Ensino de português é via para integração de imigrantes e refugiados

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O professor congolês Omana Ngandu, que fundou a ONG Mungazi para auxiliar na integração de refugiados no Brasil. Crédito: Stefanye Falco

A questão do idioma é um entrave, mas também uma ferramenta importante na identificação de um povo e de sua interação no novo país

Por Bruna Cristina
De São Paulo (SP)
Foto de Stefanye Falco

“A língua é a identificação de um povo (…) é o que faz uma integração, e se você não conhece a língua, é muito complicado para se identificar e saber sobre valores e cultura desse povo’”

Com essas palavras, o professor Omana Kasongo Ngandu Petench, vindo da República Democrática do Congo em 2013, lembra as dificuldades ao chegar no Brasil fugindo da violência no seu país, e sua motivação em ajudar aqueles que chegam nas mesmas condições necessitando de auxílio para recomeçar a vida. Em  2015, ele fundou a ONG Mungazi, que atua no apoio à integração ao refugiado em São Paulo.

Segundo os últimos dados disponíveis do Conare (Comitê Nacional de Refugiados), são 8.950 refugiados reconhecidos pelo governo brasileiro. Desse total, são 19,2% de mulheres e 80,8% de homens, advindos principalmente da Síria, Angola, Colômbia e República Democrática do Congo.

Ao chegar no Brasil, realizar todos os trâmites burocráticos para concessão da documentação é só uma das dificuldades que essas pessoas enfrentam- os problemas financeiros e a falta do idioma, são barreiras ainda maiores para a inclusão no país.

“‘Para o refugiado e imigrante que abandonou tudo, não tem nada porque esse refugiado fugiu para procurar outra vida, e o imigrante para procurar uma vida nova – para se fazer uma integração ele vai precisar da língua para comunicação e entrevista de emprego”, diz Omana.

Jacqueline Feitosa, coordenadora do Cursinho Popular Mafalda e uma das autoras do livro para ensino de português “Pode Entrar” lançado pelo Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR), cita a importância do ensino da língua portuguesa para essa integração citada por Omana. “É um dos principais pilares para a integração local do (a) imigrante e refugiado (a) que chega ao Brasil”.

Na publicação, o estudante pode aprender desde temas básicos como apresentação e conversação até informações sobre questões sociais brasileiras – clique aqui para baixar.

Capa da cartilha Pode Entrar, criada para o ensino de português para refugiados.
Crédito: Reprodução

A importância de aprender o idioma se reflete nas próprias necessidades cotidianas. Na medida que, para as pessoas que não falam a língua, utilizar os serviços essenciais de saúde e educação e conseguir emprego (mesmo aqueles com qualificação profissional) para reorganizarem a vida no Brasil se tornam tarefas árduas, esse é um dos principais obstáculos com que os refugiados (a) e imigrantes se deparam.

“Uma das principais dificuldades é o acesso aos serviços públicos, que nem sempre contam com um (a) profissional que saiba o idioma do (a) imigrante ou refugiado (a) e a inserção no mercado de trabalho”, explicou Jacqueline. Além disso, ela cita que esse acesso ao aprendizado do idioma pode ser ainda mais dificultado na cidade de São Paulo. “Por ser uma grande cidade, apesar de haver instituições oferecendo o curso, os (as) imigrantes e refugiados (as) nem sempre moram perto destas instituições, dependendo, em alguns casos, de recurso financeiro para o transporte”.

A difícil situação financeira que refugiados e imigrantes se encontram ao chegar no país muitas vezes impedem que estas frequentem instituições de ensino da língua – e consequentemente, dificulta para que consigam empregos e tenham uma renda.

O professor congolês Omana Ngandu, que fundou a ONG Mungazi para auxiliar na integração de refugiados no Brasil.
Crédito: Stefanye Falco

‘‘É muito difícil porque quando uma pessoa chega no Brasil tem muito problema, porque deveria ter documentos e esses documentos têm muitos processos para conseguir. E depois precisa ter aula, e essa aula pode ser gratuita, mas depende de onde vai ser essa aula. E o refugiado não tem nada, não tem dinheiro, e precisa de transporte para ir onde tem essa aula, precisa de dinheiro para o transporte, e ele não tem recurso para pagar? É muito complicado para acessar”, destaca Omana.

Iniciativa para inspirar e integrar

Em São Paulo, diversas ONGs principalmente localizadas no centro da cidade, oferecem cursos de português para refugiados e imigrantes. Por exemplo, no Cursinho Popular Mafalda, as aulas de português são ministradas aos sábados durante o período da manhã.

Apesar de homens frequentarem o curso em maior número, o crescimento da demanda de mulheres interessadas no aprendizado do português, fez com que surgisse uma turma para crianças. “Um dos fatores que dificultam a participação de algumas mulheres é a falta de um lugar para deixar seus/suas filhos/filhas para irem às aulas. Pensando nisso, criamos a turma para crianças onde fazemos um trabalho com elas enquanto as mães têm aula de português”, conta Jacqueline. Assim, as mulheres também frequentam as aulas sem se preocupar com um lugar para deixar os filhos.

Cursinho Popular Mafalda também tem cursos para imigrantes e refugiados.
Crédito: Divulgação

Na Mungazi, além do curso de português, um centro com iniciativas de aprendizados voltados para crianças imigrantes e refugiadas, é um dos sonhos e objetivos de Omana para realizar junto à ONG.

“Crianças refugiadas têm muita dificuldade quando estão em contato com algum amigo na escola, porque esse amigo pode ter um celular, e ele não tem, e vai e pedir para o pai dele. Mas o pai não tem nada, a criança não sabe que é filho de refugiado. Mas essa criança precisa aprender o que é diferente dele e da outra criança, para ajudar ele a aprender e saber que ele está em outro país. O centro cultural vai ajudar essa criança, podemos dar muitas coisas – atividades recreativas, teatro, pintura, violão, elas vão poder estudar e cantar. Vai dar à criança uma coisa, até que haja integração”.

A importância da atuação da ONG para ajudar refugiados (as) e imigrantes também se dá pela preservação da cultura africana por meio de cursos de história e gastronomia, e por meio de geração de empregos para essas pessoas.

“Aqui no Brasil é muito difícil aceitar diplomas de outro lugar, principalmente da África, não aceitam. Então o que podemos fazer é gerar oportunidades de empregos como dar aula de idioma, porque refugiados falam muitas línguas. Essa é uma ONG de trabalho, temos que colocar essas pessoas no trabalho. Mungazi são as palmeiras da África, e lá elas significam tudo, cultura, proteção, casa…” conta Omana.

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