Tecnocrata, sucessora de Salvini na Itália se diz pró-imigração

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Luciana Lamorgese, nova ministra do Interior da Itália. Crédito: Governo da Itália/Creative Commons

Luciana Lamorgese, nova ministra do Interior da Itália, faz parte do novo governo de Giuseppe Conte, que defendeu um país mais solidário e pró-UE em sua política migratória

Por Victória Brotto
De Estrasburgo (França)

Depois de 14 meses sob Matteo Salvini, o Ministério do Interior da Itália muda de mãos – e possivelmente, de discurso e práticas em relação às migrações, um dos temas nevrálgicos atualmente no país e na Europa.

A pasta passa a ser comandado por Luciana Lamorgese, funcionária da administração pública do país nos últimos 20 anos – incluindo a chefia do gabinete do próprio Ministério do Interior em anos anteriores e a de três províncias italianas.

Lamorgese foi indicada pelo primeiro-ministro Giuseppe Conte há três semanas, quando ele voltou ao seu posto após ruptura com o partido de Salvini, a Liga, em agosto.

Em publicação do 6 de setembro, a rede britânica BBC chamou a nova ministra de ”independente e especialista em imigração”, sobre a qual residira a missão de fazer as pazes com Bruxelas – capital da Bélgica, que abriga também a sede da União Europeia (UE).

”Espera-se que ela traga a Itália para mais perto da UE no que condiz à imigração, acabando com a campanha estridente do senhor Salvini contra os navios humanitários de resgate de migrantes nas águas líbias.”

Para Marc Lazar, diretor do Centro de História do Instituto de Ciências Políticas na França e especialista em estudos italianos, a nomeação de Lamorgese foi ”hábil”.

”Foi uma jogada hábil tê-la nomeado ministra do Interior. Qualquer figura política teria problemas em rivalizar com Matteo Salvini. Escolher um funcionário da alta administração pública e experiente, do ponto de vista político, é uma jogada bem sutil”, afirmou Lazar para o jornal francês La Croix.

Ministra pró-imigração

Formada em Direito, Lamorgese foi governadora das províncias de Varese, Veneza e Milão até 2018. A advogada foi também chefe de gabinete no próprio Ministério do Interior no governo de Berlusconi e de Paolo Gentilone.

Lamorgese trabalhava para o ministro do Interior de Gentilone, Marco Minniti, quando este firmou acordo com o governo líbio, em 2017, para impedir a saída de novos barcos com migrantes em direção à Itália.

Até outubro de 2018, quando exercia função pública de governadora da província de Milão, Lamorgese se posicionou a favor do acolhimento de imigrantes. Ela inclusive anulou leis anti-migração feitas pelas prefeituras de certas cidades na região de Varesa (Lombardia), reduto eleitoral da Liga, partido de Matteo Salvini.

”Eu vejo prefeitos que não fazem a sua parte e eu os digo que é importante aceitar a diversidade, que ela é uma riqueza para nós e que nós devemos agir à favor da integração”, afirmou ela na época.

No entanto, ainda não está claro o que a nova ministra fará com o polêmico decreto do seu antecessor que fechou os portos italianos para os navios de resgate – o que em breve deve representar um teste para Lamorgese e para a atual direção do governo italiano.

“Nova Itália”

Ao reassumir o cargo, o primeiro-ministro Conte afirmou que seu plano de governo consistia em uma ”nova Itália”, repousada sobre ares solidários aos novos imigrantes.

”Nós devemos retomar as negociações com a UE para superar o Acordo de Dublin e para conseguirmos, enfim, uma gestão europeia do problema da imigração”, afirmou na semana passada.

Fora do Ministério do Interior, mas continuamente ativo nas redes sociais e na imprensa italiana, Salvini reagiu ao novo governo de Conte.

”É o primeiro governo italiano nascido em Bruxelas”, afirmou na última quinta-feira em emissão da RAI1, acrescentando que o novo governo seria apenas uma massa de manobra da UE.

Em carta a Conte, o presidente da Comissão europeia, Jean-Caude Juncker, afirmou estar certo de que ”a Itália saberá adotar uma posição de primeiro plano e estar assim à altura de suas responsabilidades enquanto país fundador da UE.”

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