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terça-feira, abril 28, 2026

Do Afeganistão ao Brasil: uma jornada de sobrevivência, luta e esperança

Relato de afegã que vive atualmente no Brasil sintetiza os sentimentos vividos por ela e outros afegãos que chegaram ao país nos últimos anos

Por Nina Kawusi
Leia aqui em inglês

Após a queda de Cabul, em agosto de 2021, minha vida — assim como a de milhares de afegãos — tornou-se irreconhecível. O retorno do Talibã ao poder não foi um evento político abstrato; foi uma ameaça direta à minha existência, à minha família e ao meu futuro. Da noite para o dia, o trabalho ao qual eu havia dedicado minha vida, os amigos que eu estimava e a vida que eu havia cuidadosamente construído evaporaram sob o medo, o caos e a incerteza. Jornalistas afegãos, defensoras dos direitos das mulheres, ex-funcionários do governo, minorias e famílias inteiras foram forçados a fugir sob ameaça iminente de violência. Para muitos, os países vizinhos foram a primeira parada, mas frequentemente o acolhimento era frio, os recursos escassos e as fronteiras cada vez mais perigosas.

Alguns de nós, inclusive eu, seguimos ainda mais longe, atravessando continentes e oceanos até um país que parecia impossivelmente distante: o Brasil. Uma nação que mal conhecíamos, cuja língua não falávamos e cuja cultura era muito diferente da nossa. Ainda assim, o Brasil ofereceu algo que poucos países ofereceram naquele momento: uma linha de vida. Em 3 de setembro de 2021, o governo brasileiro publicou a Portaria Interministerial nº 24/2021, concedendo vistos humanitários a cidadãos afegãos, apátridas e outras pessoas afetadas pela instabilidade e pelas violações de direitos humanos no Afeganistão. Para milhares de nós, isso foi um farol de esperança — um reconhecimento legal de que nossas vidas importavam e de que poderíamos reconstruir nossas vidas em segurança. Eu estava entre os poucos afortunados que conseguiram chegar.

Mas pisar em solo brasileiro foi apenas o início de outro desafio. Logo percebi que segurança não significa automaticamente estabilidade, pertencimento ou dignidade. As primeiras semanas foram um turbilhão de abrigos temporários, documentos e isolamento. Diferentemente de outras comunidades migrantes, os afegãos que chegaram ao Brasil vieram, em grande parte, sem uma rede social, cultural ou econômica. Não havia uma diáspora afegã estruturada para nos orientar, nem rostos familiares para nos ajudar a navegar neste novo país. Algumas famílias foram enviadas para estados a centenas de quilômetros de qualquer outro afegão — Minas Gerais, Acre — onde não conheciam ninguém e mal compreendiam o ambiente ao seu redor. Para muitos, esse deslocamento geográfico aprofundou ainda mais o trauma que já carregamos. 

A língua tornou-se a barreira mais imediata. O português, belo e expressivo, era completamente estranho para nós. Tarefas simples do dia a dia — comprar comida, ir ao médico, matricular crianças na escola — tornaram-se exercícios de ansiedade e improvisação. O Google Tradutor ajudava, mas não substitui a fluência, e erros de tradução podem gerar mal-entendidos graves com funcionários públicos ou proprietários. Sem a capacidade de nos comunicarmos, muitos de nós nos sentíamos invisíveis, excluídos e impotentes. A língua não era apenas uma ferramenta; era um portão — um obstáculo que nos mantinha à margem.

A burocracia agravava ainda mais esses desafios. Documentos de residência, autorizações de trabalho, CPF — tudo exigia navegar por sistemas lentos, opacos e, muitas vezes, contraditórios. Algumas organizações locais tentaram ajudar, mas a demanda supera em muito o apoio disponível. Muitos imigrantes afegãos permanecem em um limbo legal por meses, até anos, após a chegada, sem poder trabalhar formalmente, planejar o futuro ou reconstruir as vidas que lhes foram tiradas. O emprego, quando existe, raramente corresponde às nossas formações e trajetórias. Engenheiros tornam-se entregadores. Professores tornam-se trabalhadores domésticos. Médicos tornam-se assistentes. Cada etapa dessa reinvenção profissional carrega o peso da frustração, do talento desperdiçado e de identidades fragmentadas.

E essas perdas não são apenas profissionais — são emocionais. A migração forçada não apaga o trauma; ela o intensifica. Muitos de nós chegamos ao Brasil carregando não apenas nossos pertences, mas memórias de terror: ameaças, perseguições, a perda de pessoas queridas e o colapso de redes sociais e profissionais. O isolamento, a insegurança econômica e a incerteza sobre o futuro amplificam os desafios de saúde mental, enquanto o acesso a apoio psicológico culturalmente adequado continua extremamente limitado.

Os desafios também se estendem à vida comunitária. Diferentemente de migrantes de países com diásporas antigas no Brasil, os afegãos muitas vezes não têm a quem recorrer. Cada pergunta — como encontrar moradia, acessar serviços públicos, matricular filhos na escola — vira uma nova batalha. Diferenças culturais, normas desconhecidas e a ausência de orientação criam camadas de estresse que persistem muito depois do desembarque. Para muitos, a promessa de segurança parece frágil, como um intervalo temporário antes de outra jornada incerta.

Diante dessas barreiras, alguns afegãos tentam uma migração secundária. Movidos pelo desespero e pela esperança de oportunidades, seguem rotas irregulares e perigosas rumo à América do Norte, expondo-se à exploração, ao tráfico humano e à violência. É uma ironia cruel: fugir de uma situação de risco de vida apenas para enfrentar outra. Esse é o custo humano de políticas humanitárias incompletas.

E, ainda assim, há resiliência. Mulheres, homens e famílias afegãs no Brasil estão aprendendo português, buscando educação, procurando trabalho e, aos poucos, formando comunidades. Crianças frequentam a escola, fazem novos amigos e começam a imaginar futuros longe do medo constante que deixaram para trás. Lentamente, abrimos espaço para nós mesmos em um país que, embora estranho, ofereceu a possibilidade de uma segunda chance.

O programa de vistos humanitários do Brasil foi um passo vital. Mas o humanitarismo não se mede por papéis ou carimbos — mede-se pela capacidade de viver, trabalhar e pertencer. Segurança sem apoio é frágil. Proteção sem inclusão é temporária. A verdadeira integração exige investimento: ensino estruturado da língua, caminhos para empregos dignos, reconhecimento de diplomas, serviços de saúde mental culturalmente sensíveis e apoio jurídico. Exige ouvir os próprios migrantes, valorizar suas vozes e incluí-los na formulação das políticas que moldam seus futuros.

Nossa presença no Brasil não é uma exceção. Ela faz parte de uma realidade global moldada por conflitos, desigualdades e falhas políticas. A forma como o Brasil e o mundo respondem a essa realidade definirá não apenas o futuro das populações deslocadas, mas também a credibilidade moral do sistema internacional. A dignidade humana não começa no aeroporto nem com um visto, mas na possibilidade de viver plenamente, contribuir de forma significativa e sentir-se verdadeiramente em casa. Enquanto esse padrão não for alcançado, os vistos humanitários permanecem como promessas parcialmente cumpridas — esperança oferecida de boa-fé, mas enfraquecida pela negligência. 

Para mim, o Brasil tornou-se uma segunda chance — um lugar para reconstruir, sonhar e crescer, apesar de tudo o que perdi. Mas minha história ainda não está completa. Ela é compartilhada por milhares de afegãos que continuam a viver na incerteza, lutando para pertencer e esperando que o mundo transforme generosidade em inclusão real.

Sobre a autora

Nina Kawusi é gerente de Comunicação do Kabul Institute, uma organização de pesquisa e políticas públicas focada em nações pós-conflito, onde lidera as iniciativas estratégicas de comunicação e relações públicas. Atualmente reside em São Paulo e está à frente do relançamento da Sabawoon, uma renomada revista afegã de estilo de vida publicada no Afeganistão, sob a organização Sabawoon.


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