Por Pe. Alfredo J. Gonçalves
O escritor Franz Kafka nasceu no ano de 1883, em Praga, na época pertencente ao Império Austro-Húngaro, hoje República Checa (ou Chéquia). O universo de Kafka (ou simplesmente K, como ele mesmo denomina uma de suas criações mais emblemáticas) é marcado por densas e sombrias nuvens. Longe de um ar primaveril, de um céu azul e sereno e de uma atmosfera transparente, seu horizonte revela-se pesado como chumbo, anunciando tormenta. O escritor parece saído de um filme de ficção, filho de um contexto histórico repleto de perguntas, mas vazio de respostas. Um verdadeiro órfão de seu tempo, alienígena enigmático e estrangeiro na própria terra, vindo de uma era anacronicamente posterior à sua. De resto, essa condição de orfandade e de estranheza se evidencia à saciedade em sua Carta ao pai.
Os personagens de “O Processo” e de “O Castelo”, por exemplo, movem-se numa bruma escura e espessa, em permanente nebulosidade. Enquanto o primeiro põe em marcha uma tentativa sempre fracassada de se livrar de uma acusação cuja matéria sequer conhece, o segundo não consegue atinar com a pessoa ou a porta que o deveriam conduzir a um emprego prometido. Este último busca em vão alguém que o possa informar sobre o acesso ao castelo que parece localizado para além da realidade, num lugar improvável e misterioso. O outro, errando de cartório em cartório e de tribunal em tribunal, perde-se num labirinto de escadas, salas e corredores onde não há saídas nem alma viva que o oriente.
K vê-se condenado irremediavelmente à morte e narra a própria execução, ignorando completamente por que crime fora julgado. Que se lembrasse, nada havia cometido contra as leis do país. Não obstante, gasta dias, semanas e meses pendurando-se nos escritórios e balcões burocráticos de um sistema jurídico e penal cujas regras não entende, e ninguém se dispõe a explicar-lhe. Os diversos funcionários com quem tropeça aparecem e desaparecem como fantasmas, sem uma palavra iluminadora. Levantam interrogações sobre interrogações, inquéritos e mais inquéritos, sem jamais esclarecer o processo em questão.
Quanto ao personagem principal de “O Castelo”, apesar de ter recebido em casa a notificação do novo trabalho, desconhece por completo como chegar ao edifício e nada fica sabendo sobre a pessoa que, supostamente, o teria contratado. Sua busca e suas dúvidas caem num vazio deserto e incógnito. Não há caminho por onde chegar ao local, nem entrada ou ouvido que o atenda. Também aqui, tudo parece fantasmagórico, irreal e ilusório. Multiplicam-se os segredos, sem que haja qualquer chave de acesso.
Tanto “O Processo” quanto “O Castelo”, transplantados para os tempos atuais, representam excelentes metáforas, no primeiro caso, para quem procura emprego fixo e digno, no segundo, para quem anseia por justiça e direito de defesa. Ambos se batem e debatem por vias sinuosas e tortuosas, sempre encobertas por uma nebulosidade que mescla e confunde os contornos precisos do cotidiano real e sólido. Um e outro parecem mudos e surdos, cegos e mutilados, tateando as coisas e as pessoas com a ponta dos dedos, mas sem encontrar qualquer ser vivo palpável, de carne e osso. Uma realidade fictícia e virtual se sobrepõe ao mundo concreto e conhecido. Tudo em volta se derrete e se transfigura, como que escapando às mãos que tentam tocar e agarrar. Tudo é frio como o gelo. Tudo escorrega por entre os dedos, como grãos de areia. Ao mesmo tempo, tudo se vela e revela, mas as sombras prevalecem sobre a luz e o calor.
A conclusão destas linhas pode ser insinuada por outra obra do mesmo autor, “A Metamorfose”. Nesta, Joseph K, ao acordar pela manhã, vê-se transformado em um grande inseto, uma abjeta barata. Em lugar de caminhar com os pés, como todo bípede, passa a rastejar penosamente. Como tal, torna-se vulnerável diante de qualquer calçado, seja bota, sapato ou sandália que, consciente ou inconscientemente, o possa esmagar. Exposto a semelhante ameaça, acaba interiorizando o perigo diário, constante, assustador, encolhendo-se e encaramujando-se em si mesmo. Parafraseando Clarice Lispector – ao apresentar Macabéa na “Hora da Estrela” – tem contra si toda pessoa, a rua, o bairro, toda uma cidade. Na modernidade tardia ou pós-modernidade, o pobre e excluído, o migrante e descartável têm o mundo inteiro contra si e sua dignidade humana.
Sobre o autor
Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, é sacerdote da Congregação dos Missionários de São Carlos (scalabrinianos), cujo carisma é atuar com migrantes e refugiados. Durante 5 anos, foi assessor do Setor Pastoral Social da CNBB, depois Superior Provincial e Vigário Geral na Congregação supracitada. Hoje, exerce a função de vice-presidente do Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM). Autor do livro Retratos da Metrópole, organizado pela Missão Paz.
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