Descanse em paz, Omana

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O professor congolês Omana Ngandu, que fundou a ONG Mungazi para auxiliar na integração de refugiados no Brasil. Crédito: Stefanye Falco

Congolês criou ONG para ajudar na integração de refugiados no Brasil e morreu nesta quarta-feira (18) aos 53 anos

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo
Atualizado às 18h10 de 19.set.2019

Lembro até hoje do dia que conheci Omana Petench Ngandu. Foi durante a primeira Conferência Municipal de Políticas para Imigrantes, que aconteceu em São Paulo no final de novembro de 2013.

Fui fazer uma entrevista com Omana. Nascido em Kinshasa (República Democrática do Congo) em 14 de outubro de 1965, ele tinha chegado há pouco mais de seis meses e ainda falava pouco o português – e eu continuo a apenas arranhar o francês, enquanto ele já se expressava bem no idioma lusitano poucos anos depois. Na época, tive a ajuda de um outro congolês, o Alphonse Nyembo, e entrevistei ambos para a reportagem que fiz para o MigraMundo sobre a conferência. E mal podia saber do tamanho da história, dos dramas e esperanças que ele carregava consigo.

Após viver as dificuldades do deslocamento forçado, Omana Petench decidiu criar uma campanha para ajudar crianças refugiadas.
Crédito: Divulgação/LFCAB

Ele veio ao Brasil como refugiado por causa de sua atuação em nome dos direitos humanos no Congo, graças à ajuda de um médico brasileiro. Foi perseguido pelo governo e preso várias vezes por causa de seu ativismo político.

Em 2015, fundou na zona leste de São Paulo a ONG Mungazi, que auxilia refugiados na integração ao Brasil, além de promover atividades junto às crianças em situação de refúgio. Também foi um dos professores do LFCAB (Língua Francesa e Cultura Africana no Brasil), que usa a cultura africana para o ensino do francês para brasileiros.

Durante uma mesa que dividimos em um evento na USP, em maio de 2016, ele comentou que havia sobrevivido a um fuzilamento. Foi após esse acontecimento que veio para o Brasil, em 2013. Seis meses depois, estava na conferência onde o encontrei pela primeira vez.

Um dos episódios mais marcantes de sua trajetória no Brasil foi quando ganhou de amigos uma campanha para ajudar a trazer a família (mulher e cinco filhos), que teve de ir para um campo de refugiados no Quênia. Em 11 de abril de 2016, graças à ajuda obtida, conseguiu realizar o sonho.

Após longos três anos, finalmente a família de Omana está reunida novamente! Estamos com o coração transbordando de felicidade e alegria pelo reencontro.Muito obrigada a todos que compartilharam a história de Petench Ngandu, ajudaram no crowdfunding e torceram, de alguma maneira, pela reunião desta família.Família Omana, seja muito bem vinda ao Brasil ❤❤❤Vídeo gentilmente cedido por Uziel Pacheco 🙂 Obrigada!

Posted by Instituto Adus on Monday, April 11, 2016

Após esse breve sobrevoo em sua trajetória, interrompida no Congo e reconstruída no Brasil, até parece irônico que o homem que sobreviveu a um fuzilamento tenha partido desta vida depois de sentir dores no abdômen, decorrentes de problemas com o fígado e de um pedra na vesícula, que o levaram a ir e voltar do hospital várias vezes – a última delas, na madrugada desta quarta-feira (18).

Ás 6h42, Omana – ou também Fufu ou Papa Docta, para os mais íntimos – deixou este plano, pouco menos de um mês antes de completar 54 anos. Ficam familiares, amigos e admiradores das realizações que concretizou – incluindo este escriba.

O velório e sepultamento acontecem no sábado (21), a partir das 9h, no Cemitério do Curuçá – Rua Coréia, 491, Pq das Nações – Santo André (SP). O enterro está previsto para 16h15.

Que seu legado seja preservado e expandido, especialmente em um momento no qual a intolerância e a indiferença em relação ao outro pautam as relações humanas.

Professor Omana, presente!

3 COMENTÁRIOS

  1. Por favor, eu conheci Omana. Ele foi meu professor e amigo, ajudei ele várias vezes doei televisão e roupas para a ONG, tinha grande afeto e admiração por ele, me consiga algum contato com a família! Como a mulher dele fica? Posso fazer algo?

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