Em 2025, o Brasil e o Japão comemoraram 130 anos do estabelecimento de suas relações diplomáticas, um marco que reflete uma trajetória rica e multifacetada — envolvendo diplomacia, economia, migração, cultura e intercâmbio humano.
O ano contou com diversas iniciativas comemorativas e reforço de interações nos mais diversos setores.
“O Japão e o Brasil são atualmente parceiros estratégicos globais, compartilhando valores e princípios fundamentais como a democracia e o estado de direito”, afirmou o embaixador Teiji Hayashi em mensagem publicada no site da Embaixada do Japão no Brasil, em janeiro deste ano. Na ocasião, foi lançado o logotipo oficial das comemorações desse marco.
Atualmente o Brasil abriga a maior comunidade japonesa fora do Japão, conhecida como nikkei, com aproximadamente 2,7 milhões de japoneses e descendentes. Ao longo das décadas, eles contribuíram ativamente para a sociedade brasileira em áreas como agricultura, tecnologia, educação, comércio, meio ambiente, ciência e intercâmbio cultural.
Dos primeiros passos ao status atual
O Tratado de Amizade, Comércio e Navegação, assinado em 5 de novembro de 1895, estabeleceu oficialmente as relações diplomáticas entre Brasil e Japão, dando início a uma relação que, com o passar do tempo, se tornou uma das mais sólidas entre um país sul-americano e uma nação asiática, abrindo portas para laços comerciais e trocas culturais que moldaram identidades.
Foi a partir desse Tratado que abriu-se o caminho para credenciar representações diplomáticas recíprocas (embora as embaixadas só tenham sido formalizadas alguns anos depois) e para o início do fluxo migratório japonês para o Brasil, que se efetivou em 1908 com a chegada do navio Kasato Maru no porto de Santos (SP), trazendo os primeiros 781 imigrantes japoneses, que trabalharam principalmente em lavouras de café, buscando melhores condições de vida para retornar ao Japão com recursos. Entretanto, muitos permaneceram no Brasil e fincaram suas raízes aqui.
As décadas de 1950 a 1990 foram marcadas por retomadas após a Segunda Guerra Mundial, cooperação técnica, investimentos japoneses no Brasil e um forte intercâmbio interpessoal.
Em 2014, a relação diplomática Brasil-Japão foi elevada ao status de Parceria Estratégica Global, após a participação do então primeiro-ministro Shinzo Abe na reunião de cúpula com a ex-presidente Dilma Rousseff, reconhecendo o caráter estratégico e abrangente dos vínculos entre ambos os países.
Nesse mesmo ano, o Brasil também recebeu a visita da Princesa Takamado, que assistiu ao jogo de futebol da seleção japonesa durante a Copa do Mundo, no Rio de Janeiro, e houve a assinatura do Tratado Sobre Transferência de Pessoas Condenadas entre Japão e Brasil, que entrou em vigor em 2016.
No campo econômico, recentemente, foi realizado o Japan-Brazil Economic Forum, com participação de representantes do governo, empresas e instituições financeiras do Japão e do Brasil, celebrando os 130 anos de relações diplomáticas e trazendo à mesa discussões sobre a cocriação de indústrias. Além disso, representantes dos setores público e privado anunciaram 84 memorandos de entendimento (MOUs), enfatizando seu compromisso com o aprimoramento da colaboração no futuro.
Desde setembro de 2023 está em vigor a isenção de vistos de turismo para brasileiros e japoneses em viagens de até 90 dias entre os dois países. A medida foi fruto de um acordo feito em no mês anterior com base no princípio de reciprocidade.
Celebrações e simbolismos
Neste ano, o governo brasileiro lançou o Ano do Intercâmbio e da Amizade Brasil-Japão, que incluiu eventos em ambos os países, promovendo cultura, turismo, esporte, educação e cooperação bilateral.
O ponto culminante das celebrações foi a visita de Estado ao Japão, realizada em março pelo presidente Lula, representando uma oportunidade para revitalizar a Parceria Estratégica e Global, firmada em 2014. Durante a visita, os líderes dos dois países revisaram os principais temas da agenda bilateral e conferiram novo impulso às suas relações.
Na ocasião, foi adotado o Plano de Ação da Parceria Estratégica e Global, que contempla, entre outras iniciativas, a criação da Parceria para a Paz e o Fortalecimento do Multilateralismo, o reforço do Diálogo de Chanceleres, agora elevado à categoria de Diálogo Estratégico, e a realização de reuniões bienais entre os Chefes de Governo.
Ao todo, foram assinados 10 acordos bilaterais entre Brasil e Japão, além de mais de 70 entendimentos entre entidades subnacionais, universidades, institutos de pesquisa e empresas de ambos os países.
Em junho, a princesa Kako, membro da família imperial japonesa, realizou uma visita oficial ao Brasil como parte das celebrações, visitando diversas cidades como São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Maringá (PR), Rolândia (PR), entre outras, realizando encontros com membros da comunidade nikkei e comparecendo a eventos culturais.
Ao longo do ano também foram realizados eventos culturais, como o Festival do Budo (artes marciais japonesas), promovido pela Unicamp e apoiado pelo Consulado Geral do Japão, Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (Proeec) e Diretoria de Esportes do Proeec, incluindo competições e demonstrações de judô, karatê, aikidô e kendô.
Justiça histórica
A relação de 130 anos entre Brasil e Japão também teve seus momentos de baixa. Em 1942, os laços diplomáticos foram rompidos por ocasião da entrada brasileira na Segunda Guerra Mundial em apoio aos Aliados – que guerreavam contra os países alinhados à Alemanha nazista, o que incluía o Japão. A retomada ocorreria somente dez anos mais tarde, em 1952.
Nessa época, a população japonesa no Brasil foi alvo de preconceito e perseguição, aprofundando um quadro que já era notado no país diante da política nacionalista do governo do presidente Getúlio Vargas, que vinha proibindo o uso de idiomas e de outras manifestações culturais de imigrantes em solo brasileiro.
Em 1943, o governo Vargas decidiu expropriar e evacuar toda a população de origem japonesa do município de Santos (SP), considerado zona de guerra. Com isso, cerca de 1,5 mil homens, mulheres e crianças residentes no município foram forçados a se transferir para campos de concentração no interior paulista.
Em reação a essa repressão e inconformada com a rendição japonesa ao final da Segunda Guerra Mundial, surgiu uma organização intitulada Shindo Renmei, que caçava os imigrantes nipônicos que aceitassem a derrota no conflito. Ela teria sido responsável pela morte de pelo menos 24 “derrotistas” entre 1946 e 1947 – uma história que é contada em produções cinematográficas e livros, como a obra “Corações Sujos”, de Fernando Morais. Diante desse cenário, o governo brasileiro intensificou a caça aos japoneses e prendeu 172 imigrantes na Ilha Anchieta, a maioria inocente.
Somente em julho de 2024 o Brasil reconheceu oficialmente as violações cometidas contra a comunidade japonesa, por meio da Comissão da Anistia, órgão vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania.
“Quero pedir desculpas em nome do Estado Brasileiro pela perseguição que os antepassados dos senhores e das senhoras sofreram, por todas as atrocidades e crueldades, o preconceito, a xenofobia, o racismo. Que essas histórias sejam contadas para que isso nunca mais se repita”, declarou Enéa de Stutz e Almeida, então presidente do colegiado, durante sessão solene que marcou a retratação do Brasil.
A admissão da perseguição e/ou conivência estatal foi uma resposta ao pedido de reparação coletiva apresentado em 2015 pelo produtor audiovisual Mário Jun Okuhara e pela Associação Okinawa Kenjin do Brasil em nome de toda a comunidade nipônica. Em 2021, com outra composição, a comissão havia negado um pedido semelhante.
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