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sexta-feira, janeiro 23, 2026

ACNUR e OIM querem levantar cerca de US$ 13 bilhões para custear atividades em 2026

Agências da ONU que lidam com migrações e refúgio enfrentam problemas financeiros, que afetam direta e indiretamente projetos mantidos em todo o mundo - incluindo o Brasil

As duas principais entidades das Nações Unidas ligadas à temática migratória – o ACNUR (Agência da ONU para Refugiados) e a OIM (Agência da ONU para as Migrações) – lançaram neste mês de dezembro apelos globais por recursos para financiamento de suas atividades em 2026. Ambas tentam levantar um montante de US$ 13,2 bilhões, diante de um quadro cada vez mais desafiador para essa captação.

Ao todo, o ACNUR fez um pedido de US$ 8,5 bilhões para 2026 – um orçamento 20% menor do que o previsto para este ano, com o qual a agência vem lidando a duras penas – destinado ao apoio a 136 milhões de pessoas forçadas a fugir, apátridas e retornadas em todo o mundo. A OIM, por sua vez, solicitou US$ 4,7 bilhões para prestar apoio a cerca de 41 milhões de pessoas em situação de deslocamento e reforçar sistemas que promovam uma migração ordenada, regular e segura.

Ambas as agências detalharam os apelos por meio de relatórios especiais, onde também apresentam como pretendem empregar os recursos arrecadados.

Clique aqui para acessar o documento do ACNUR
Clique aqui para acessar o documento da OIM

Apelos à comunidade internacional

“Precisamos urgentemente de financiamento previsível e flexível para preservar os ganhos duramente conquistados em áreas como educação, proteção infantil e esforços de prevenção e resposta à violência sexual”, declarou o Alto Comissário da ONU para Refugiados, Filippo Grandi, também em comunicado oficial. “Muitos refugiados desejam voltar para casa — e este ano cerca de 2 milhões retornaram, o maior número em uma década. Com apoio firme dos doadores, podemos tornar esses retornos mais seguros e sustentáveis e garantir que os países que os acolhem não fiquem sozinhos com o peso da responsabilidade.”

Segundo o próprio ACNUR, cerca de 4.000 postos de trabalho e vários escritórios de campo fechados ao longo deste ano. A OIM também teve de lançar mão da dispensa de 20% funcionários de sua sede, em Genebra, além da realocação de profissionais e operações locais por conta do orçamento 30% menor para 2025.

“Todos os dias, pessoas deixam seus lares em busca de estabilidade ou de melhores oportunidades”, afirmou a Diretora-Geral da OIM, Amy Pope, em comunicado à imprensa. “Com este apelo, estamos construindo uma visão coletiva — uma em que o apoio humanitário chega às pessoas antes que as crises se agravem, em que rotas mais seguras substituem trajetos perigosos e em que as comunidades são fortalecidas, não pressionadas. Esses investimentos vão além de responder aos desafios de hoje; eles ajudam a moldar um futuro mais estável, humano e esperançoso para todos nós.”

Em outro apelo recente, OIM e ACNUR solicitaram um montante de US$ 763 milhões para apoio específico aos migrantes venezuelanos na América Latina. O pedido se deu no âmbito da R4V, plataforma conjunta das duas agências da ONU que acompanha especificamente essa resposta humanitária. O R4V contempla 152 organizações locais em 17 países da América do Sul, Central e Caribe – entre eles o Brasil e entidades parceiras das agências da ONU.

Cenário adverso no mundo e no Brasil

A redução global de recursos para ajuda humanitária, que já vinha se acentuando ao longo dos últimos anos, foi agravada em 2025 pela decisão do governo dos Estados Unidos ainda em janeiro de desmantelar a USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional). Além disso, a invasão russa na Ucrânia e o medo de que outros países sejam afetados levaram governantes europeus a redirecionar o dinheiro que antes ia para assistências humanitárias para reforçar o orçamento destinado às políticas de defesa nacional.

Dependentes de parcerias tanto com a USAID quanto das próprias agências da ONU e de países do Norte Global, organizações que lidam com a temática migratória em âmbito local têm sofrido para manter suas operações. No Brasil a situação não é diferente e ameaça a continuidade de projetos e entidades já consagrados na atuação em prol de migrantes, incluindo aqueles que se encaixam como refugiados.

Um caso dramático é o da Caritas Arquidiocesana do Rio de Janeiro, que corre sério risco de fechar as portas em 2026, conforme mostrou reportagem do canal GloboNews no último sábado (6), repercutida por outros veículos.

“Nunca vivemos nada parecido na história da Cáritas”, disse à GloboNews a coordenadora do Programa de Atendimento a Refugiados da Cáritas-RJ, Aline Thuller. Ela própria relatou que está sem receber salário diante da crise financeira vivenciada pela instituição, que possui quase 50 anos de atuação.

“Esses programas envolvem assistência na preparação e colocação profissional, iniciativas de empreendedorismo, treinamento vocacional e aulas de português. Apenas nessa frente, mais de 17 mil pessoas refugiadas estão deixando de ser atendidas diretamente ou por parceiros em todo o Brasil, impactando a autossuficiência dessa população”, ressaltou o representante do ACNUR no Brasil, Davide Torzilli, no comunicado distribuído pelo ACNUR.

Tanto o ACNUR quanto a OIM cumprem funções decisivas na Operação Acolhida, resposta do governo brasileiro ao fluxo humanitário venezuelano em Roraima. No final de janeiro, a OIM chegou a suspender a atuação nesse projeto, em razão dos cortes de recursos da USAID. O fato levou o governo brasileiro a arcar temporariamente com as atividades que eram desempenhadas pela OIM no Estado, retomadas semanas depois.


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