades se estendiam do aprendizado de um idioma notoriamente complexo e das diferenças culturais – principalmente com relação às mulheres  – até a burocracia exagerada com relação aos pedidos de asilo, permissão para trabalhar, etc. Integrar tanta gente era equivalente a escalar o Everest.

Quatro anos após a recepção dos refugiados, começa-se a ver os primeiros sucessos da integração, como reportado pela Folha de S.Paulo. Facilitado pelo clima econômico de baixo desemprego e a busca por talentos para suprir a escassez de profissões técnicas como eletricistas, soldadores, carpinteiros, etc., alguns refugiados veem no sistema de treinamento profissionalizante uma forma de se estabeleceram no país. Para a Alemanha, essa é uma bela notícia: com mais de 1,2 milhão de vagas não preenchidas, a nação germânica precisa desesperadamente de pessoas qualificadas. Até agora, 400 mil refugiados já conseguiram emprego ou treinamento, como registrado até o fim de 2018.

Empresas como o Deutsche Bahn (Trem Alemão) anunciaram um programa de treinamento de refugiados para se tornarem condutores de trem, além de outras profissões relacionadas ao atendimento de passageiros e logística. Essa é mais uma iniciativa que vem abrandar a escassez de mão de obra, ao mesmo tempo que dá oportunidades para que refugiados reconstruam suas vidas.

A expectativa da integração de curto prazo é uma falácia

A cada onda migratória, países que recebem grandes quantidades de migrantes passam por um ciclo de sensações. De início, sentimos pena e tristeza. Com o nível de desconforto crescendo e o tempo passando, o sentimento se torna mais negativo, chegando à xenofobia em alguns casos. As perguntas de integração são importantes, mas não adianta esconder o sol com a peneira: nenhum refugiado ou até imigrante econômico dará sua contribuição para a economia de um país da noite para o dia. São necessários meses – quiçá anos! – para os frutos da imigração aparecerem, pois dependem do aprendizado da língua, das oportunidades oferecidas, da economia e também da receptividade dos nativos.

Bandeira da Alemanha no Bundestag, em Berlim.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Vale ressaltar aqui que imigrantes econômicos, por terem melhores condições de planejamento, provavelmente serão aqueles que contribuirão de forma mais rápida; muitos fazem cursos de línguas antes de embarcar, fazem economias e pesquisam com afinco o país para onde escolheram ir. Refugiados, em contrapartida, estão numa situação menos planejada – no fluxo de 2015, a maioria nem sabia onde iria parar. Uma situação assim tem consequências no tempo necessário à integração, obviamente.

O caso alemão é extremo em diversos sentidos: a quantidade enorme de refugiados, a natalidade baixa e uma economia necessitada de crescimento contínuo são fatores únicos do país nos últimos anos. Apesar de algumas reações negativas, com uma onda neo-nazista sempre à espera do momento certo para ganhar eleitores, em geral os refugiados desfrutam de um contexto positivo na Alemanha. E com primeiros sucessos já vistos, é mais do que possível que a grande maioria dos refugiados que chegaram em 2015 se sintam parte contribuinte para a sociedade germânica nos próximos anos – assim como os trabalhadores turcos do pós-guerra.

De fato, a Alemanha tem vasta experiência no quesito integração – tanto acertos, quanto erros. Após a Segunda Guerra Mundial, o país recebeu milhares de turcos para ajudar a reconstruir o país, mas o esforço dessas pessoas nem sempre foi recompensado com gratidão pelo governo ou pelas pessoas. Desde então, a Alemanha vem recebendo cada vez mais gente de fora – refugiados e migrantes econômicos –  mas apesar dos números serem significativos, ainda é difícil para muitos reconhecer que a Alemanha se tornou um país de imigrantes.

Apesar dos pesares, a Alemanha de hoje está proativamente engajada na integração de imigrantes, com uma máquina relativamente eficiente para ensinar a língua e dar condições para que essas pessoas eventualmente se tornarem ativos na vida, economia e cultura alemães. E isso é mais do que possível, principalmente quando vemos imigrantes de segunda ou terceira geração, aqueles cujas famílias vem de países diversos mas nasceram e cresceram na Alemanha. Essas pessoas vivendo entre duas culturas são impulsionadas a mergulharem na cultura alemã como forma de pertencimento. Mesmo vivenciando manifestações culturais diversas – do Ramadã até o Ano Novo chinês – é inevitável que as gerações seguintes se “alemanizem”.

Região central de Bonn, no oeste da Alemanha. País começa a colher frutos da abertura a refugiados, promovida em 2015
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

Vendo essa experiência de migração que perpassa diversas gerações, é inegável que a integração seja um projeto de longo prazo. É apenas aceitando essa premissa e pacientemente investindo em casos de sucesso que a imigração pode ser bem-sucedida – para o imigrante assim como para o país que o recebe.

Manuela Marques Tchoe é uma escritora baiana que atualmente reside em Munique, Alemanha. É autora de “Ventos Nômades”, uma coletânea de contos que cruzam continentes e exploram o desejo de viajar e a vida de imigrante, e do romance “Encontro de Marés”. Manuela também escreve para o seu blog pessoal Baiana da Baviera e está presente no Facebook, Instagram e Twitter com reflexões sobre a vida de imigrante, viagens e literatura.

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