publicidade
quinta-feira, maio 7, 2026

A aposta da Costa do Marfim e de outras seleções africanas nos “filhos da diáspora” para a Copa do Mundo

No futebol africano, vêm sendo cada vez mais comuns seleções nacionais mapearem potenciais talentos espalhados pela Europa e os convidarem para defender a pátria de seus antepassados

Por Guilherme Freitas

Na última Data FIFA, entre os dias 23 e 31 de março, a seleção de futebol da Costa do Marfim disputou e venceu dois amistosos realizados na Inglaterra. Golearam a Coreia do Sul por 4 a 0 e depois bateram a Escócia por 1 a 0. A equipe, que já está classificada para a Copa do Mundo, vem tendo bons resultados nos últimos anos com destaque para o título da Copa Africana de Nações em 2024. O elenco, que conta com diversos atletas de equipes tradicionais do futebol europeu, poderá ter um “upgrade” com vistas para o Mundial.

Essa melhoria técnica atende pelos seguintes nomes: Ange-Yoan Bonny, Elye Wahi e Martial Godo. Os três foram convocados pelo técnico Emerse Faé para a seleção principal e têm duas características bem semelhantes: nasceram na Europa e atuam por clubes do continente. Bonny nasceu em Aubervilliers, na França, e atualmente defende a Inter de Milão. Wahi é natural de Courcouronnes, também na França, e é atleta do Nice. Já Godo tem a cidade de inglesa de Greenwich como local de nascimento e é atacante do Strasbourg.

O trio, assim como outros veteranos da seleção nacional como o ídolo Sébastien Haller, por exemplo, são descendentes de migrantes oriundos da Costa do Marfim. São os chamados “filhos da diáspora”. Esses atletas fazem parte de um contingente incalculável de seres humanos que são descendentes de migrantes, estes, que foram para o continente europeu através de múltiplas ondas migratórias a partir do século 20.

A Costa do Marfim não é a única seleção do mundo a adotar esta estratégia de “repatriação”. No futebol africano vêm sendo cada vez mais comuns seleções nacionais mapearem potenciais talentos espalhados pela Europa e os convidarem para defender a pátria de seus antepassados. A ótima geração marroquina, que chegou às semifinais da última Copa do Mundo, adotou essa tática e conta com um plantel recheado de jogadores nascidos em solo europeu. Mesmo investindo muito dinheiro em novos estádios e modernos centros de treinamento, em vista da realização do Mundial de 2030 no país em conjunto com Portugal e Espanha, os marroquinos seguem observando potenciais craques que se encaixam neste perfil.

Essa mesma estratégia também é muitas vezes apoiada pelo próprio Estado, mostrando como o futebol pode ser uma importante ferramenta de orgulho nacional. O governo de Gana, por exemplo, criou em 2019 uma campanha chamada “Ano do Retorno” que tinha como objetivo convidar membros da diáspora africana, especialmente das Américas, a visitar, investir e viver em território ganense. Inspirada nessa ação governamental, a Federação Ganesa de Futebol criou um programa de mapeamento de talentos no futebol europeu e obteve sucesso ao “repatriar” atletas de expressão, sendo o caso mais famoso o do atacante Iñaki Williams, nascido na Espanha e ídolo do Athletic de Bilbao.

Todos estes jogadores atenderam ao convite de federações de futebol por variados motivos. Em alguns casos há o interesse em realizar o sonho de jogar uma Copa do Mundo, mas em outros há o genuíno interesse de representar um país onde exista um vínculo afetivo. Trata-se de uma questão identitária que colide, inclusive, com aspectos sociais, já que muitas comunidades migrantes são marginalizadas e desprezadas pelos governos e sociedades da Europa. Trata-se de um caldeirão de complexidade e algo impossível de ser explicado em um simples texto como este.

A Copa do Mundo, que começa dia 11 de junho, será um grande caso para podermos aprofundar e compreender ainda mais esta discussão. Se nos últimos anos existiram muitas análises e discussões sobre o multiculturalismo nas seleções europeias com seus atletas descendentes de migrantes, agora parte desses jogadores faz o caminho de “volta para a casa”, reforçando as seleções de seus antepassados e mostrando como o futebol, identidade e fluxos migratórios não só dialogam entre si, como também são complexos e totalmente dinâmicos.

Sobre o autor

Guilherme Freitas é doutor em Mudança Social e Participação Política pela Universidade de São Paulo e pesquisador sobre fluxos migratórios e sociologia do esporte

Publicidade

Últimas Noticías