Vozes, olhares e vivências que se cruzam

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O auditório da Missão Paz, em São Paulo, recebeu nesta sexta-feira (07) a terceira edição do Seminário Vozes e Olhares Cruzados. Como o próprio nome sugere, a ideia do encontro é que os migrantes assumam o papel de protagonistas e possam partilhar suas histórias e experiências com outros migrantes e demais presentes ao encontro.

Com um tema específico para cada edição, para esta foi escolhida a questão do trabalho, devido à visibilidade que o eixo de mediação e trabalho da instituição teve ao longo de 2014. Atividades culturais ao longo do dia reforçaram a programação e a troca de experiência, vozes e olhares sobre a migração e o tema do encontro.

Imigrantes partilharam as próprias histórias durante o seminário. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Imigrantes partilharam as próprias histórias durante o seminário.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

Nos anos anteriores, o evento aconteceu no auditório do ITESP, no bairro do Ipiranga. Para 2014, o seminário veio para o auditório da própria Missão por conta do simbolismo que recai sobre o local. “Há dois dias atrás, dormiram aqui 53 imigrantes, a maioria do Haiti, vindos do Acre”, explica o padre Paolo Parise, diretor da Missão Paz. Em abril deste ano, o auditório chegou a abrigar de forma emergencial quase 200 imigrantes ao mesmo tempo. Parise lembra ainda que, em média, de dois a três ônibus chegam por dia a São Paulo vindos do Acre.

Segundo dados da Missão Paz, somente neste ano 2.344 imigrantes que passaram pelo eixo trabalho foram contratados por alguma empresa (dados atualizados até 30 de outubro). Somente entre maio e setembro foram 1691 contratados por 517 empresas. Embora o número de contratantes pareça alto, somente uma em cada três empresas que procuram a Missão de fato contratam imigrantes, pelo fato de as demais não oferecerem condições mínimas aos futuros funcionários.

“O que realmente dá certo são as boas relações humanas”, diz Ana Paula Caffeu, coordenadora do eixo trabalho da Missão, sobre a relação entre imigrantes e empresários.

Imigrante, o real responsável pela própria contratação

Após a apresentação cultural do grupo folclórico andino Killary Kussi, foi formada a primeira mesa do dia, composta pelo padre Paolo, Ana Paula e quatro imigrantes (de Peru, Haiti, Guiné Bissau e Costa do Marfim) que contaram um pouco das experiências que viveram no Brasil quanto ao trabalho. Embora as origens e experiências sejam distintas, as barreiras superadas ou que ainda estão à frente são bem semelhantes às de tantos outros imigrantes.

Grupo folclórico andino Killary Kussi iniciou o seminário. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Grupo folclórico andino Killary Kussi iniciou o seminário.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

A peruana Ana Milagros, há cinco anos no Brasil, enfrentou diversos problemas desde sua chegada, em especial quanto a trabalho e documentação. Depois desses percalços, ela atualmente comemora seu primeiro mês com carteira registrada em um restaurante japonês – no qual já até conseguiu ser promovida de ajudante de garçom a líder do setor. “Antes eu não sabia nem o que era horário de almoço. Hoje posso dizer que tenho minha dignidade e minha autoestima de volta”, conta.

Público dá sua contribuição ao evento, levantando questões e partilhando olhares sobre a migração. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Público dá sua contribuição ao evento, levantando questões e partilhando olhares sobre a migração.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

A haitiana Abel, que vive há três anos no Brasil, foi uma das primeiras atendidas pelo eixo trabalho da Missão – e sua experiência que viveu serviu para aperfeiçoamento da atuação. Ela foi primeiramente encaminhada para uma empresa no Paraná, que depois descobriu-se que não oferecia condições de trabalho dignas aos migrantes. Pouco depois ela retornou à Missão e foi encaminhada para uma nova vaga de trabalho. Ela já está há um ano e nove meses com o mesmo emprego, de babá, e sonha em trazer a família e os filhos para o Brasil.

Já o marfinense Emmanuel não teve a mesma sorte com empregos. Vivendo no Brasil há cerca de um ano, é impedido de trabalhar por ter visto de estudante e precisa fazer “bicos” para se manter. Morou inicialmente na Paraíba e vendeu seu computador pessoal para poder vir a São Paulo buscar novas oportunidades. Além da Missão, ele conta que também teve a ajuda de colegas de outros países africanos que o encaminharam para a ONG Educafro, onde aperfeiçoa o português.

Ana ressalta que o eixo trabalho apenas media o encontro entre o imigrante e o possível empregador, e que o real responsável pela contratação não é a Missão. “É o próprio imigrante que, de acordo com a postura dele, consegue trabalho – independente da nacionalidade. Nós não arrumamos trabalhos aqui, servimos como ponto de encontro para os imigrantes e empresários”.

Quando a mesa abriu o debate para o público, Helion Póvoa Neto, coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Migratórios (NIEM), destacou que a Missão Paz desempenha um papel extremamente importante – e que, na verdade, deveria ser assumido pelo poder público. “Na imprensa acontece muitas vezes essa confusão em relação ao trabalho da Missão. É preciso ficar atento para o risco de esta função ser mal interpretada e confundida”.

Celina Castro, de El Salvador, agitou o público e foi uma das atrações do seminário. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Celina Castro, de El Salvador, agitou o público e foi uma das atrações do seminário.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

Empresários falam

Após o almoço e a apresentação da cantora salvadorenha Celina Castro, foi formada a segunda mesa do dia, também composta pelo padre Paolo e por Ana Paula e outros cinco imigrantes, além de dois empresários que contam com imigrantes entre seus funcionários.

Segunda mesa do dia contou com a participação de empresários que contam com imigrantes dentre seus funcionários. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Segunda mesa do dia contou com a participação de empresários que contam com imigrantes dentre seus funcionários.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

Reinaldo Di Cunto, diretor industrial de uma conhecida empresa do ramo de alimentos em São Paulo, conta que no começo pensou em pegar um imigrante como funcionário no intuito de ajudar, mas que mudou sua visão após a palestra feita pelo eixo trabalho com os empresários antes de intermediar o contato com os imigrantes. Na oportunidade, acabou contratando oito haitianos – atualmente são 12 no quadro de funcionários da empresa.

“Foi uma das experiências mais interessantes que tive na minha vida. Nem sabia onde ficava o Haiti. E depois que me informei sobre o país só aumentou minha admiração por eles. Para eles o trabalho é sinal de liberdade, uma maneira inteligente de encarar o trabalho”, destaca Di Cunto.

A educação dos imigrantes contratados foi o que primeiro chamou a atenção de Paulo Moraes, do Grupo Crystal, sediado em Sumaré (SP) e que atua com logística. “Enquanto todos não sentam à mesa, ninguém começa a comer”, lembra, durante o primeiro almoço que teve com os então recém-contratados, todos haitianos. Atualmente são quase 90 imigrantes no quadro da empresa, de nacionalidades variadas.

A segunda mesa do dia foi seguida pela divisão dos presentes em quatro grandes grupos que debateram entre si sobre as relações e experiências de trabalho vividas e debatidas entre imigrantes, estudiosos, militantes ou mesmo curiosos na temática migratória. Foi mais um momento forte em que diferentes vozes e olhares se cruzaram e complementaram um ao outro – mesmo que em um primeiro momento pareçam discordantes.

Grupo teatral Impulso Coletivo apresentou metáfora sobre a cidade de São Paulo. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Grupo teatral Impulso Coletivo apresentou metáfora sobre a cidade de São Paulo.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

O dia foi encerrado com apresentações de música árabe, com a apresentação do grupo teatral Impulso Coletivo (que fez uma metáfora da formação de São Paulo e da participação dos imigrantes no processo) e o lançamento do mais recente número da revista Travessia – o tema principal da edição foi a imigração paraguaia em São Paulo.

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