Por Fernanda Martinelli e Thainá Guerra
Do ProMigra
No mês de agosto, o ProMigra (Projeto de Promoção dos Direitos de Migrantes) esteve presente na EMEI Professor Lourenço Filho, localizada na Zona Norte de São Paulo. Já nos primeiros passos ao entrar na escola, lemos diversas palavras em cartazes em português e espanhol, como “Equidade – Equidad”, “Acolhimento – Recepción”, dentre outras. Nas paredes da escola, vemos as imagens e os respectivos significados de Adinkras africanos, uma bandeira Whipala, que representa os povos andinos, e a exposição de diversas atividades dos estudantes. Dentre elas, há um quadro com o título “Herança Multicultural”, no qual há fotos das crianças realizando brincadeiras e suas respectivas origens – Brasil, Haiti, Colômbia, Angola, Peru, Argentina e Bolívia (fotos abaixo).
A EMEI tem cerca de 800 estudantes matriculados e mais de 50% são de imigrantes. A maioria é da comunidade boliviana, mas também há crianças do Haiti, Venezuela, Paraguai, Angola e de países árabes. Fomos convidados pela diretora Renata Cocato Costa e a coordenadora pedagógica Lara Schiavon Falcetta para realizar o atendimento das famílias de imigrantes que precisavam de apoio com a regularização de seus documentos. Em entrevista, Lara narrou que esta demanda partiu da própria comunidade escolar, mas suas ações vão além deste atendimento, que aconteceu no Dia da Família na Escola: neste ano, a EMEI Professor Lourenço Filho está colocando em prática um projeto sobre migração e direitos humanos, alinhado ao currículo da cidade.
Lara explicou: “a gente já vinha fazendo esse trabalho, mas não era tão aprofundado. Então agora a gente fez até com o currículo da cidade dos povos migrantes e com os materiais de apoio que a gente foi encontrando, a gente tá fazendo esse estudo mais aprofundado. Com questões mesmo de direitos, de legislação, de entender como acontece esse processo migratório, como é a saída e como é a chegada. Então foi de uma necessidade mesmo da própria escola no melhor atendimento para essa população que a gente tá tendo aqui”. O trabalho da escola, portanto, começa com as crianças em sala de aula, mas não termina nelas.

(Foto: Fernanda Martinelli/ProMigra)
A imigração na sala de aula
Na literatura acadêmica sobre a inserção de crianças migrantes em contextos escolares no Brasil, predomina a ideia de que as escolas desempenham um papel fundamental no acolhimento a essas crianças. Ao mesmo tempo, os estudos evidenciam que a escola ainda esbarra em problemas estruturais para produzir uma inclusão efetiva, que seja capaz de ajustar os repertórios culturais e sociais da comunidade escolar de maneira a tornar a experiência da criança migrante na escola e a convivência com a comunidade escolar menos conflituosa (Anunciação, 2017).
No caso da EMEI Professor Lourenço Filho, Lara informou que a questão linguística ainda é uma barreira a ser superada no processo educativo, pois a dificuldade de se comunicar gera também uma retração maior por parte das crianças. Para lidar com essa barreira, a escola adota diferentes estratégias: utiliza recursos visuais, mobiliza outras crianças migrantes para que ajudem no processo de integração e comunicação dos colegas recém-chegados, promove ações e eventos que aproximem as famílias do espaço escolar e apresenta elementos culturais dos diferentes países de origem no espaço escolar, sobretudo através das brincadeiras.
Lara destaca a importância de incluir elementos culturais das crianças migrantes no dia a dia da escola: “Não só colocar a nossa prática para eles, mas trazer um pouco do resgate deles, para que a gente também apresente para as nossas crianças aqui, que são do Brasil. Então, para eles isso é uma experiência enriquecedora e valoriza também. Embora às vezes a gente perceba que muitas brincadeiras, principalmente essas brincadeiras mais tradicionais, elas são muito parecidas e mudam de nome, mas é importante que a criança saiba. E a criança que é migrante também se reconheça nessa brincadeira”. Ao promover essa troca entre as crianças, a escola incentiva a participação e o reconhecimento das crianças migrantes como pertencentes àquela comunidade escolar, bem como possibilita que os estudantes nacionais conheçam a cultura de seus colegas.
A iniciativa promovida pela escola funciona também como uma forma de fazer com que as crianças migrantes passem a conceber o espaço escolar como um espaço onde sua bagagem cultural e suas experiências são reconhecidas e valorizadas. Lara destacou que em ações já realizadas na escola sobre a temática migratória, as crianças – muitas vezes introvertidas – se sentiram à vontade para compartilhar histórias e costumes de seu cotidiano familiar, o que promove maior interação positiva com as crianças nacionais, porque se cria um espaço de confiança para compartilhar suas experiências pessoais. Para Lara, esses momentos de troca e compartilhamento são fundamentais, pois “a criança tem todo um contexto atrás dela. Ela tem uma família que carrega uma história, que carrega suas dores, que carrega suas alegrias. E eu acho que a escola tem que estar de braços abertos para acolher tudo”.
Desafios para a integração
Um dos maiores desafios apontados por Lara é como envolver as famílias na participação escolar. Para isso, a escola utiliza diferentes estratégias, como através das publicações no Instagram, no status do WhatsApp e utilizando uma lista de transmissão no aplicativo para difundir o trabalho realizado. A coordenadora narra que “a gente acaba tentando cativar com as propostas que a gente coloca na parede, tentando fazer com que essa família se sinta pertencente desse processo, até porque é importante que ela pertença também. Então, acho que é nas pequenas ações do cotidiano que a gente vai tentando fazer com que essa família se sinta acolhida dentro da escola. Não só a criança, mas a família também se sinta acolhida nesse processo”.
Essa acolhida também se evidenciou em nossa visita na escola, seja pelos textos e trabalhos expostos nas paredes, como Lara menciona, mas também pelas atividades propostas no Dia da Família na Escola. Dentre elas, havia aula de yoga, confecção de mandalas e bonecas Abayomi, uma sala sensorial e a customização de uma lhama. Ao final, a escola serviu o almoço, e em cada mesa ornamentada com flores, havia um texto em português e espanhol, contando a origem da macarronada e da maçã que seriam servidos.
Para que as atividades fossem possíveis, a escola contou com o apoio da própria comunidade, que fez doações de retalhos de tecidos e os alimentos que seriam servidos, mostrando que o processo de integração é uma via de mão dupla e não parte apenas da escola. Apesar disso, a participação ainda é um desafio no dia a dia da escola, e isso inclui a rotatividade das crianças. Lara explicou que muitas vezes as famílias precisam se mudar de bairro, devido aos preços do aluguel, e que algumas fazem o movimento de retornar à Bolívia. Ainda, por ser uma EMEI, as crianças estão no local apenas entre seus 4 e 6 anos de idade, e posteriormente precisam seguir os estudos em uma Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF), que atende os anos iniciais e finais do ensino fundamental.
Embora a interação entre as crianças nacionais e as crianças migrantes tenha sido apontada por Lara como algo que acontece frequentemente e que a aceitação entre as crianças seja, de maneira geral, muito positiva, a coordenadora ressaltou a ocorrência de situações pontuais envolvendo racismo e xenofobia, sobretudo pela reprodução de comportamentos advindos do contato com adultos. Em sua tese de doutorado, Leila Maria Oliveira (2019) aponta que a xenofobia é capaz de afetar tanto os alunos discriminados, quanto àqueles que promovem a discriminação. Os efeitos psicossociais da xenofobia causam aos alunos imigrantes baixa autoestima e evasão escolar; já nos alunos nacionais, a xenofobia pode cristalizar uma falsa sensação de superioridade em relação aos alunos migrantes, que reforça a discriminação não somente na escola, mas também em outros espaços da vida social.
No caso brasileiro, a xenofobia também está relacionada ao racismo. Em sua pesquisa com uma EMEF na região central de São Paulo, Oliveira (2024) observa que nas relações escolares ocorria uma aversão menor a estudantes imigrantes brancos do que em relação aos estudantes imigrantes negros, gerando uma xenofobia racializada.
Ainda que na EMEI Professor Lourenço Filho essas situações sejam pontuais, Lara ressaltou que a proposta da EMEI para coibir esse tipo de comportamento e ultrapassar a barreira imposta pelo preconceito no cotidiano escolar é a conscientização dos alunos por meio de mediações com leituras coletivas, rodas de conversa e brincadeiras que promovam a interação entre os alunos nacionais e os alunos migrantes. Um exemplo apontado pela coordenadora foi de uma estudante que, em seu primeiro ano na escola, só se sentava com as crianças brasileiras, mas neste ano suas melhores amigas são imigrantes. Para Lara, esse é um resultado positivo do trabalho de conscientização da escola.
A escola acolhedora como rede de apoio
Ao longo de nossa visita, vimos como a escola pode, de diferentes maneiras, acolher todos os estudantes e suas famílias. Este acolhimento está presente não apenas no Dia da Família, mas também na sala de aula, no Currículo e no Projeto Político Pedagógico. Para Lara, a perspectiva que motiva o trabalho dela e da equipe escolar é quando a família se sente segura não apenas em deixar os filhos, mas também de quando tiver alguma dificuldade ou algum problema, ser esse porto seguro para que elas busquem auxílio. A empatia e a compreensão das diferenças culturais, de que cada família tem sua história, suas dores e alegrias, são fundamentais para que essas ações tenham sucesso. Para a coordenadora: “hoje, acho que a escola não é só uma instituição de ensino. Ela é uma rede de apoio, sim. Ela é uma rede de segurança e de acolhimento, sim”.
Nesse sentido, a escola ocupa uma posição importante na construção de vínculos e na identificação de necessidades das crianças e de seus responsáveis. Na perspectiva de Luiza Bortolosso Gubert e Leandra Bôer Possa (2026), a construção de uma escola que seja hospitaleira “implica reconhecer que ensinar e aprender são atos atravessados pela presença do outro” (Bortolosso & Possa, 2026, p. 12). Ainda, essa construção prescinde de um movimento ético, de abertura e acolhimento, e político, com a transformação do currículo e o fomento de formações para a equipe pedagógica. Essas são práticas que a EMEI vem implementando e aprimorando ao longo dos anos, através de um trabalho colaborativo entre a gestão escolar, professoras e funcionárias.

(Foto: Fernanda Martinelli/ProMigra)
Reflexões
A experiência na EMEI Professor Lourenço Filho evidencia que o acolhimento de estudantes migrantes não se limita a ações pontuais ou a momentos específicos do calendário escolar. Ele se constrói no cotidiano, na relação entre as crianças, nas práticas pedagógicas, na organização dos espaços e na forma como a escola atua frente às famílias. Ao incorporar diferentes línguas, culturas, brincadeiras e histórias ao ambiente escolar, a EMEI demonstra que reconhecer a presença migrante significa também reconhecer que a comunidade escolar é constituída por diferentes trajetórias e experiências. Dessa maneira, o acolhimento não pode se limitar à adaptação das crianças migrantes na escola, mas deve ter como perspectiva também a transformação da própria escola a partir da presença desses sujeitos.
Ao mesmo tempo, a experiência apresentada revela que esse processo não acontece de maneira linear, mas apresenta desafios que não podem ser desconsiderados. As barreiras linguísticas, a dificuldade de participação das famílias, a rotatividade dos estudantes e as situações de racismo e xenofobia evidenciam que a construção de uma escola acolhedora é um processo contínuo e que demanda atenção permanente para que possa se consolidar. As estratégias desenvolvidas pela EMEI, como as rodas de conversa, as brincadeiras, as atividades culturais e as ações de aproximação com as famílias, apontam para a importância de enfrentar essas questões desde a infância, criando espaços em que as diferenças não se traduzam em motivo de exclusão. Nesse processo, a escola também atua como um espaço de aprendizagem para os adultos que dela fazem parte, no qual eles podem rever suas práticas e ampliar seu repertório a partir de experiências com a comunidade escolar.
A experiência da EMEI Professor Lourenço Filho nos permite compreender que, ao se constituir como espaço de aprendizagem e também como rede de apoio, a escola pode contribuir para que crianças migrantes não apenas estejam presentes, mas se sintam pertencentes à comunidade escolar em que estão inseridas. Nesse sentido, a construção de uma escola que se pretende acolhedora requer um movimento permanente de escuta, abertura e transformação, no qual a presença do outro não seja entendida como um desafio a ser superado, mas como parte constitutiva da própria experiência educativa a ser desenvolvida naquele espaço. Como sintetiza Lara, “a escola é um eterno aprendizado para as crianças, mas também é um eterno aprendizado para nós”.
Sobre as autoras
Fernanda Martinelli é cientista social e mestre em Antropologia pela USP. Thainá Guerra é geógrafa, mestre e doutoranda em Geografia pela UFRJ. Ambas são integrantes do ProMigra desde 2026
Referências
ANUNCIAÇÃO, Renata Franck Mendonça de. SOMOS MAIS QUE ISSO: Práticas de (Re)existência de Migrantes e Refugiados Frente à Despossessão e ao Não Reconhecimento. 2017. 117f. Dissertação (Mestrado em Linguística Aplicada) – Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2017.
GUBERT, Luiza Bortolosso & POSSA, Leandra Bôer. Entre o Acolhimento e a Permanência: o Desafio da Gestão Escolar Na Construção de Escolas Hospitaleiras. Corumbá: Rev. Bras. Ed. Esp., v.32, e0218, p.1-14, 2026.
OLIVEIRA, Leila Maria. Imigrantes, xenofobia e racismo: uma análise de conflitos em escolas municipais de São Paulo. 2019. 228 f. Tese (Doutorado em Educação: Currículo) — Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2019. Disponível em: https://tede2.pucsp.br/bitstream/handle/22442/2/Leila%20Maria%20de%20Oliveira.pdf. Acesso em: 1 set. 2026.
OLIVEIRA, Leila Maria & CASALI, Alípio. Xenofobia racializada: Desigualdade na acolhida a estudantes imigrantes como desafio à Educação em Direitos Humanos. Campinas: Pro-Posições. V. 35, e2024c1003BR, 2024.
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