publicidade
domingo, junho 7, 2026

Dia da África: migrantes africanos no Brasil expressam a importância da data

O Dia da África deste ano ganha peso especial por ser o primeiro depois que a ONU reconheceu o tráfico transatlântico de africanos escravizados como o mais grave crime contra a humanidade já cometido

Valorização, conscientização, chamado por união, esperança… Esses são alguns dos sentimentos que o Dia da África traz para migrantes de países desse continente que vivem no Brasil. Alguns deles falaram ao MigraMundo sobre o que essa data de fato expressa para cada um.

O Dia da África foi instituído oficialmente pelas Nações Unidas (ONU) em 1972 e faz referência ao dia de criação da OUA (Organização da Unidade Africana, atual União Africana), em 1963. Naquela época, os países do continente estavam obtendo a independência em relação às metrópoles europeias. Em alguns países africanos, essa data é feriado nacional – casos, por exemplo, de Gana, Mali, Namíbia, Zâmbia e Zimbábue.

Ao todo, são 54 países reconhecidos oficialmente pela ONU, enquanto a União Africana em si possui 55 membros – ela reconhece o Saara Ocidental, região que luta para obter independência junto ao Marrocos.

No Brasil, a promoção da data tem como objetivo promover o reconhecimento da história e cultura africanas com a história do país. Além disso, serve como ponto de conexão com os imigrantes de países africanos que residem no país na atualidade. E essa junção fica bem clara nos depoimentos que o MigraMundo recebeu.

Reafirmação, representatividade e mobilização

“Falar sobre o Dia da África, celebrado em 25 de maio, é falar da história de um continente que deu origem à humanidade. A África é o berço da vida. Antes de existirem fronteiras, antes de existir divisão entre povos, já existiam grandes civilizações africanas, reinos poderosos, universidades, ciência, cultura, matemática, espiritualidade e sabedoria. Muitas pessoas ainda olham para a África com preconceito, como se fosse apenas pobreza ou sofrimento. Mas a África não é uma coisa só. A África possui milhares de culturas, centenas de línguas e uma riqueza humana impossível de explicar em poucas palavras”, sintetiza o senegalês Mamadou Ka, da ACENESP (Associação dos Camelôs e Empreendedores de Nações do Estado de São Paulo) e que vive há dez anos no Brasil.

Por sua vez, o ativista congolês Prosper Dinganga, do coletivo “A Voz do Congo”, traz uma perspectiva de reflexão para a data. “O Dia da África não pode ser apenas uma comemoração vazia. Confesso que meu sentimento é mesclado. Vejo esperança no Senegal, em Gana, em Botsuana, na Nigéria, no Benin, onde a democracia ainda respeita a passagem pacífica do poder. Mas também vejo a dor: no meu país, a República Democrática do Congo, que vive uma das maiores crises humanitárias da história, enquanto alguns líderes mudam constituições para se eternizar no poder. O que fizemos desse legado? Essa data precisa ser algo maior: um grito de vigilância. Ela deve nos lembrar que independência sem responsabilidade não é liberdade, é só trocar o nome do opressor”.

Para a ativista Constance Salawe, nascida em Camarões e de nacionalidade nigeriana, valorizar a contribuição africana é algo feito cotidianamente pela comunidade, mas o Dia da África traz um elemento especial. “Através de nossas manifestações, podemos denunciar a desigualdade e a discriminação, reinventar a nossa representatividade em promover a educação antirracista e construir o mais importante: uma ponte entre a comunidade africana e afro-brasileira”.

Para esta segunda-feira (25), inclusive, um ato no centro da capital paulista está sendo mobilizado para as 16h, por meio do mandato da vereadora Luana Alves, tendo o Dia da África como mote. A concentração será em frente ao Theatro Municipal.

Lições para o Brasil

Os migrantes de países africanos que residem no Brasil foram unânimes em apontar a forte conexão que o país tem com o continente situado no outro lado do oceano Atlântico e a necessidade de reconhecimento dessa ligação.

“Os africanos não vieram vazios [ao Brasil]. Eles trouxeram conhecimento, força, espiritualidade, música, dança, agricultura, inteligência e resistência. Trouxeram os tambores, os cantos, os tecidos, as tradições e a memória dos seus ancestrais. O povo africano ajudou a construir o Brasil”, recorda Mamadou Ka.

“Embora o Brasil abrigue povos de várias nações — inclusive europeias —, sob o meu ponto de vista, a nossa identidade é indissociável do continente africano. Essa memória precisa ser transmitida de geração em geração, permitindo que a população afro-brasileira conheça suas verdadeiras origens e a história de seus ancestrais”, reforça o poeta angolano Moisés Antonio, que reside em Curitiba. “​Se esta nação existe de forma grandiosa, é fruto do esforço dos povos africanos outrora escravizados e hoje libertos. O Brasil atual é, genuinamente, uma segunda casa para os africanos — sejam os aqui nascidos ou os imigrantes que encontram no solo brasileiro um espelho de suas próprias tradições, etnias e ancestralidade”, completa.

“Para mim, o Dia da África representa a valorização da história, da cultura, da resistência e da contribuição dos povos africanos para o mundo. Essa data é muito importante para o Brasil, pois a sociedade brasileira possui profundas raízes africanas na cultura, na música, na culinária, na religião e na construção social do país”, acrescenta Adama Konate, também residente em São Paulo e presidente da UMSPB (União dos Malineses em São Paulo e no Brasil). Ele também foi um dos migrantes que atuaram como conselheiros do Conselho Municipal Participativo na capital paulista nas vagas destinadas à população migrante.

Mamadou Ka recorda, no entanto, que a realidade vivida pelos africanos no Brasil é bastante adversa e que falta reconhecimento de suas contribuições para a sociedade local. “É triste perceber que até hoje muitos brasileiros ainda não reconhecem verdadeiramente a importância da África. O racismo continua existindo. O preconceito continua existindo. Muitos africanos e pessoas negras ainda sofrem rejeição, humilhação, violência, falta de oportunidade e falta de respeito. Chegam ao Brasil cheios de sonhos, mas encontram dificuldades enormes. Sofrem com a barreira da língua, com o preconceito, com a exclusão social e com a falta de apoio”.

Apesar do desabafo, o senegalês valoriza a resiliência dos africanos. “Muitas vezes o sistema fecha portas para o povo preto e para os imigrantes. Mas mesmo diante da dor, nós continuamos lutando. Mesmo com todas as dificuldades, continuo acreditando na união dos povos, na força da comunidade africana e no respeito entre as culturas”.

Dinganga reforça ainda que o Dia da África ajuda a mostrar para o Brasil a verdadeira plenitude do continente. “O Brasil não pode olhar para a África apenas com olhar folclórico, como se fôssemos só dança e comida. Precisa enxergar a África contemporânea: um continente de 1,4 bilhão de pessoas, com a maior área de livre comércio do mundo, soluções em energia verde, tecnologia financeira inovadora e uma juventude que está reinventando tudo. Quando o Brasil abraça o Dia da África, ele não está apenas resgatando sua ancestralidade. Ele está escolhendo o seu próprio futuro”.

Reconhecimento, ainda que tardio

O Dia da África deste ano ganha peso especial por ser o primeiro depois que a ONU reconheceu o tráfico transatlântico de africanos escravizados como o mais grave crime contra a humanidade já cometido.

Em 25 de março passado, a Assembleia Geral da ONU aprovou resolução que contou com o apoio de 123 Estados-membros a favor, três contra e 52 abstenções. O Brasil esteve entre os países que endossaram a resolução, enquanto Portugal se absteve, assim como a maioria dos europeus. Argentina, Estados Unidos e Israel foram os únicos a votar contra.

Durante quatro séculos, milhões de africanos foram sequestrados e vendidos como mercadorias em colônias de nações europeias, crime que continuou a ser cometido mesmo após a independência de algumas delas, como é o caso do Brasil e dos Estados Unidos.

“O Dia da África não é apenas uma comemoração. É um momento de reflexão sobre o passado, sobre a luta dos nossos ancestrais e sobre o futuro das próximas gerações. É um dia para lembrar nomes históricos como tantos outros líderes africanos que lutaram pela liberdade e pela dignidade do povo negro. É também um dia para lembrar todos os africanos anônimos que atravessaram oceanos, sobreviveram à escravidão, reconstruíram suas vidas na diáspora e deixaram suas marcas no mundo inteiro”, completou Mamadou Ka.

Em novembro de 2024, o Brasil pediu publicamente desculpas à população negra pela escravização das pessoas negras e seus efeitos


Quer receber notícias publicadas pelo MigraMundo diretamente no seu WhatsApp? Basta seguir nosso canal, acessível por este link

O MigraMundo depende do apoio de pessoas como você para manter seu trabalho. Acredita na nossa atuação? Considere a possibilidade de ser um de nossos doadores e faça parte da nossa campanha de financiamento recorrente

DEIXE UMA RESPOSTA

Insira seu comentário
Informe seu nome aqui

Publicidade

Últimas Noticías