Além dos brasileiros, comunidades migrantes representadas no Brasil tiveram motivos a mais para acompanhar a mais recente Copa do Mundo de futebol, disputada de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, México e Canadá. Isso porque seus países de origem conseguiram a classificação para o torneio – e em alguns casos, após longas décadas de espera, ajudando a reforçar os laços com a terra natal.
Um caso emblemático foi o da República Democrática do Congo, que disputou o Mundial apenas pela segunda vez – a primeira foi em 1974, quando o país ainda era chamado de Zaire. Os Leopardos – como a seleção nacional é apelidada – conseguiram a classificação para a Copa de forma dramática, por meio da repescagem intercontinental e superando a Jamaica, com um gol solitário no primeiro tempo da prorrogação.
Apesar dos problemas para chegar aos Estados Unidos, fruto da política migratória restrita e discriminatória do governo de Donald Trump, a seleção congolesa teve uma campanha no Mundial digna de orgulho: conseguiu marcar seu primeiro ponto em Copas ao empatar em 1 a 1 com Portugal e conquistou seu primeiro triunfo em Copas ao vencer o Uzbequistão por 3 a 1. Acabou eliminada na partida seguinte, depois de dar grande trabalho para a Inglaterra.
“Para a ativista congolesa Prudence Kalambay, ver o país disputando uma Copa do Mundo vai muito além do mérito esportivo. “É difícil de explicar. É mais do que futebol, entendes? É orgulho, identidade e união. É o nosso povo sendo representado, nossas histórias sendo levadas ao mundo. E sentir que mesmo com a dor das dificuldades, ainda temos motivo para sonhar”.
Quem também teve motivos especiais para acompanhar a Copa foi a comunidade haitiana. O país cuja população é acostumada a torcer pelo Brasil nos Mundiais voltou ao torneio depois de uma campanha histórica nas Eliminatórias da Concacaf – que congrega países da América do Norte, Central e Caribe, além de Guiana e Suriname. Foi apenas a segunda participação em Mundiais – a primeira ocorreu no já distante ano de 1974, tal qual os congoleses.
Sentimentos mistos
A Turquia, por sua vez, encerrou um jejum de 24 anos longe das Copas. A última participação (2002), inclusive, rendeu um histórico terceiro lugar e dois embates (derrotas por 2 a 1 e 1 a 0) com a seleção brasileira, que viria a conquistar o pentacampeonato mundial naquela edição.
Com uma seleção considerada a melhor dos últimos anos, a campanha turca foi considerada uma decepção do ponto de vista esportivo, pois acabou eliminada ainda na primeira fase, com derrotas para Austrália e Paraguai. Terminou a participação no torneio, no entanto, com uma vitória sobre os Estados Unidos por 3 a 2.
“Ver a bandeira turca novamente entre as seleções do Mundial me enche de orgulho. É como reencontrar uma parte da minha própria história. Quando o hino toca, mesmo estando a milhares de quilômetros da minha terra natal, eu me sinto de volta às ruas da Turquia, cercado pela minha família, pelos amigos e por toda a paixão que o povo turco tem pelo futebol. Nós carregamos a Turquia conosco onde quer que estejamos”, comentou o chef de cozinha Ridvan Kiyak, que vive no Brasil desde 2009.
Algumas comunidades migrantes bem significativas no Brasil, no entanto, ficaram sem ver seu país chegar ao Mundial. É o caso da boliviana, que acabou derrotada pelo Iraque por 2 a 1 na repescagem intercontinental e perdeu a chance de voltar a um Mundial – a última vez foi em 1994. A seleção asiática, por sua vez, garantiu seu retorno às Copas após 40 anos, mas ficou ainda pela primeira fase – foram três derrotas, em um grupo que contava ainda com França, Noruega e Senegal.
O comunicador boliviano Antonio Andrade, editor e fundador do portal Bolívia Cultural, não escondeu a tristeza pelo sonho frustrado de ver o país novamente em uma Copa do Mundo. No entanto, isso não o impediu de fazer uma homenagem à seleção que chegou tão perto dessa realização.
“Eles entraram em campo com 11 camisas. Mas jogaram com a força de 13 milhões de bolivianos e bolivianas espalhados pelo mundo”, declarou ele ao MigraMundo, após a partida eliminatória.
A Coreia do Sul, por sua vez, é um país acostumado a disputar Copas do Mundo, com 12 participações. Estreou em 1954 e vem se classificando consecutivamente para todos os Mundiais desde 1986. Quando teve a oportunidade de ser uma das sedes, em 2002, fez bonito em campo e alcançou um histórico quarto lugar. Na edição mais recente, contudo, ficou pela primeira fase.
Mesmo não tendo nascido em solo coreano, a jornalista Rocio Paik herdou a nacionalidade e a cultura coreana de seus pais e faz questão de mantê-las vivas – e a Copa é uma forma de expressar esse sentimento.
“Eu sou uma imigrante que também é filha de imigrantes, né? Os meus pais são ambos sul-coreanos, mas eles se conheceram no Paraguai, onde eu nasci. Depois moramos no Chile e aqui no Brasil [onde estão estabelecidos até hoje]. Ainda que eu não tenha nascido lá, nossa cultura é muito sul-coreana.Mesmo não sendo a minha terra natal, a Coreia do Sul permanece muito forte dentro de mim”, expressou.
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