Três anos após limpeza étnica em Mianmar, Rohingya ainda enfrentam perseguição e apatridia

Mais de 1,2 milhão de pessoas dessa etnia, de fé muçulmana em um país majoritariamente budista, se refugia em Bangladesh; metade dessa população é de crianças

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Refugiados rohingya caminham por uma trilha durante uma forte chuva de monções no campo de refugiados de Kutupalong, no distrito de Cox’s Bazar, em Bangladesh. Crédito: David Azia/ACNUR
Refugiados rohingya caminham por uma trilha durante uma forte chuva de monções no campo de refugiados de Kutupalong, no distrito de Cox’s Bazar, em Bangladesh. Crédito: David Azia/ACNUR

O dia 25 de agosto de 2017 marcou o êxodo de mais de 742 mil pessoas da minoria rohingya, de Mianmar, ao país vizinho, Bangladesh. A data é lembrada como uma das mais traumatizantes da história da migração forçada.

Para os rohingyas, que já abandonavam suas casas desde a década de 90, a história os espantou com um dos episódios mais trágicos. Militares do país realizaram uma operação de “limpeza étnica”, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas (ACNUR), que é quando há vontade parcial em se eliminar um grupo étnico para homogeneizar o povo. 

Quem são os rohingya?

Os rohingya são considerados a etnia mais discriminada do mundo, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). A comunidade que se concentra no estado de Rakhine, em Mianmar, vem sofrendo ataques há décadas, sendo ela a minoria muçulmana em uma população majoritariamente budista.

Muitos birmaneses alegam que eles são uma etnia implantada durante a colonização britânica, que trouxe milhares de trabalhadores muçulmanos de Bangladesh. Já os rohingya dizem ser indígenas do Estado de Rakhine, anteriormente conhecido como Arakan – um dos mais pobres do país.

Uma lei de 1982 retirou do povo rohingya o direito à nacionalidade birmanesa, tornando-os apátridas. Dessa forma, ficam impedidos de ter acesso a serviços públicos (saúde, educação, etc.) e de ter mais de um filho por casal, entre outras restrições. Também são submetidos a trabalhos forçados.

Vista aérea do campo de refugiados de Kutupalong, em Bangladesh, que abriga parte da população rohingya deslocada de Mianmar.
(Foto: Roger Arnold/ACNUR)

Atualmente, 130 mil rohingya vivem albergados em campos superlotados. A maior parte se encontra em Bangladesh, compondo mais de 1,2 milhão de refugiados. Desde 25 de agosto de 2017, quase 24 mil foram mortos pelas forças do estado de Mianmar, de acordo com um relatório da Agência de Desenvolvimento Internacional de Ontário (OIDA).

Mais de 34 mil rohingya foram lançados no fogo, enquanto mais de 114 mil foram espancados. Cerca de 18 mil mulheres e meninas rohingya foram estupradas pelo exército e pela polícia de Mianmar, e mais de 115 mil casas da comunidade foram queimadas, enquanto outras 113 mil foram vandalizadas.

Três anos após a tragédia…

Os rohingyas seguem vivendo sob constante medo. Aqueles que permanecem em Mianmar estão em condição de apátridas (sem direito à cidadania), não podem transitar livremente e não têm o direito de votar. Além disso, sofrem de uma série de discriminações quando se trata do acesso à educação e à saúde pública.

Segundo a ONG Save the Children, metade da população rohingya situada em Bangladesh é composta por crianças, fato que preocupa os pais com a precariedade e falta de acesso à educação.

“O povo e o governo de Bangladesh deram as boas-vindas aos refugiados quando eles fugiram da violência em seu país de origem, mas, três anos depois, não estamos mais perto de uma solução sustentável para esta crise de refugiados ”, explica Onno van Manen, diretor de Save the Children em Bangladesh.

Recentemente, a Anistia Internacional também verificou e acusou as autoridades de Mianmar de continuar a ocupar terrenos rohingyas, violando o espaço pertencente inicialmente à comunidade que foi obrigada a abandonar seu lar.

A ONU expressa a necessidade da solidariedade internacional, sendo uma responsabilidade de todos os países.

“Isso não pode durar para sempre. A pressão sobre Mianmar para criar as condições no terreno, que significa um investimento maciço não apenas físico na reconstrução, mas também na reconciliação, para fazer com que as comunidades se respeitem, para acabar com o discurso de ódio que tem sido espalhado em Mianmar contra os rohingya. Nosso objetivo é criar condições para que os rohingya possam voltar de forma digna, segura e voluntária”, pronunciou António Guterres, secretário-geral da ONU, em 2018, em visita a Cox’s Bazar em Bangladesh, cidade com o maior campo de refugiados no mundo.

Por conta do êxido de rohingya, Mianmar consta como o quinto país com mais pessoas deslocadas internacionalmente, de acordo com o ACNUR.

Impactos da Covid-19

As autoridades de Mianmar estenderam o confinamento devido à pandemia da Covid-19 a todo o estado de Rakhine, onde vivem pouco mais de 3 milhões de pessoas. Segundo elas, “os moradores têm que ficar em casa e apenas os poucos veículos autorizados podem circular” com a finalidade de impedir a propagação do novo coronavírus principalmente em campos superpopulosos de rohingyas.

A ONU informou que muitos dos que trabalhavam em Rakhine testaram positivo para a Covid-19. No momento, Mianmar confirma 749 casos de pessoas diagnosticadas com a epidemia, e seis mortes, segundo a Universidade de Johns Hopkins.


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