Os milhares de manifestantes que participaram de um protesto anti-migração em Londres, no último sábado (16), receberam uma surpresa. No meio do ato, um telão exibiu um vídeo que começava com a mensagem “Immigration makes Britain brilliant” (“A imigração torna a Grã-Bretanha brilhante”, em tradução livre), seguida de imagens de diferentes personalidades britânicas com raízes migrantes.
A iniciativa foi do “Led by Donkeys” (Liderados por Burros, em tradução literal), um famoso grupo britânico de ativismo político conhecido por seus protestos visuais, outdoors gigantes e projeções. Eles surgiram em 2018 para se manifestar contra o Brexit – processo de saída do Reino Unido da União Europeia, iniciado em 2016 e concluído somente anos depois. Depois, passou a utilizar montagens e projeções em locais históricos para expor incoerências e hipocrisia de políticos e outras figuras públicas, como membros da realeza britânica, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o empresário Elon Musk.
No sábado, o alvo foi a manifestação organizada pelo ativista de ultradireita Stephen Yaxley-Lennon, mais conhecido como Tommy Robinson, cujo lema era Unite the Kingdom (Unir o Reino, em tradução livre). Ele é conhecido pelas posições anti-imigração e declarações islamofóbicas e classificou a marcha como “a maior expressão patriótica que o mundo já viu”.
Ação e reação
A intervenção ousada começou quando um veículo com o telão foi levado para a manifestação. Depois de um tempo exibindo apenas uma imagem da bandeira britânica com o lema da manifestação, começa um vídeo que exibe aos poucos a frase “Immigration makes Britain brilliant”, causando revolta e vaias junto aos manifestantes.
“Nós infiltramos uma tela gigante na marcha de Tommy Robinson”, disse o Led by Donkeys ao anunciar o vídeo nas redes sociais
Após a frase, o vídeo traz imagens de diferentes personalidades com raízes migrantes, como o atleta medalhista olímpico Mo Farah (nascido na Somália), a cantora Dua Lipa (filha de pais kosovares albaneses) e o ator Idris Elba (nascido em Londres, de pai de Serra Leoa e mãe de Gana), além da própria seleção inglesa de futebol e torcedores com feições não europeias em estádios.
Ao final, o vídeo exibe a mensagem “Se você voltar no tempo o suficiente, todos nós somos imigrantes” e termina com um irônico “Mantenha-se hidratado”, conselho comum a participantes de manifestações.
Em reação, alguns deles começaram a vaiar o vídeo. Um deles tentou desligar o telão à força, sem sucesso. Nas redes, são mais de 3 mil comentários no X – em sua maior parte, usuários repetindo fake news sobre migração disseminadas pelos manifestantes, mas também é possível encontrar postagens parabenizando a intervenção.
Não se sabe por quanto tempo a mensagem pró-migração foi exibida aos manifestantes anti-migração antes de ser finalmente desligada.
Robinson se manifestou horas depois do ato sobre o vídeo, chamando o Led by Donkeys de “esquerdista” e dizendo que “não fizeram nada além de se expor como defensores do establishment”.
A migração líquida anual no Reino Unido se aproximou de 900 mil em 2022 e 2023, mas caiu para cerca de 200 mil no ano passado após regras mais rígidas de visto de trabalho.
Tensão
Segundo a Polícia Metropolitana de Londres, cerca de 60 mil pessoas participaram desse ato, que começou na avenida Kingsway e foi caminhando até chegar perto do Parlamento britânico. A grande maioria dos manifestantes carregava as bandeiras do Reino Unido (Union Jack) e da Inglaterra (a Cruz de São Jorge), além de cruzes de madeira. Também foram ouvidos gritos contra o premiê, Keir Starmer, e críticas à política migratória do atual governo.
No mesmo dia, Londres também foi palco de um grande protesto pró-Palestina, o que levou a Prefeitura local a mobilizar forças policiais com o intuito de evitar maiores confrontos entre os dois grupos de manifestantes. Mais de 4 mil agentes atuaram em campo e criaram uma zona tampão. Ainda de acordo com a polícia local, 43 pessoas foram presas durante os atos.
Na sexta-feira, o primeiro-ministro Keir Starmer acusou os organizadores da passeata Unite the Kingdom de “propagar o ódio e a divisão, pura e simplesmente”. O governo proibiu a entrada no Reino Unido de 11 pessoas que descreveu como “agitadores estrangeiros de extrema direita” para participar do protesto – entre eles estavam políticos, influenciadores e comentaristas identificados com a ultradireita.
Com informações de Reuters, The Independent, Metro.uk e Al Jazeera
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