Dia do Migrante, uma data que ajuda a clarear horizontes

0
107
Registro de migrações do passado em muro na frente do Museu da Imigração, em São Paulo. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Em tempos nos quais a migração é vista como algo negativo, ressaltar as contribuições promovidas por esse movimento é uma forma de resgatar sua importância para entender melhor o mundo em que vivemos

Por Rodrigo Borges Delfim

São Paulo é reconhecida como um dos polos mundiais da gastronomia. Por meio dos paladares é possível fazer pequenas viagens para países distantes. Em determinados bairros e eventos, é possível dar até mesmo mini-voltas ao mundo em poucos passos, bastando atravessar a rua ou ir ao estabelecimento seguinte.

Se a capital paulista – e outras cidades mundo afora – permitem esse tipo de experiência, ela se deve às migrações – do passado e do presente.

Festa do Imigrante, um dos eventos que permitem viagens culturais por meio da gastronomia e que são exemplo das contribuições dos migrantes para a sociedade brasileira.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Essas e outras contribuições das migrações, que englobam aspectos econômicos, sociais e culturais, contrastam com o tratamento cada vez mais negativo que o movimento – e seus executores, os migrantes – recebe na atualidade.

Eis uma das razões de existir de datas como o Dia Nacional do Migrante, lembrado no Brasil nesta terça-feira (25) – há ainda o Dia Internacional do Imigrante (18 de dezembro), instituído pela ONU.

Datas como essas ajudam a resgatar um pouco sobre o que significa de fato estar em uma situação de migração para um outro lugar – dentro ou fora de seu país. E também sobre as contribuições e transformações promovidas pelos movimentos migratórios no passado e no presente – seja no Brasil ou no exterior.

Nunca é demais lembrar que migrar é um ato exercido pela humanidade desde seus primórdios. A exposição permanente do Museu da Imigração, em São Paulo, é bem didática nessa explicação – já fica a dica de passeio para o dia ou mesmo para o final de semana.

Esse ato, contudo, está longe de ser uma decisão fácil. Mesmo os processos mais planejados de migração – alguns até com direito a consultoria – envolvem uma série de renúncias e readaptações sociais, econômicas, culturais, políticas, psicológicas, familiares… Voltar de um processo de migração, então, é ainda mais complexo.

Quando o processo migratório é forçado por questões como perseguições, conflitos armados e violações de direitos humanos, as renúncias e readaptações são potencializadas pela necessidade de preservação da própria vida.

Para o colunista do MigraMundo e missionário scalabriniano Pe. Alfredo J. Gonçalves, a migração é um verdadeiro “sinal dos tempos” – enquanto denuncia a falta de condições de vida nos países de origem, anuncia a abertura de horizontes novos nos lugares de destino.

A pessoa que migra carrega consigo seus valores, sonhos, medos e habilidades, ao mesmo tempo que adquire novos atributos em sua nova morada, criando pontes entre um lugar e outro.

Ilustração na Casa do Migrante, em São Paulo, que ilustra bem o ato de migrar.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Ao mesmo tempo, essas contribuições se juntam a outras – individual e coletivamente e ajudam – no curto, médio e longo prazo – a criar ambientes como o polo gastronômico paulistano. Isso, é claro, só para ficar em um exemplo de legado deixado pelas migrações.

Tais horizontes, contudo, nem sempre ficam claros diante de manifestações -teóricas e práticas – cada vez mais negativas sobre as migrações e os migrantes.

Especialmente em condições adversas, datas como o Dia Nacional do Migrante têm o potencial para ajudar a clarear horizontes e a fomentar visões mais humanas sobre um movimento que é, essencialmente, humano.

Entender os desafios e contribuições trazidas pelas migrações – e por seus agentes, os migrantes – ajudam a compreender melhor o mundo em que vivemos. E assim o fazendo, é possível desenvolver e colocar em prática ferramentas que ajudem a tirar o melhor proveito possível dessa diversidade.

Origens do Dia do Migrante

O dia 25 de junho foi determinado como o Dia do Migrante através do Decreto nº 30.128, de 14 de novembro de 1957, emitido pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Esta data foi escolhida por coincidir com o fim das celebrações da semana da Imigração Japonesa, comemorada a partir de 18 de junho.

Há ainda outras fontes que apontam datas diferentes, como 21 de junho e 1º de dezembro. O 25 de junho, no entanto, é o mais aceito.

Mundialmente o Dia do Imigrante é celebrado em 18 de dezembro, instituído pela ONU por conta do aniversário de dez anos da Convenção Internacional para Proteção dos Direitos de Todos os Trabalhadores Migrantes e dos Membros das suas Famílias – um compromisso, aliás, que ainda não conta com adesão do Brasil.

Rodrigo Borges Delfim é jornalista, fundador e editor do MigraMundo

DEIXE UMA RESPOSTA

Insira seu comentário
Informe seu nome aqui

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.