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quarta-feira, setembro 23, 2026

Onde está Miguel? O percurso da busca e o desgaste de quem precisa continuar se deslocando

Além da carga emocional, existe uma dimensão econômica e territorial: a família passa a se deslocar continuamente para tentar reconstruir os últimos passos de quem desapareceu

Por Clarissa Paiva

Há mais de um ano, a família de Miguel Lau Mbiya convive com uma ausência que não se encerra. Aos 16 anos, o jovem migrante angolano desapareceu nas proximidades da estação de metrô Luz, no centro de São Paulo. Desde 23 de agosto de 2025, não há novas notícias sobre seu paradeiro. Para sua família, porém, a busca nunca parou. E, com ela, vieram custos que vão muito além do financeiro: tempo, trabalho, deslocamentos, desgaste físico e emocional e a necessidade de percorrer continuamente uma cidade e uma rede de instituições em busca de respostas.

Para uma família migrante, o deslocamento não é necessariamente uma experiência nova. Migrar significa, muitas vezes, reconstruir a vida em outro território, aprender novos caminhos, acessar serviços, procurar trabalho, estabelecer redes de apoio e atravessar diferentes espaços institucionais. Mas, quando um familiar desaparece, essa mobilidade cotidiana ganha outro significado. O deslocamento deixa de ser parte da construção de uma nova vida e passa a ser imposto pela urgência de encontrar alguém.

Delegacias, hospitais, institutos de identificação, serviços públicos, organizações da sociedade civil e diferentes órgãos passam a fazer parte de um percurso que precisa ser repetido. Cada deslocamento representa tempo e dinheiro, mas também exige que a família reorganize sua rotina. Para quem trabalha, pode significar faltar ao emprego. Para quem cuida de crianças ou de outros familiares, isso significa encontrar quem possa assumir essas responsabilidades. Para quem já possui uma rede de apoio limitada por estar longe do país de origem, o que significa enfrentar a busca praticamente sozinho.

Existe, portanto, uma dimensão econômica e territorial do desaparecimento: a família passa a se deslocar continuamente para tentar reconstruir os últimos passos de quem desapareceu.

No caso de Miguel, essa dimensão se torna especialmente significativa. Sua família não busca apenas uma pessoa; busca também informações capazes de reconstruir uma trajetória interrompida. Cada instituição procurada, cada documento solicitado e cada novo caminho percorrido representam uma tentativa de preencher os espaços deixados pela ausência.

Migrar, deslocar-se e procurar

A experiência migratória pode ser pensada, nesse contexto, como uma trajetória marcada pelo deslocamento contínuo. Há o deslocamento inicial, a adaptação ao novo território e os deslocamentos necessários para acessar trabalho, moradia, saúde, educação e documentação. Quando ocorre um desaparecimento, acrescenta-se uma nova camada: o deslocamento provocado pela própria busca.

E esse movimento pode se tornar circular. A família procura uma instituição, é encaminhada para outra, precisa retornar com documentos, buscar uma informação em outro local e, muitas vezes, começar novamente o percurso quando não encontra respostas. O tempo da busca passa a consumir o tempo da vida cotidiana.

Por isso, perguntar “quanto custa procurar alguém desaparecido?” significa perguntar também quem tem condições de continuar se deslocando para procurar.

Essa pergunta é particularmente importante quando pensamos em famílias migrantes, porque o desaparecimento pode transformar uma experiência já marcada por deslocamentos e adaptações em um processo de mobilidade compulsória, no qual circular pela cidade e pelas instituições se torna parte da tentativa de garantir o direito de encontrar respostas.

Para algumas famílias, procurar alguém desaparecido significa continuar se deslocando mesmo quando tudo o que desejavam era finalmente ter um lugar onde pudessem parar.

A família solicita que qualquer pessoa que tenha visto Miguel ou possua informações sobre seu paradeiro entre em contato imediato com as autoridades. Informações podem ser repassadas à Polícia Militar, pelo telefone 190, em delegacias da região ou por meio do Disque 100, canal nacional voltado à proteção dos direitos humanos.

À medida que os dias passam sem respostas, a família intensifica o apelo à sociedade: para Ana Maria Lau, mãe de Miguel, qualquer informação pode ser determinante para reencontrar o filho. Para mais informações sobre o que fazer em caso de desaparecimento em São Paulo, acesse o link da Prefeitura de São Paulo.


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