São Paulo, 464 anos – uma cidade que precisa valorizar seu lado cosmopolita

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Vista da Praça da Bandeira e da Prefeitura de São Paulo a partir do vão da Câmara Municipal. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Embora seja uma cidade cosmopolita por excelência, muitas vezes São Paulo não dá o devido valor suporte a essa característica

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)

“Um resumo do mundo”. Foi assim que o poeta brasileiro Guilherme de Almeida se referiu a São Paulo, no agora distante ano de 1929. E ele não poderia estar mais certo.

Foi nesse ano, entre março e maio, que Almeida publicou uma série de reportagens no jornal O Estado de S.Paulo que mais tarde (1962) seriam reunidas no livro Cosmópolis – que pode ser encontrado em alguns sebos da cidade, com sorte.

Alguns dados relembrados pelo Museu da Imigração do Estado de São Paulo ajudam a reforçar a sensação de “resumo do mundo” que já existia em São Paulo naquela época – e que foi expressada nas reportagens de Guilherme de Almeida. A cidade provinciana que no começo do século XIX tinha cerca de 30 mil habitantes chegou a 240 mil no início do século seguinte. Quando o governo passou a fomentar a vinda de migrantes europeus para trabalhar nas lavouras de café, ainda em meados do século XIX, São Paulo chegou a 130 mil habitantes, dos quais 71 mil já eram migrantes de outros países (isso, é claro, sem falar nos migrantes internos).

Registro de migrações do passado em muro na frente do Museu da Imigração, em São Paulo.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

O total de migrantes em relação à população total pode não ser tão grande como no passado, mas deixa marcas até hoje no cotidiano da maior cidade sul-americana e uma das maiores do mundo. Afinal, os migrantes daquela época constituíram famílias e descendentes que hoje estão espalhados por São Paulo e outros lugares deste mundo, junto com seus costumes e contribuições culturais e sociais.

Atualmente São Paulo tem cerca de 385 mil migrantes internacionais, segundo dados da Prefeitura. Um número que, sozinho, já é superior à população de muitas cidades brasileiras de porte médio. E que, mesmo limitada por questões políticas como a ausência do direito ao voto, tem procurado se mobilizar e fazer suas reivindicações.

Vista da Praça da Bandeira e da Prefeitura de São Paulo a partir do vão da Câmara Municipal.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Embora seja uma cidade cosmopolita por excelência, muitas vezes São Paulo não dá o devido valor suporte a essa característica. Prova disso é que só recentemente a metrópole passou a contar com uma política municipal dedicada à população migrante. Outra prova, entre tantas outras, são casos de preconceito e xenofobia que muitos dos migrantes atuais vivenciam cotidianamente.

Ou ainda o preconceito seletivo, quando pessoas de determinados países são exaltadas em detrimento de outras. Afinal, quem não conhece um cidadão que acha o máximo o fato de poder apreciar gastronomia de diferentes partes do mundo sem sair da cidade, mas ao mesmo tempo torce o nariz para migrantes com poucos recursos que tentam uma nova vida na capital paulista?

Bandeiras unidas na 11ª Marcha dos Imigrantes (2017), em São Paulo.
Crédito: Filipe Dias

Em resumo, o aniversário de São Paulo é uma oportunidade para celebrar suas qualidades, mas também para refletir sobre seus problemas. Afastar preconceitos e buscar uma cidade mais humana para seus moradores, independente do local de origem, é o melhor presente que São Paulo e seus habitantes podem ter. Os locais de nascimento podem ser distintos, mas todos estão em um mesmo barco, cuja responsabilidade para mantê-lo deve ser compartilhada entre todos os seus passageiros e tripulantes.

Leia também – Migrantes respondem: para eles, o que é São Paulo?

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