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segunda-feira, agosto 17, 2026

Relação entre Brasil e China vai muito além do comércio e negócios, afirma presidente do Ibrachina

Para Thomas Law, a cultura permite uma aproximação mais humana e mostra uma sociedade, história e diversidade cultural muito grandes por trás da relação comercial Brasil-China

Quem foi no último final de semana (15 e 16) ao bairro da Liberdade, em São Paulo, teve a oportunidade de acompanhar o Festival da China, que celebrou tanto o Dia da Imigração Chinesa no Brasil (15 de agosto) quanto o Ano da Cultura e do Turismo Brasil-China. E o gigante asiático está mais presente no cotidiano paulistano e de outros locais no Brasil do que se imagina.

A China já é o maior parceiro comercial do Brasil, com um volume que superou US$ 100 bilhões em 2025 – alta de 6% em relação a 2024. Neste ano a tendência se mantém: as vendas para a China cresceram 21,9% no primeiro semestre e atingiram US$ 58,322 bilhões, e a balança comercial apresentou superávit de US$ 19,777 bilhões para o lado brasileiro.

A relação também é intensa na movimentação entre pessoas. Cidadãos dos dois países contam no momento com isenção mútua de vistos para turismo e negócios, ao mesmo tempo que o país asiático cresce como opção para intercâmbio. Além disso, estima-se que no Brasil vivam cerca de 300 mil chineses, sendo a grande maioria (em torno de 70%) no estado de São Paulo e em especial na capital paulista – uma comunidade ainda engrossada pelos descendentes diretos.

Na esfera cultural, além da já tradicional celebração do Ano Novo Chinês (que agora integra o Calendário Oficial de Eventos de São Paulo) e do recente Festival da China, o público paulistano já teve também a oportunidade de acompanhar outros eventos recentes, como a exposição temporária “Seda que une montanhas e mares: da China ao Brasil”, no Museu da Imigração, e o Dragon Boat Day.

“O desafio é ampliar essa percepção e mostrar que a relação entre os dois países é muito maior do que o comércio ou os investimentos. A cultura permite uma aproximação diferente, mais humana, mostrando que existe uma sociedade, uma história e uma diversidade cultural muito grandes por trás dessa relação”, disse o advogado Thomas Law, presidente do Instituto Sociocultural Brasil-China (Ibrachina).

Em entrevista ao MigraMundo, entre outros assuntos, Law também fez elogios à Política Municipal para a População Imigrante, em vigor na capital paulista desde 2016, comentou os efeitos da isenção mútua de vistos entre Brasil e China ,e também rebateu a visão de que a comunidade migrante chinesa é fechada em relação aos brasileiros.

Leia a seguir a entrevista completa:


MigraMundo: Quando falamos de cultura chinesa por aqui no Brasil, a primeira associação costuma ser com o Ano Novo Chinês. Isso de alguma forma interfere na divulgação de outras atividades de promoção da cultura chinesa por aqui? Como está a percepção dos brasileiros em relação à China, na sua opinião?
Thomas Law: O Ano Novo Chinês é uma porta de entrada muito importante para que o brasileiro conheça a cultura chinesa. Essa tradição vem ganhando cada vez mais espaço no Brasil e, em 2026, São Paulo passou a incluir oficialmente o Ano Novo Chinês no Calendário de Eventos da Cidade, o que mostra como essa manifestação cultural vem alcançando um público cada vez maior. Mas a cultura chinesa é muito mais ampla. Temos música, dança, gastronomia, artes marciais, medicina tradicional, literatura, cinema, educação e diferentes manifestações artísticas que ainda podem ser mais conhecidas pelo público brasileiro.

E os dados mostram que existe espaço para essa aproximação. Uma pesquisa do Pew Research Center divulgada em julho de 2026 aponta que 46% dos brasileiros têm uma visão positiva da China, enquanto 40% têm uma visão negativa. Foram ouvidas 45 mil pessoas em 37 países. É um dado que mostra que existe uma percepção relativamente equilibrada e uma oportunidade importante de ampliar o conhecimento sobre o país para além dos estereótipos. Acredito que estamos vivendo um momento muito positivo para isso. Em 2024, Brasil e China celebraram 50 anos de relações diplomáticas e, agora, em 2026, temos o Ano Cultural Brasil-China, com uma agenda construída justamente para ampliar o conhecimento mútuo e estimular novas parcerias entre artistas, instituições e agentes culturais.

É nesse contexto que realizamos o Festival da China, na Praça da Liberdade. O primeiro dia teve ainda um significado especial por marcar o Dia Nacional da Imigração Chinesa no Brasil, celebrado em 15 de agosto. A ideia foi apresentar ao público diferentes expressões da cultura chinesa, com música, dança, Dança do Dragão e do Leão, Kung-Fu, Tai Chi, gastronomia e medicina tradicional chinesa. Na minha percepção, existe uma curiosidade crescente do brasileiro em relação à China. O desafio é ampliar essa percepção e mostrar que a relação entre os dois países é muito maior do que o comércio ou os investimentos. A cultura permite uma aproximação diferente, mais humana, mostrando que existe uma sociedade, uma história e uma diversidade cultural muito grandes por trás dessa relação. O Festival da China parte justamente dessa ideia: aproveitar esse interesse crescente para apresentar outras dimensões da cultura chinesa e criar um espaço de convivência entre brasileiros e chineses.

Púbico durante o Festival da China, no bairro da Liberdade, em São Paulo.
(Foto: Divulgação/Ibrachina – 15.ago.2026)

Brasil e China já são grandes parceiros comerciais. Como você avalia o Ano da Cultura Brasil-China até o momento, em termos de conexão entre os dois povos?
Eu vejo o Ano Cultural como uma oportunidade muito concreta de aproximar os dois povos por meio da cultura. A programação de 2026 é bastante ampla e mostra que essa relação não está restrita a grandes eventos pontuais, mas envolve instituições, museus, artistas, universidades e agentes culturais dos dois países. Nos últimos anos, tivemos avanços importantes. Em 2024, por exemplo, Brasil e China assinaram memorandos de entendimento para ampliar a cooperação no cinema e no audiovisual, incluindo produção de obras, intercâmbio técnico e realização de eventos culturais. Em 2026, um dos acordos de coprodução cinematográfica entre os dois países avançou no Congresso Nacional. Também temos visto parcerias entre instituições culturais. Um exemplo é a cooperação entre o Museu da Imigração e o Museu Nacional da Seda da China, que resultou na exposição “Seda que une montanhas e mares: da China ao Brasil”, com mais de 100 peças e atividades de intercâmbio acadêmico. A mostra, inclusive, recebeu em 2026 o prêmio de Melhor Cooperação Internacional no principal prêmio de exposições da China.

O Museu da Imigração também vem desenvolvendo uma agenda contínua com o Ibrachina para apresentar a cultura chinesa ao público brasileiro, incluindo celebrações do Ano Novo Chinês, oficinas de gastronomia, Tai Chi, cerimônia do chá, medicina tradicional e atividades para crianças. Além disso, tivemos apresentações de grandes companhias e artistas chineses no Brasil, exposições, mostras de cinema, ações promovidas pela Embaixada e pelo Consulado e iniciativas em diferentes cidades.

A gastronomia também é uma expressão muito interessante dessa aproximação. São Paulo vem ampliando as opções de restaurantes chineses e de diferentes cozinhas regionais da China, permitindo que o brasileiro tenha contato com sabores que vão muito além da imagem tradicional que conhecemos da culinária chinesa.O Festival da China é mais uma iniciativa nesse sentido. Queremos criar um espaço em que brasileiros e chineses possam conviver, conhecer tradições, experimentar a gastronomia, assistir às apresentações e estabelecer uma relação mais próxima com a cultura chinesa. A cultura ajuda a transformar uma parceria entre países em uma relação também entre pessoas.

Há uma imagem pré-estabelecida em relação aos chineses no Brasil como uma comunidade fechada em si, com pouca interação com outras comunidades. De que forma você vê a diáspora chinesa aqui no país?
Acho que essa percepção precisa ser revista. Toda comunidade de imigrantes preserva sua língua, sua gastronomia, suas tradições e seus espaços de convivência. Isso faz parte da identidade cultural e não significa falta de integração. Nos últimos anos, inclusive, temos percebido uma mudança importante na forma como a cultura chinesa é apresentada e consumida no Brasil. A gastronomia é um bom exemplo. Hoje, o público brasileiro tem acesso a uma variedade muito maior de restaurantes e pratos chineses, incluindo cozinhas regionais, e isso ajuda a aproximar as pessoas de uma cultura que antes era conhecida de maneira muito mais limitada.

O Ibrachina trabalha nessa frente desde 2018, justamente com o objetivo de ampliar o contato do público brasileiro com diferentes aspectos da cultura chinesa. A partir de eventos e ações culturais abertos à sociedade, buscamos criar oportunidades de convivência e intercâmbio, contribuindo para transformar uma cultura que muitas vezes era pouco conhecida em uma cultura que desperta cada vez mais curiosidade e interesse. Esse trabalho acontece por meio de articulações com a Embaixada da China e os Consulados-Gerais, mas também com instituições brasileiras. Temos desenvolvido iniciativas com o Congresso Nacional, Frentes Parlamentares, Ministério da Cultura, secretarias de Cultura de diferentes cidades e estados e agentes culturais como museus, teatros, Sesc, universidades e outras instituições.

Em São Paulo, por exemplo, a parceria com o Museu da Imigração já resultou em exposições e uma programação contínua de atividades culturais. A exposição sobre a seda, realizada em parceria com o Museu Nacional da Seda da China, foi um exemplo muito concreto de como podemos aproximar as duas culturas por meio do patrimônio e da história. Também existe uma dimensão jurídica e acadêmica dessa integração. O Ibrachina atua na aproximação entre universidades e instituições brasileiras e chinesas em temas jurídicos, tecnológicos e acadêmicos. Um exemplo é o trabalho desenvolvido por meio de livros, eventos e pesquisas sobre Direito comparado, proteção de dados e inteligência artificial. O próprio livro sobre LGPD e IA generativa, de minha autoria, parte dessa perspectiva de comparar experiências brasileiras e chinesas.

São Paulo é um exemplo muito claro dessa transformação. A Liberdade continua sendo um importante símbolo da presença chinesa e asiática, mas essa presença hoje está espalhada por diferentes setores da economia e da sociedade. E o Festival da China, realizado justamente na Liberdade, também tem esse propósito: abrir as portas dessa cultura para toda a cidade. Não é um evento pensado apenas para a comunidade chinesa. É um convite para que brasileiros de diferentes origens conheçam, participem e convivam com essas manifestações culturais. Eu prefiro falar, portanto, em integração com preservação da identidade. É possível manter as tradições e, ao mesmo tempo, participar plenamente da sociedade brasileira. Na verdade, é justamente essa diversidade que torna a relação entre Brasil e China mais rica.

Neste momento, Brasil e China contam com isenção de vistos para fins de turismo e negócios. Que impactos essa facilitação na circulação entre os dois países já gera, na prática? É possível vislumbrar uma renovação desse acordo?
A facilitação da circulação é muito importante porque reduz uma barreira prática para a aproximação entre as pessoas. Quando você facilita a entrada de brasileiros na China e de chineses no Brasil, facilita não apenas o turismo, mas também reuniões de negócios, participação em eventos, intercâmbios acadêmicos e encontros culturais. E 2026 tem um significado especial porque é o Ano da Cultura e do Turismo Brasil-China. A cooperação nessa área foi anunciada justamente com o objetivo de ampliar o fluxo de visitantes e fortalecer a promoção recíproca dos destinos e das culturas dos dois países.

Desde maio de 2026, cidadãos chineses com passaporte comum podem entrar no Brasil sem visto para estadas de até 30 dias para turismo, negócios, trânsito e determinadas atividades artísticas ou esportivas. A medida está prevista até 31 de dezembro de 2026. O efeito mais importante, para mim, é justamente a circulação de pessoas e a criação de laços. Uma viagem pode gerar uma parceria empresarial, um intercâmbio pode aproximar uma universidade e um evento cultural pode despertar o interesse de um jovem pela língua e pela história de outro país.

Estamos vendo resultados concretos também no turismo. O Brasil recebeu 103.122 turistas chineses em 2025, alta de 35% em relação a 2024. Apenas no primeiro quadrimestre de 2026, foram 39.880 visitantes chineses, crescimento de 33,6% em relação ao mesmo período do ano anterior. Além disso, em 2026 o Ministério do Turismo criou um Grupo de Trabalho de Turismo Brasil-China para coordenar ações estratégicas de cooperação turística entre os dois países. Sobre a continuidade ou renovação das regras de entrada, essa é uma decisão que cabe aos governos dos dois países. O importante é avaliar os resultados dessa experiência e reconhecer que a facilitação da mobilidade também é uma ferramenta de diplomacia e aproximação entre os povos.

A cidade de São Paulo conta com uma política municipal voltada às comunidades migrantes que residem no município. Qual é a sua opinião sobre ela e como ela é percebida pela diáspora chinesa na capital paulista?
São Paulo tem uma experiência muito importante nessa área. A política municipal para a população imigrante representa um avanço na construção de uma cidade mais inclusiva e, em 2026, completará dez anos. O ponto central é entender que o imigrante não deve ser visto apenas como alguém que chegou ao país. Ele é também trabalhador, empreendedor, estudante, pesquisador, consumidor e parte da sociedade. Por isso, precisa ter acesso a serviços públicos, educação, informação e mecanismos de participação.

Para a comunidade chinesa, isso é especialmente relevante porque São Paulo possui uma relação histórica com a China. A Liberdade é um dos exemplos mais conhecidos, mas essa presença está espalhada pela cidade e por diferentes setores. Também considero importante que as próprias comunidades tenham espaço para participar da construção das políticas públicas. O diálogo entre poder público e sociedade civil é fundamental para que essas políticas reflitam as necessidades reais das comunidades. E preservar a cultura faz parte desse processo. Não precisamos escolher entre integração e identidade cultural. O ideal é construir uma cidade em que as pessoas possam preservar suas tradições e, ao mesmo tempo, participar plenamente da vida brasileira.

Dragão Chinês durante o Festival da China, em São Paulo.
(Foto: Divulgação/Ibrachina – 15.ago.2026)

Na sua opinião, o que torna o Brasil um país atrativo para que chineses se estabeleçam por aqui, seja para negócios, estudos ou residência? E por que brasileiros que almejam uma experiência internacional deveriam considerar a China?
O Brasil tem características muito importantes para os chineses: é um mercado de grande escala, possui recursos naturais estratégicos, uma agricultura competitiva, uma matriz energética relevante e uma posição importante na América Latina. Existe também uma relação diplomática consolidada há mais de 50 anos. Mas essa relação é uma via de mão dupla. Ao mesmo tempo em que vemos mais chineses vindo para o Brasil, também estamos vendo um aumento do interesse dos brasileiros pela China. Um dado interessante é o crescimento do turismo de brasileiros no país asiático. Segundo dados da plataforma Civitatis, o turismo de brasileiros na China cresceu 91% em 2025, impulsionado pela isenção de visto, maior conectividade aérea e oferta de experiências em português.

Do lado brasileiro, a própria facilitação da entrada na China tem ajudado a reduzir barreiras para quem quer conhecer o país. Isso vale para turistas, mas também para estudantes, pesquisadores, empreendedores e profissionais interessados em desenvolver relações com empresas e instituições chinesas. E essa troca acontece em um momento de expansão do relacionamento. O número de autorizações de trabalho para chineses no Brasil cresceu de uma média mensal de 270 em 2023 para 625 em 2024 e 844 em 2025. No primeiro trimestre de 2026, foram 3.193 autorizações, e a China respondeu por 38% das autorizações de trabalho concedidas a estrangeiros no período.

Isso mostra que estamos construindo uma relação cada vez mais dinâmica, com circulação de profissionais, conhecimento, tecnologia e investimentos nos dois sentidos.Eu sempre incentivo os brasileiros a olharem para a China não apenas como um mercado, mas como uma oportunidade de aprendizado. A China passou por uma transformação econômica, tecnológica e social muito profunda nas últimas décadas. Para um estudante, empreendedor, pesquisador ou profissional brasileiro, conhecer essa realidade pode ampliar muito sua visão de mundo.

E essa troca precisa acontecer nos dois sentidos: os chineses conhecendo melhor o Brasil e os brasileiros conhecendo melhor a China. É justamente dessa circulação de pessoas, conhecimento e cultura que nasce uma relação bilateral mais madura. O trabalho do Ibrachina está justamente nessa ponte: aproximar pessoas, instituições, universidades, empresas e comunidades para que a relação Brasil-China seja construída também pelo conhecimento, pela convivência e pelo intercâmbio cultural.


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