Museu da Imigração completa 5 anos de reabertura e nova abordagem das migrações

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Fachada do Museu da Imigração, em São Paulo, que lançou e-book com informações sobre busca de dados em seu acervo. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo - out.2017

Enfrentando desafio da reaproximação com o público, o museu se recria por meio da interação social

Por Pâmela Vespoli
Em São Paulo (SP)

Nesta sexta-feira (31), o Museu da Imigração comemora cinco anos de reabertura – foi fechado em 2010, para obras de restauração do patrimônio – e de uma nova forma de se abordar as migrações no Estado de São Paulo e no contexto nacional e global.

O fechamento do então Memorial do Imigrante foi feito para preservação do local, durante o mandato do governador José Serra (PSDB), que em seu plano de governo, da época, havia mencionado sua preocupação com a precariedade dos museus nacionais.

As obras duraram por volta de quatro anos, apesar da nota do site de Cultura do Estado de São Paulo ter divulgado apenas um ano para o encerramento. Ao final da restauração, em 2014, o patrimônio retomou suas atividades com nova gestão, o Instituto de Preservação e Difusão da História do Café e da Imigração (INCI) – selecionado em 2011 pela Secretaria de Estado da Cultura.

“Os principais desafios da reabertura foram driblados por meio da manutenção da relação com as comunidades, aproximando-as da instituição, estabelecendo uma confiança mútua e realizando trabalhos em conjunto”, afirma a diretora executiva do museu Alessandra Almeida, ao explicar como reestabeleceram a credibilidade após anos de fechamento.

Além de manterem-se como referência histórica e patrimonial, os gestores do Museu atentaram para medidas de aproximação a população – por meio de atividades e conteúdos sobre o direito de migrar, a fim de sensibilizar o público com questões históricas e sobre o cenário atual dos movimentos migratórios.

Modernidade e interatividade

Na visão da diretora, essa nova fase do museu é marcada pela modernidade e interatividade, por mostrar com suas atividades como o processo migratório é um fenômeno permanente e tem forte papel na formação de São Paulo.

As ações do museu têm intensificado nesses cinco anos e renovado as táticas de trabalho. Oferecendo exposições – temporárias e fixas -, experiências temáticas, abordagens educacionais pelo Núcleo Educativo, serviços gratuito de auxilio ao Acervo Digital pelo Centro de Preservação, Pesquisa e Referência (CPPR), entre outras.

Entre as principais características delas está a tentativa de interação com a comunidade. Como o exemplo da exposição “O Caminho das Coisas”, composta por objetos emprestados pelo público após campanha nas mídias sociais.

“O Museu da Imigração vem, há um tempo, buscando trabalhar com processos colaborativos, permitindo ações de relacionamento com os públicos, novas formas de pensar a curadoria, a participação e o engajamento, contribuindo para a gestão e programação do museu”, explica Alessandra.

Os esforços com o envolvimento tem tido resultados. Desde a reabertura até o fim do ano passado, o museu já teve 663.681 visitantes.

Exposições

As exposições são divididas em: longa duração, temporária, itinerante e virtual. A escolha do conteúdo para exibição é realizada pela equipe técnica do museu, de acordo com seu calendário.

“A avaliação é feita com base na política de exposições da instituição, sempre privilegiando projetos que discutam a questão patrimonial das migrações, a partir das próprias coleções, ou que problematizam as experiências contemporâneas”, explica Alessandra.

Museu aposta na interatividade para tocar o público e trazê-lo para o debate da migração. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo – mai.2014

A diretora admite que o público tem preferência por exposições que envolvam a imigração histórica, a memória e a herança, por acreditar que estejam relacionadas às trajetórias dos visitantes ou seus familiares. “Afinal, essas curadorias intensificam a afetividade do público com essa temática”.

Já “Cartas de Chamada de Atenção”, um compilado de histórias de imigrantes e refugiados no Brasil, foi a exposição que mais marcou a diretora em seu tempo de trabalho – especificamente por ter retratado a questão contemporânea do fluxo migratório, de forma que a fez imergir no processo de construção, graças à colaboradores, inclusive imigrantes e refugiados abrigados na cidade.

Exposição Temporária “Cartas de Chamada de Atenção”, fruto da parceria entre o Museu da Imigração e o Arsenal da Esperança. Crédito: Divulgação/Museu da Imigração

Acervo Digital

O acervo disponibiliza registros de imigrantes que passaram pelas instalações de São Paulo no século XX. O recurso é uma ferramenta de consulta para pesquisadores e o público em geral que procura informações de familiares, comumente exigidas na solicitação de documentos de cidadania e afins.

A consulta pode ser realizada online e gratuitamente. Para facilitar a pesquisa, o museu lançou um manual em forma de e-book.

O projeto iniciou em janeiro de 2011, demandando esforços da equipe do Arquivo Público do Estado de São Paulo, responsáveis por organizar os documentos, realizar intervenções para conservação e preservação daqueles em estado de deterioração devido o tempo, digitalizar e tratar as fotos digitalizadas. Para somente assim, estar disponível para consulta.

Por causa da quantidade de documentos e a fragilidade que se encontram alguns deles, parte do acervo do Arquivo Público ainda não está disponível no Acervo Digital do Museu. Lembrando que toda a versão física está sob a guarda e responsabilidade do Arquivo Público do Estado de São Paulo.

Festa do Imigrante

A Festa do Imigrante é a atividade do museu com maior engajamento das comunidades migrantes, consolidado no calendário cultural de São Paulo.  Na edição deste ano, serão 80 grupos representando 48 nacionalidades.

A programação da 24ª edição está disponível no site para consulta. Entre as novidades, estará a expansão do empório com a participação de 15 expositores. O evento também contará com novos grupos de apresentação artística e inclusão da Venezuela e Tailândia na oferta gastronômica.

Integrantes do grupo folclórico lituano Rambynas, uma das atrações culturais tradicionais da Festa do Imigrante – que também estará presente na edição 2019. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo – jul.2014

As medidas inclusivas estreadas no ano passado serão retomadas nesta edição. A infraestrutura da festa foi planejada com recursos de acessibilidade, para que todos possam aproveitar e compartilhar deste grande câmbio cultural.

A diretora relembra que desde a tomada do Instituto de Preservação e Difusão da História do Café e da Imigração (INCI) na organização do evento, a festa passou por diversas mudanças. A ampliação da duração para três dias, a interação das comunidades com o público com workshops de dança, oficinas de culinária e artesanato. Além da criação do espaço “Faz e Conta”, programação infantil responsável por abordar a temática de maneira lúdica.

História do Museu

A Hospedaria de Imigrantes, inaugurada em 1887, abrigava a maioria dos imigrantes recém-chegados à São Paulo, na época. Ela exerceu sua função até 1978, com algumas interrupções ao longo desse tempo – como mostrou uma das exposições temporárias do Museu, a Hospedaria 130.

O prédio já foi usado como hospital improvisado, presídio político, abrigo para enchentes e até escola técnica de aviação da Aeronáutica.

Em 1983 se tornou o Centro Histórico do Imigrante, que futuramente viria a ser o atual Museu da Imigração.

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