Por Clarissa Paiva
Há um ano, Ana Maria Lau vivencia uma pergunta que nenhuma mãe deveria precisar fazer: Onde está seu filho?
Em 23 de agosto de 2025, Miguel Lau Mbiya, então com 16 anos, desapareceu nas proximidades da estação de metrô Luz, na região central de São Paulo. Negro e migrante, filho de mãe congolesa e com documentação angolana, Miguel completou 17 anos em abril passado longe de casa. Desde aquela madrugada, não houve novas notícias sobre seu paradeiro.
Um ano depois, a ausência continua sem explicação. Para a família, o tempo não representa o encerramento de um caso, mas a permanência de uma espera que reorganizou completamente suas vidas. Cada aniversário, cada data comemorativa e cada dia que passa reforçam a mesma pergunta: o que aconteceu com Miguel?
Esse triste marco coincide com o início de uma mobilização nacional que pode ajudar na busca de respostas para perguntas sobre o caso Miguel: começa nesta segunda-feira (24) a 4ª Mobilização Nacional de Coleta de DNA de Familiares de Pessoas Desaparecidas.
Esforços x burocracia e barreiras
Ao longo dos últimos doze meses, familiares, amigos e integrantes da comunidade migrante ajudaram a divulgar sua imagem e informações sobre o seu desaparecimento. Também foram buscadas ferramentas tecnológicas, como o Family Faces, aplicativo desenvolvido pela Mult-Connect em parceria com a Microsoft e a organização Mães da Sé, que utiliza reconhecimento facial para auxiliar na localização de pessoas desaparecidas.
Mas a tecnologia não consegue, sozinha, responder às perguntas que permanecem abertas.
Por outro lado, a experiência da família de Miguel também evidencia uma dimensão menos visível do desaparecimento: as dificuldades enfrentadas por famílias migrantes para acessar e dialogar com instituições públicas.
Para Ana Maria, procurar respostas significa entrar em espaços burocráticos que nem sempre estão preparados para acolher famílias migrantes. A linguagem institucional, os procedimentos, os sistemas digitais e a própria relação com os agentes públicos podem se transformar em obstáculos adicionais para quem já chega a esses espaços carregando a dor e a urgência provocadas pelo desaparecimento de um filho.
Quando a família precisa insistir repetidamente para ser ouvida, quando encontra dificuldades para compreender procedimentos ou quando barreiras burocráticas impedem o acesso a instrumentos de investigação, o tempo passa a trabalhar contra a busca.
Ou seja, a experiência de Ana revela uma realidade que precisa ser discutida: o desaparecimento de uma pessoa não pode produzir também o desaparecimento de sua família dentro das instituições.
Um novo recurso?
Entre 24 e 28 de agosto de 2026, familiares de pessoas desaparecidas poderão participar da 4ª Mobilização Nacional de Coleta de DNA de Familiares de Pessoas Desaparecidas. A iniciativa terá 342 postos de atendimento em diferentes regiões do país, com coleta gratuita, rápida e realizada por meio de um cotonete na parte interna da bochecha.
A lista completa dos pontos de coleta está disponível no site do Ministério da Justiça.
O objetivo é ampliar os perfis genéticos disponíveis para comparação com pessoas encontradas cuja identidade ainda não tenha sido confirmada. As amostras podem ser confrontadas com bancos de DNA estaduais e com o banco nacional, aumentando as possibilidades de identificação.
A mobilização acontece em um país que registrou 51.234 casos de desaparecimento somente em 2026, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, com base na Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas. Desse total, 13.801 envolveram crianças e adolescentes de 0 a 17 anos.
Para participar, a recomendação é priorizar os familiares biológicos mais próximos, como pai ou mãe, filhos ou irmãos, e levar documento de identificação e, se possível, os dados do boletim de ocorrência. A coleta também pode ser realizada fora do estado onde ocorreu o desaparecimento.
Essa mobilização pode ajudar a família de Miguel a superar uma das barreiras que encontrou na busca por informações sobre o jovem. Reportagem publicada anteriormente pelo MigraMundo registrou dificuldades enfrentadas pelos integrantes para acessar o sistema de agendamento da Polícia Científica de São Paulo para coleta de DNA.
Como ajudar?
Enquanto o Estado amplia as suas ferramentas de busca, Ana Maria Lau continua fazendo aquilo que nenhuma inovação tecnológica pode substituir: procurar. Sua história lembra que, por trás de cada estatística, existe uma família que espera. E cada desaparecimento sem resposta permanece como uma urgência humana que não pode ser esquecida.
A família solicita que qualquer pessoa que tenha visto Miguel ou possua informações sobre seu paradeiro entre em contato imediato com as autoridades. Informações podem ser repassadas à Polícia Militar, pelo telefone 190, em delegacias da região ou por meio do Disque 100, canal nacional voltado à proteção dos direitos humanos.
Para mais informações sobre o que fazer em caso de desaparecimento em São Paulo, acesse o link da Prefeitura de São Paulo.
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