A relação entre migrações, migrantes e a Campanha da Fraternidade 2020

Uma reflexão possível pela Campanha da Fraternidade 2020 é quanto aos migrantes, muitas vezes em situação igual a do viajante acolhido pelo Bom Samaritano

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Cartaz da Campanha da Fraternidade 2020
Cartaz da Campanha da Fraternidade 2020. (Foto: Divulgação)

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves

A Campanha da Fraternidade de 2020 (CF/20) toma como texto bíblico iluminador a parábola do Bom Samaritano (Lc 10, 25-37). Essa parábola, por sua vez, move-se em torno da atitude de alguns personagens diante do homem “ferido e caído” à margem da estrada e da vida. O texto, como é notório, se presta a múltiplas e diferentes leituras. Basta levar em conta a diversidade de situações, grupos ou categorias em que a vida se encontra mais ameaçada.

Uma de tais situações é justamente o fenômeno da mobilidade humana, isto é, a real condição dos migrantes, refugiados, prófugos, itinerantes e de todas as pessoas forçadas a se deslocarem pela face da terra.

O tema escolhido pela Conferência Episcopal para a CF/20 é “Fraternidade e vida: dom e compromisso”. Quanto ao lema, a CNBB sublinha uma frase da mesma parábola: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele”. Significa que, no espírito da Quaresma, somos todos convidados a uma conversão simultaneamente pessoal e comunitária diante das pessoas que, pelos mais variados motivos, experimentam condições precárias de vida.

No caso da problemática migratória, falamos de multidões prostradas à beira dos caminhos ou à porta das fronteiras, vítimas de muitos e repetidos golpes, tais como guerra e violência, pobreza e miséria – que as leva a uma fuga compulsória.

A pergunta fundamental

A parábola que o evangelista coloca na boca de Jesus responde a uma pergunta de um doutor da lei: o que devo fazer para adquirir a vida eterna? O que é preciso para encontrar o caminho da salvação? A preocupação do doutor não se refere somente à vida após a morte.

Está em jogo, de maneira preponderante, a existência do dia-a-dia, o aqui e agora. Ou seja: o que fazer para que minhas ações cotidianas ganhem um sentido mais profundo? O que fazer para dar um novo rumo ao meu modo de agir? Em outros termos, o desafio é fazer com que meu comportamento diário possa ser revestido de um caráter eterno. Minhas ações devem deixar marcas eternas na travessia sobre a terra, seja ela individual ou coletiva. Ou ainda, como trabalhar e agir de tal forma que minha vida não seja em vão, mas seja inscrita no pergaminho da história?

Numa palavra, o conceito de vida eterna tem suas raízes no decorrer da existência, embora sua plenitude ultrapasse a travessia terrestre. Mas para que isso ocorra, torna-se necessário encontrar um significado vivo e profundo para nossos dias, meses e anos. Nossa trajetória, pessoal e comunitária, deve ser marcada por momentos de eternidade. Momentos tão intensos e luminosos que nem o tempo e nem a morte tenham a força de apagá-los.

Em síntese, vida eterna e salvação passam pela intensidade e autenticidade de nossas obras durante a peregrinação terrena. E na qualidade de peregrinos, seremos todos sempre irrequietos, até repousar na pátria definitiva, na casa do Pai, segundo o pensamento de Santo Agostinho.

O diálogo

Feita a pergunta, inicia-se o diálogo entre Jesus e o doutor da lei. Este provavelmente, enquanto versando na lei, busca uma reflexão marcada pela sabedoria, em alto estilo bíblico-teológico. Jesus, porém, desloca o eixo da conversa: em lugar de entrar em elucubrações intelectuais, conduz o doutor à visão do “ferido e caído”. É diante de sua condição precária que a pergunta e a resposta ganham novo sentido. Ele se torna o verdadeiro critério da salvação. A atitude diante de sua situação de risco é aquilo que decide quanto à busca de uma vida com traços de eternidade.

Jesus desloca também o ponto a partir do qual responder à pergunta. É como se trocasse de lugar: do espaço do templo, conduz o doutor à rua e ao cotidiano, onde se encontram os embates e desafios reais; do âmbito bíblico-teológico, o conduz ao âmbito pastoral, onde é necessário tomar uma decisão e agir coerentemente; do ambiente religioso, o conduz ao ambiente socioeconômico, onde se decide os problemas da existência.

Em outras palavras, Jesus mostra que a preocupação sobre a vida eterna e a salvação é oportuna e necessária, mas deve ser feita a partir da realidade concreta em que as pessoas trabalham, vivem e convivem. Tendo em vista o tema das migrações, o critério de salvação passa pela atitude que adotamos frente ao “outro, diferente, estrangeiro”. “Eu era migrante e tu me acolheste” (Mt 25,35).

Os personagens

Em primeiro lugar, temos o homem que descia de Jerusalém para Jericó. O texto não nos diz como ele se chama, caminha anonimamente. O que pode indicar que representa a pessoa humana em geral. Que faz pela estrada? Dirige-se ao trabalho? Retorna depois de um dia de serviço? Está em viagem? Nada sabemos. O fato é que, subitamente, vê-se surpreendido atacado, roubado e ferido… E deixado quase morto à beira da estrada. Nestes tempos sombrios de crise e desemprego, quantos migrantes e refugiados se encontram em iguais condições? Fogem de tantos conflitos e guerras, da miséria e da fome. Com fé e esperança, percorrem as estradas de todo o mundo, tentando fazer da fuga uma nova busca, na conquista de uma nova pátria.

Mas uma série de adversidades interrompe seus passos, barra-lhes o caminho. Seus sonhos se quebram diante das fronteiras fechadas e militarizadas, diante de leis cada vez mais restritas e anti-migratórias, diante do racismo, da discriminação do preconceito e da xenofobia. “As areias do deserto e as águas do mar tornam-se verdadeiros cemitérios de migrantes”, como lembrou o Papa Francisco na mensagem de Natal de 2019. Ou ainda, segundo o pontífice, “em lugar de pontes, multiplicam-se os muros”.

Depois, temos os ladrões. São eles que roubam tudo o que possui o homem, reduzindo-o a uma vítima indefesa. Ferido, caído e em estado de risco. Quem, hoje em dia, impede tantas pessoas, tantos trabalhadores e tantas famílias de seguirem tranquilamente o rumo de suas vidas? Que lhes rouba o direito à terra, ao trabalho e ao teto? Quem lhes tolhe o direito de ir-e-vir e de migrar, bem como o direito correspondente de viver com justiça e dignidade na terra em que nasceram? Quem os obriga a deixar a própria pátria e a se aventurarem em travessias sempre perigosas e traiçoeiras?

Ladrões cada vez mais sofisticados! Muitos deles permanecem ocultos. Escondem-se atrás da legislação: exploram os trabalhadores e trabalhadoras, sem poupar as próprias crianças, acobertados legitimamente por leis perversas e iníquas. Daí que o crescimento econômico, não raro, ocorre pari passu com enormes assimetria e desigualdades sociais. Tudo isso gera o círculo vicioso do desemprego, dos baixos salários e das migrações humanas forçados. Uma coisa agrava a outra: violência, requisição de asilo, rechaço, desemprego, vida errante, destino incerto!

Pela estrada, passam em seguida o sacerdote e o levita. Representantes da religião da época, figuras simbólicas ligadas ao templo. Esquivam-se do ferido, não dispõem de tempo, outras obrigações os chamam. Com razão, Jesus se insurge contra saduceus e fariseus. Sabem tudo sobre as sagradas escrituras e os sacrifícios rituais, mas ignoram as condições precárias em que se debatem os pobres e excluídos, os indefesos, migrantes e marginalizados. Desconhecem a dimensão social da fé, as implicações concretas da Boa Nova do Evangelho.

Por isso, seguem adiante. Cegos, surdos e mudos às feridas dos “caídos”, fossilizaram uma prática religiosa que rompeu com todo e qualquer desdobramento sociopastoral. O templo, com as respectivas exigências legais e burocráticas, é sua única referência. Nas cidades e campos, nada os interpela. Nada lhes dizem as veredas tortuosas por onde o povo continua a luta árdua e diária pela sobrevivência. Nas palavras do Santo Padre, e hoje diante das migrações, representam aqueles que não conseguem ou não se empenham em superar a “globalização da indiferença pela cultura da acolhida, do encontro, do diálogo e da solidariedade”.

Prática evangélica do samaritano

Por fim, passa por ali um samaritano. Como salienta o lema da CF/20, “viu, sentiu compaixão e cuidou dele”. Três passos de uma prática evangélica. Primeiramente, o samaritano tem os olhos abertos para ver a realidade. Ele é capaz de se dar conta do que está acontecendo porque, sendo um estrangeiro e sendo discriminado, encontra-se mais perto de quem se encontra abandonado ou sofre necessidade.  Por isso detém-se e faz-se próximo daquele que está “ferido e caído”. Um pobre e estranho que, justamente por sê-lo, está mais preparado para as surpresas do caminho. E o que não faltam são as surpresas na travessia dos migrantes.

Depois, o samaritano sentiu compaixão. Não basta ver, é preciso ter sensibilidade. A sensibilidade aguçada diante do outro é sinal de grande abertura de coração. Por várias vezes nos relatos evangélicos lê-se que “as entranhas de Jesus estremeceram”. A compaixão vem do mais profundo do ser humano: significa estar com na hora da paixão, de uma situação limite da existência humana. Não se trata se dar coisas, e sim de doar-se. Oferecer o próprio tempo a serviço de quem mais precisa. No Evangelho, Jesus é o samaritano que nunca atropela quem sofre. Sua caravana sempre se detém diante da dor, procurando uma solução.

Por fim, o samaritano cuidou dele. Não basta ver e ter sensibilidade, é preciso avançar para a solidariedade. Por isso, o samaritano pôs tudo o que tinha à disposição do “ferido caído”: a montaria, o óleo, os pertences e o pouco dinheiro que possuía. O tirano diz: o que é teu é meu, eu tomo; o egoísta diz: o que é meu é meu, não reparto com ninguém; o samaritano diz: o que é meu é nosso, portando de quem mais necessita neste exato momento. Daí sua partilha imediata. Quantos deslocamentos humanos seriam evitados se os governos, as autoridades, as organizações da sociedade civil e as pessoas em geral fossem mais solidárias, distribuindo equitativamente as riquezas, sejam elas naturais ou fruto do trabalho humano?!

Entretanto, um olhar mais abrangente aos Evangelhos revela que Jesus não se limitou a ver, ter compaixão e cuidar. Além disso, deu prosseguimento ao fio condutor que vem do Livro do Êxodo e do movimento profético do Antigo Testamento – a libertação dos escravos e oprimidos. Ou seja, o  Mestre denunciou a opressão, as injustiças e as disparidades sociais, ao mesmo tempo que anunciou a Boa Nova do Reino de Deus. A profecia e a utopia do Reino complementam a caridade solidária da prática evangélica. Não é diferente no caso da ação sociopastoral no campo da mobilidade humana, cada vez mais vasto e intenso, mais diversificado e complexo. “Vai e faz o mesmo”, conclui Jesus a parábola.


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