Por Gustavo Cavalcante
Nas últimas duas décadas, viajar pelo mundo sem a necessidade de visto tornou-se uma realidade mais acessível para milhões de pessoas. Dados reunidos pela consultoria Henley & Partners mostram que o número médio de destinos disponíveis aos portadores de passaportes ao redor do planeta praticamente dobrou desde 2006. Por trás desse avanço, porém, existe uma dinâmica menos evidente: enquanto a circulação internacional se expandiu, também aumentou a distância entre aqueles que atravessam fronteiras com relativa facilidade e aqueles que continuam encontrando obstáculos para fazê-lo.
Ao completar 20 anos, o Henley Passport Index oferece mais do que uma fotografia dos passaportes com maior alcance internacional. O levantamento ajuda a compreender como relações diplomáticas, interesses econômicos e decisões políticas influenciam a possibilidade de entrar em outros países. Em um cenário marcado pela intensificação dos deslocamentos humanos e por controles migratórios cada vez mais seletivos, os dados revelam que a liberdade de circulação continua sendo distribuída de maneira desigual entre diferentes nacionalidades.
O mundo viaja mais
Os dados reunidos pela Henley & Partners ao longo dos últimos 20 anos indicam uma tendência clara: o acesso a outros países se ampliou de forma significativa. Em 2006, um passaporte médio garantia entrada em cerca de 58 destinos sem a necessidade de visto prévio. Em 2026, esse número chegou a 108, refletindo um cenário de maior conectividade entre países e a expansão de acordos que facilitam viagens internacionais.
Parte dessa transformação está relacionada à crescente integração econômica, turística e diplomática observada nas últimas décadas. A flexibilização das exigências para viagens de curta duração tornou-se uma ferramenta utilizada por governos para estimular negócios, atrair visitantes e estreitar relações bilaterais. Como resultado, cruzar uma fronteira passou a exigir menos burocracia para um número cada vez maior de pessoas.
Esse movimento indica que, ao menos para determinadas nacionalidades e em viagens de curta duração, as exigências para atravessar algumas fronteiras se tornaram menos restritivas. Os mesmos dados que apontam para um mundo mais conectado, porém, mostram que os benefícios dessa abertura não chegaram a todos da mesma maneira.
Mas a desigualdade também cresceu
Embora o acesso internacional tenha avançado em termos gerais, a distância entre os passaportes mais e menos valorizados também aumentou ao longo do período analisado. Em 2006, a diferença entre o documento com maior alcance e o de menor alcance era de 118 destinos. Na edição de julho de 2026, que marca os 20 anos do índice, o intervalo chegou a 170.
Na edição de julho de 2026, Singapura aparece no topo do ranking, enquanto o Afeganistão permanece na última posição. A distância entre os dois extremos ajuda a dimensionar uma desigualdade que não aparece quando se observa apenas o crescimento da média global.
Enquanto alguns países ampliaram significativamente as possibilidades de seus cidadãos entrarem em outros territórios, outros avançaram pouco ou permaneceram próximos das posições inferiores. Na prática, a nacionalidade continua definindo, em grande medida, quanto de burocracia uma pessoa precisará enfrentar para realizar uma viagem internacional.
O dado reforça uma realidade conhecida por pesquisadores e por milhões de migrantes: o país onde uma pessoa nasce influencia profundamente suas possibilidades de circulação ao longo da vida. Em um mundo cada vez mais interconectado, as fronteiras permanecem mais abertas para algumas nacionalidades do que para outras, revelando como oportunidades de deslocamento continuam associadas a fatores geopolíticos que escapam ao controle individual.
O passaporte como instrumento de poder
Mais do que um documento de identificação, o passaporte também pode ser entendido como um reflexo da posição que um país ocupa no cenário global. Sua força está ligada à capacidade de um Estado estabelecer relações de confiança com outros governos e negociar acordos que facilitem a entrada de seus cidadãos em territórios estrangeiros.
Sob essa perspectiva, o ranking da Henley & Partners oferece uma leitura que vai além do turismo ou das viagens de negócios. Ele permite observar como o direito de entrar em outros países está relacionado à posição de cada Estado no sistema internacional. Estabilidade institucional, capacidade diplomática e relações bilaterais consistentes podem favorecer acordos que ampliam as possibilidades de circulação de seus nacionais.
A evolução observada em alguns países ao longo das últimas duas décadas ajuda a ilustrar esse fenômeno. Ganhos expressivos no ranking podem acompanhar processos de aproximação diplomática e expansão de acordos internacionais. O passaporte, nesse sentido, deixa de ser apenas um documento apresentado em um controle de fronteira e passa a funcionar como um indicador das relações que um Estado construiu além de seus limites territoriais.
O que o índice não mostra
Embora o Henley Passport Index seja uma referência para medir o acesso a diferentes destinos sem necessidade de visto prévio, seus resultados representam apenas uma parte da experiência migratória contemporânea. O levantamento considera viagens de curta duração, mas não contempla os desafios enfrentados por quem pretende trabalhar, estudar, residir ou construir uma vida fora do país de origem.
Questões ligadas à migração laboral, por exemplo, ficam fora do alcance do ranking. Ter entrada facilitada como turista não significa ter autorização para trabalhar ou permanecer por longos períodos. Em muitos casos, os processos para obtenção de vistos de trabalho continuam complexos, seletivos e sujeitos a critérios econômicos ou políticos.
Os deslocamentos forçados também escapam à lógica da classificação. Pessoas refugiadas, solicitantes de asilo e indivíduos que deixam seus países em razão de guerras, perseguições ou crises humanitárias enfrentam desafios que não podem ser medidos pela quantidade de destinos acessíveis sem visto. Para essas populações, mover-se não representa um privilégio associado à liberdade de viajar, mas uma necessidade diante de circunstâncias extremas.
Há ainda uma dimensão econômica que costuma desaparecer quando se olha apenas para os números. A autorização para entrar em determinado território não garante, por si só, condições para realizar a viagem. Passagens, hospedagem, documentação e eventuais exigências financeiras podem transformar uma possibilidade formal em uma oportunidade inacessível para parte da população.
Por isso, ter um passaporte considerado forte não significa, necessariamente, ter liberdade plena para migrar. O índice mede a facilidade de cruzar fronteiras por períodos curtos, não as condições para permanecer do outro lado delas.
A loteria do nascimento
Uma das reflexões mais provocativas que emergem do ranking é a influência da nacionalidade sobre as oportunidades de circulação. Em um mundo marcado pela crescente interconexão, o lugar onde uma pessoa nasce continua sendo um dos fatores mais determinantes para definir até onde ela pode ir com menos barreiras burocráticas.
Diferentemente da formação acadêmica, da profissão ou da experiência profissional, a cidadania é, na maior parte dos casos, uma condição recebida no nascimento e fora do controle individual. Ainda assim, ela pode abrir portas ou impor limitações que acompanharão uma pessoa por toda a vida.
Essa realidade evidencia uma forma de desigualdade que raramente ocupa o centro do debate público. Enquanto algumas pessoas recebem, desde o nascimento, acesso facilitado a grande parte do mundo, outras precisam enfrentar processos mais demorados, caros e incertos para realizar os mesmos deslocamentos.
Mais do que um documento de viagem, o passaporte funciona como um marcador de oportunidades globais. Sua força não é resultado de uma conquista individual, mas de uma condição herdada. Em um mundo cada vez mais conectado, a nacionalidade continua sendo um dos fatores que mais influenciam quem pode atravessar fronteiras com facilidade e quem permanece sujeito a restrições.
Mais do que um ranking de viagens
A cada nova edição, o Henley Passport Index atrai atenção por apontar quais são os documentos com maior alcance internacional. Mas os números reunidos ao longo de duas décadas permitem uma leitura mais ampla sobre a forma como as fronteiras estão organizadas no mundo contemporâneo.
Se, por um lado, viajar se tornou mais acessível para milhões de pessoas, por outro, as diferenças entre nacionalidades continuam produzindo experiências profundamente distintas. O ranking mostra que a abertura internacional cresceu, mas também que seus benefícios permanecem concentrados.
Mais do que medir a força de um passaporte, o índice ajuda a revelar como cidadania, poder e circulação continuam interligados. Em um mundo que se apresenta cada vez mais conectado, o documento funciona como um marcador de acesso desigual às fronteiras.
E essa diferença começa antes mesmo da primeira viagem: no país onde cada pessoa nasce.
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