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terça-feira, março 10, 2026

A conquista de Lucas Pinheiro Braathen, migrações e o multiculturalismo no esporte

Responsável pela 1ª medalha do Brasil em Jogos Olímpicos de Inverno, Lucas Pinheiro Braathen é um exemplo de atleta cada vez mais comum: o multicultural

Por Guilherme Freitas

Após uma longa espera, finalmente o esporte olímpico brasileiro conquistou seu primeiro pódio em Jogos Olímpicos de Inverno. E essa façanha coube a Lucas Pinheiro Braathen, medalha de ouro na prova do slalom gigante do esqui alpino. Não sou um especialista em esportes de gelo, honestamente, meu conhecimento é nulo. Por isso, não pretendo falar da prova ou da competição que ocorre em Milão e Cortina. Quero falar sobre Lucas e esse fator da multiculturalidade do esporte.

Nascido em Oslo, capital da Noruega, filho de pai norueguês e mãe brasileira, Lucas cresceu entre o Brasil e a Noruega devido ao divórcio dos pais ainda quando ele era muito pequeno. O atleta começou a esquiar incentivado pelo pai, um apaixonado por modalidades de gelo. Lucas contou em entrevistas que teve uma infância complicada devido ao fato de representar e vivenciar duas culturas distintas, dizendo que “era difícil achar meu espaço nas comunidades”. Simultaneamente, ele se sentia brasileiro e norueguês.

O fato de viver alguns anos no Brasil com a mãe lhe fez aflorar o sentimento de brasilidade. Algo que ele sempre demonstrou carregar consigo, mesmo quando ainda representava a Noruega em competições internacionais. Em 2023 ele teve algumas rusgas com a federação norueguesa e optou em seguida por representar o Brasil. Fluente em português e sempre mantendo contato com a família e amigos por aqui, não foi difícil se adaptar. E para nossa sorte, a escolha em representar o Brasil deu ao país a primeira medalha olímpica em Jogos de Inverno.

Lucas é um exemplo de atleta cada vez mais comum atualmente. O esportista que costumo chamar de multicultural, aquele atleta que carrega consigo duas ou até mais diferentes culturas. Este sujeito, muitas vezes, pode acabar sendo um elo de ligação entre estes mundos tão distintos. Esse atleta carrega consigo uma identidade única, híbrida, como vai dizer Stuart Hall, ou líquida, como diria Zygmunt Bauman. Estudei este tema no meu mestrado através das seleções de futebol da Europa, um caso bem mais famoso e conhecido popularmente. Porém, este tipo de atleta não se resume somente ao futebol.

Cada vez mais estamos assistindo uma ascensão de atletas com este perfil multitcultural. E os motivos são variados. Pode ser um sujeito que tenha seus pais nascidos em diferentes locais, pode ser um indivíduo que seja um representante de terceira ou até quarta geração de migrantes, pode ser um atleta que encontrou refúgio em um novo país, pode ser alguém que tenha um cônjuge de outro Estado, pode ser uma pessoa que carrega os efeitos do colonialismo. Enfim, uma diversidade de casos. Porém, todos eles nos trazem trajetórias pessoais que se relacionam com a sociedade.

Atualmente está cada vez mais comum assistirmos aos grandes eventos internacionais, como os Jogos Olímpicos, e notar um perfil de bastante diversidade nas delegações. São atletas com diferentes origens étnicas, culturais, linguísticas e religiosas competindo sob a mesma bandeira e representando o mesmo país, que muitas vezes pode ser hostil com este tipo de sujeito. Afinal, o extremismo não perdoará um medalhista pela sua conquista caso ele não seja visto como um semelhante. Porém, dentro da esfera esportiva este tipo de sujeito está crescendo.

Na última edição olímpica de Verão, em Paris, a seleção anfitriã foi um exemplo desse multiculturalismo. Os atletas franceses, que em sua grande maioria nasceram dentro das fronteiras do país, mostravam uma ampla diversidade. Ao todo 167 dos 573 atletas da delegação foram medalhistas na competição e deste total, 94 contavam com algum tipo de multiculturalidade: nascidos na França, em algum território ultramarino ou naturalizados. A equipe de judô, que foi a melhor do torneio, tinha todos os seus integrantes com algum tipo de origem estrangeira.

No esporte brasileiro, Lucas não é o primeiro medalhista olímpico com esse perfil. O feito pertence a Antonio Sucar, nascido na Argentina e naturalizado brasileiro, que foi medalhista olímpico em Roma-1960 com a seleção de basquete. Entre Sucar e Lucas, tivemos vários outros atletas com esta característica representando o Brasil em Jogos Olímpicos. Alguns foram medalhistas, como Lars Björkstrom, campeão olímpico na vela; outros não chegaram ao pódio olímpico, mas tornaram-se grandes ídolos, como o tenista Fernando Meligeni.

William Douglas, pesquisador e um grande colega que fiz neste universo acadêmico, tem um trabalho espetacular sobre isso. Sua tese “Brasileiros, por que não? Trajetória e identidade dos migrantes internacionais no esporte olímpico do Brasil”, defendida em 2020 na Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo, e que depois virou livro pela Editora Laços, traz um pouco dessa história que envolve migração, identidade e esporte. Através de entrevistas com alguns destes atletas olímpicos brasileiros, William aborda essa questão e nos apresenta o ponto de vista destes sujeitos, mostrando toda a complexidade que envolve identidade e nacionalidade.

Lucas entrou para a história do esporte olímpico do Brasil e outros atletas com perfil semelhante esperam uma oportunidade para fazer o mesmo. Nessas horas não existe esse papo de “ser menos brasileiro” ou “brasileiro por conveniência”. Lucas escolheu o Brasil porque se sente brasileiro. Sente que representa o país e que o Brasil o representa. E alguém ainda vai duvidar deste sentimento após ele celebrar o ouro olímpico sambando na neve em pleno sábado de Carnaval?

Este novo perfil de atleta, no qual Lucas se encaixa, pode ainda nos fazer repensar muitas coisas. Além de nos ajudar a compreender a complexidade referente ao quesito nacionalidade, pode nos auxiliar a combater a intolerância e o preconceito contra outras culturas, países e sociedades. Afinal, Estado-nação é uma discussão recente na história da humanidade e não é um número de passaporte que definirá a identidade nacional de alguém.

Sobre o autor

Guilherme Freitas é doutor em Mudança Social e Participação Política pela Universidade de São Paulo e pesquisador sobre fluxos migratórios e sociologia do esporte

Conteúdo publicado originalmente no Medium pessoal de Guilherme Freitas


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