Por Darío Alejandro Escobar
Cuba está mergulhada há 35 anos em crise econômica. Depois da queda do Campo Socialista no início dos anos noventa, a economia cubana não teve muita sustentação além de alguns períodos de leve estabilidade. As causas são diversas, mas entre a guerra econômica instaurada pelo governo dos Estados Unidos há mais de 60 anos e o dogmatismo e os erros internos do governo cubano, os resultados são os que temos hoje: um país em ruínas.
A situação começou a piorar após a surpreendente vitória de Donald Trump em 2016. O mandatário republicano retirou praticamente todos os avanços nas relações políticas que haviam sido alcançados entre a administração Obama e o governo de Raúl Castro e endureceu a política de cerco às transações e às possibilidades de comércio do Estado cubano no exterior.
Depois veio a pandemia. Se para o mundo inteiro foi um divisor de águas, para Cuba foi uma prova de fogo. O governo adotou medidas econômicas tardias, mal desenhadas e pior implementadas e acabou enterrando ainda mais a economia em um poço que parece não ter fundo. Provavelmente, o mais resgatável tenha sido a autorização, a contragosto, das empresas privadas em setembro de 2021. Poucos meses antes ocorreram protestos populares sem precedentes no período posterior ao triunfo da Revolução em 1959.
As dificuldades para a família cubana foram tantas que, assim que as vias para emigrar se abriram após as restrições da covid-19, um grande contingente de cubanos começou a sair para diferentes destinos: Estados Unidos, Espanha, Nicarágua, México, Guiana, Uruguai, Brasil e outros.
O demógrafo cubano Juan Carlos Albizu-Campos estima que, desde 2021 até a publicação deste texto, Cuba perdeu cerca de 1,7 milhão de pessoas, de uma população total de quase 11 milhões, ou seja, 15% do total. Segundo ele e outros especialistas, trata-se da maior crise migratória da história da Ilha até o momento.
Brasil como destino
O destino ideal dos cubanos sempre foi os Estados Unidos. É a maior economia do mundo, possui uma grande comunidade cubana, está territorialmente próxima e contou com leis específicas que impulsionaram essa emigração. No segundo mandato de Donald Trump na Casa Branca, os ventos mudaram e os privilégios concedidos à emigração cubana foram retirados ou colocados em pausa. O fluxo de nacionais da Ilha para esse país diminuiu e o caudal migratório passou a se dirigir a países como Espanha, México, Brasil e Uruguai.
O destino mais surpreendente para muitos estudiosos e para a imprensa nacional e internacional é o Brasil. O gigante sul-americano não tem vínculos migratórios históricos fortes com Cuba. O mais próximo foi a chegada de milhares de médicos cubanos no início da década passada, mas pouco além disso. Tampouco compartilham o idioma e, embora os governos do Partido dos Trabalhadores (PT) sejam próximos ao governo de Cuba, isso não significa que esses vínculos tenham se traduzido em apoio direto à migração.
Os números de chegada de cubanos nos últimos cinco a sete anos dispararam de forma exponencial. Se em 2018 foram solicitados quase 2.800 pedidos de refúgio, ao final de 2025 esse número já alcançava quase 42.000 solicitações, segundo informações obtidas pelo Jornal Nacional. Isso ocorre porque o Brasil, apesar da diferença de idioma, é um país mais barato, com mais oportunidades de emprego e com um marco regulatório que permite aos imigrantes trabalhar sem perseguição ou discriminação. A alternativa é o Uruguai, mas, embora se fale espanhol, é um país mais caro, mais distante e com uma estrutura econômica menor.
Somando os pedidos de refúgio de cubanos que chegaram ao Brasil entre 2018 e 2025, alcança várias dezenas de milhares de solicitações. Considerando que alguns podem ter migrado para outros países, falecido ou adquirido outro status, e somando os que já estavam no país antes dessa data, é possível afirmar que há mais de 80.000 cubanos vivendo no Brasil. Se esse número estiver correto, o país já abriga a quarta maior comunidade cubana no exterior, depois dos Estados Unidos, Espanha e Guiana.
As vias de chegada são diversas. Alguns chegam por contrato de trabalho, oportunidades de estudo ou reunificação familiar, mas a maioria cruza a fronteira terrestre por Roraima, vindo da Guiana ou da Venezuela, ou pelo Amapá, vindo do Suriname. Dezenas de milhares atravessam as selvas desses países para chegar ao Brasil, pedir refúgio e se estabelecer em território brasileiro. Minha esposa e eu somos dois desses milhares.
Segundo fontes consultadas, os estados com maior presença de cubanos são Paraná, Santa Catarina e São Paulo. Ali encontraram trabalho e segurança suficientes para recomendar a familiares e amigos que também se estabeleçam nessas regiões. Ainda assim, há grupos espalhados por todo o país, embora a maioria esteja no Sul.
Entre as cidades do Sul que mais recebem cubanos, Curitiba parece concentrar o maior número. É uma cidade bem planejada urbanisticamente, conservadora em costumes, com forte herança migratória de várias nacionalidades, clima frio ou temperado e base industrial sólida. É provável que Curitiba e arredores tenham uma comunidade próxima de 10 mil cubanos. No restante do Paraná o número deve ser ainda maior, com presença em cidades como Foz do Iguaçu, Cascavel, Toledo e outras.
Fenômeno semelhante ocorreu em Florianópolis, onde muitos chegaram à capital e depois migraram para cidades vizinhas com custo de vida mais acessível.
É importante destacar que muitos cubanos vendem tudo o que têm em Cuba — casas, carros, negócios — para custear a travessia e o processo de instalação no Brasil. A maioria foge da escassez severa, da falta de oportunidades, dos cortes de energia de mais de 20 horas por dia e, em alguns casos, da repressão governamental.
Perspectiva do fenômeno migratório
Em 11 de fevereiro de 2026, o governo da Nicarágua anunciou o fechamento da entrada sem visto para cidadãos cubanos. Essa via permaneceu aberta por quatro anos e foi utilizada por milhões de cubanos rumo aos Estados Unidos. Muitos chegaram ao destino, outros permaneceram no México ou em países da América Central.
O fechamento dessa rota indica que a alternativa mais viável para quem ainda dispõe de recursos e não deseja enfrentar longos trâmites pode ser o Brasil via Guiana. Georgetown tornou-se ponto de passagem, onde muitos trabalham temporariamente para reunir dinheiro antes de cruzar a fronteira. O jornalista Denis Chabrol, em uma reportagem recente na Bloomberg News, obteve o número de mais de 135 mil cubanos com presença permanente na capital guianense.
Além disso, no segundo mandato de Trump, a política dos Estados Unidos tornou-se mais agressiva em relação a Cuba. As tensões com o governo venezuelano agravaram a situação, impactando o envio de petróleo que garantia o funcionamento mínimo de infraestruturas essenciais na Ilha.
Diante desse cenário, Cuba enfrenta risco de uma crise humanitária severa, com colapso energético e comprometimento de serviços básicos como saúde, produção de alimentos e transporte.
Esse panorama pode significar aumento do fluxo migratório para o Brasil nos próximos anos. Para os que já estão aqui, seria importante que as autoridades brasileiras se dedicassem mais à situação dos solicitantes de refúgio cubanos. Muitos permanecem em status provisório que permite trabalhar, mas não facilita acesso a crédito, abertura de empresas ou plena integração econômica.
Os cubanos possuem sólida formação educacional e acadêmica. Queremos contribuir para a economia e a sociedade brasileiras com nosso trabalho e conhecimento. Somos gratos pelo acolhimento recebido, mas desejamos melhores condições para desenvolver plenamente nosso potencial.
Sobre o autor
Darío Alejandro Escobar é licenciado em Jornalismo pela Universidade de Havana. Oficineiro da Fundação Gabo (2017). Prêmio Nacional R.M.V. de Jornalismo Cultural (2017 e 2022). Foi diretor-geral da revista Somos Jóvenes e diretor de Comunicação na La Joven Cuba. Publicou em revistas como Anfibia e The Clinic. É especialista em Comunicação Estratégica
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Muito bem Darío Alejandro Escobar. Desejo sucessos nessas novas oportunidades