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quinta-feira, janeiro 22, 2026

Em meio a polarização e incertezas, venezuelanos no Brasil expressam alívio e comemoram prisão de Maduro

Sentimento da comunidade mescla satisfação com a queda de Nicolás Maduro com preocupações a respeito do presente e futuro do país

De um lado, a felicidade de ver fora do poder aquele que foi considerado o responsável principal pela fuga de quase 8 milhões de venezuelanos do país, segundo estimativas da ONU; do outro, um sentimento de incerteza sobre o que virá a seguir, dadas as condições em que tudo ocorreu. Assim podem ser resumidas as impressões da comunidade venezuelana no Brasil a partir do primeiro grande acontecimento internacional de 2026: a prisão do presidente do país, Nicolás Maduro, e seu envio para os Estados Unidos, no último sábado (3).

A saída de Maduro do poder, de onde estava desde março de 2013, não ocorreu por uma movimentação interna da oposição, mas sim por uma operação militar determinada pelo atual ocupante da Casa Branca, o presidente Donald Trump, e planejada ao longo de meses. Um fato que traz consigo ainda uma série de perguntas sem respostas sobre o futuro da Venezuela e do próprio continente americano em si. E que, conforme apontam analistas internacionais, abre um precedente perigoso para todo o mundo por violar o Direito Internacional.

No Brasil, o debate sobre a ação dos Estados Unidos na Venezuela tem sido envolto em uma forte polarização política, que vem gerando embates entre brasileiros e venezuelanos. Para a grande maioria dos migrantes que deixaram a terra natal para fugir de perseguições cometidas pelo governo Maduro, sua prisão é motivo de grande festa e alívio, mesmo levando em conta as circunstâncias em que tudo ocorreu. Nas redes sociais, alguns venezuelanos chegam a desabafar algo como “se não é venezuelano, então melhor nem emitir comentários”.

Entre os brasileiros, sobretudo entre os mais alinhados com uma agenda progressista, o foco tem sido destacar a ilegalidade da ação promovida pelo governo Trump e pregar respeito à soberania nacional venezuelana. Mas tal enfoque tem sido muitas vezes visto como uma defesa de Nicolás Maduro, o que gera grande desconforto junto aos migrantes. Já os brasileiros alinhados com uma agenda conservadora se somam à comemoração pela queda do sucessor de Hugo Chávez, mas ignoram as violações da legislação internacional e suas possíveis implicações.

Sensação de alívio e festa, mas com inquietações

“É uma situação difícil de explicar. Ainda que seja uma ação que contrarie as leis internacionais, para muitos dos venezuelanos foi uma ação necessária. Imagina que desde 2002 vivíamos um governo totalitário que direta e indiretamente punia quem não concordava com ele”, expressou a psicóloga Merlina Saudade, que reside em Santa Catarina. Temos desde 2013 já provas de que as eleições eram roubadas, mas só em 2024 pudemos demonstrar à comunidade internacional”, complementou ela, fazendo referência ao polêmico pleito no qual Maduro proclamou-se vencedor.

“Na Venezuela existe um regime que ataca todos aqueles que estejam contra ele. O que aconteceu no sábado foi causado pelo seu fracasso [de Maduro] como presidente e administrador do país”, acrescentou o engenheiro de produção Hector Lopez Lara, que vive no Brasil desde 2018 e também é voluntário na organização PDMig no Rio Grande do Sul. “O consenso entre os venezuelanos, dentro e fora da Venezuela, é que Maduro merecia o que aconteceu com ele, e que vai ser levado perante a justiça, um direito que ele negou a milhares de vítimas”, disse outro venezuelano que falou ao MigraMundo na condição de anonimato.

Mais um venezuelano que vive no Brasil e também preferiu não ser identificado disse ao MigraMundo fez um desabafo sobre como o assunto tem sido tratado por aqui. “Me indigna demais que os brasileiros que estão fazendo barulho estejam mais preocupados por esse papo da soberania, em vez de se solidarizar com as vítimas do ditador Maduro. O pessoal que trabalha com migração tem convivido por anos com um monte de migrantes venezuelanos que chegaram ao Brasil em situação lamentável. Muitos deles foram vítimas de violações a seus direitos civis”.

Já a escritora venezuelana Maria Elena Moran, também residente no Brasil, explicitou seu desabafo pelas redes sociais. Em texto compartilhado pelo Instagram, ela sintetizou essa mescla de sentimentos vivida por ela e compatriotas.

“Vocês não imaginam o desesperador que é, sendo uma pessoa que se considera de esquerda e democrata, desejar com tanta vontade a queda do regime que você aceita que um câmbio aconteça do jeito que for. É que, numa ditadura, a única certeza é a impossibilidade. É uma tragédia que tenha sido Donald Trump o nome a fazer isso acontecer. É o pior sujeito, agindo do pior jeito”, disse ela. Em outro trecho, a escrita crava: “Isso deveria dar uma medida do sofrimento que o povo venezuelano tem aguentado.

Preocupação com venezuelanos na Venezuela

A Redeven – que congrega diferentes entidades representativas da comunidade venezuelana no Brasil – emitiu um comunicado no qual afirma acompanhar os desdobramentos da deposição de Maduro “com cautela e responsabilidade” e pede o mesmo para os compatriotas no país e na terra natal.

“A Redeven exorta a comunidade venezuelana no Brasil a manter a calma, orientar seus familiares na Venezuela a adotar medidas de segurança, verificar informações e acompanhar apenas os canais oficiais das lideranças democráticas. Ao mesmo tempo, conclama os agentes do Estado venezuelano a reconhecerem a vontade popular e a facilitarem uma transição pacífica para a democracia”, diz trecho do documento.

O alerta da Redeven se explica pelo fato de que pessoas contrárias ao atual governo na Venezuela estão evitando festejos por medo de repressão estatal, conforme relatado em reportagem pela Deutsche Welle a partir de correspondentes locais.

Impactos futuros

Embora tenha celebrado a prisão de Maduro, a oposição venezuelana não parece incluída nos planos de Trump para comandar o país. Nas palavras do presidente estadunidense, a líder opositora Maria Corina Machado – laureada com o Prêmio Nobel da Paz em 2025 – “é uma boa pessoa, mas não conta com respaldo suficiente”. O candidato que enfrentou Maduro nas eleições de 2024, Edmundo González Urrutia, tampouco foi citado pelo chefe da Casa Branca, que alega que esses atores da oposição “estão muito longe da Venezuela” e desconectados da realidade local.

Em vez disso, quem vem tomando as rédeas do poder na Venezuela até o momento é a antiga vice de Maduro, Delcy Rodríguez, já nomeada presidente interina pelo Supremo Tribunal do país. Ela vem se equilibrando entre manter o apoio das forças militares e cooperar com Trump, o que mantém uma mudança significativa de governo ainda bem distante no horizonte.

Essa mudança incompleta não passa batida pelos venezuelanos residentes no Brasil. “Considero relevante que o Poder Executivo já não exerça controle absoluto sobre todos os poderes do Estado. No entanto, essa saída forçada do ditador não elimina um risco igualmente grave: o de que a soberania nacional seja deslocada das mãos de um autoritarismo interno para um projeto entreguista, subordinado a interesses geopolíticos externos, como demonstra a história do imperialismo dos Estados Unidos”, disse o psicólogo José Miguel Ocanto, que migrou para o Brasil há oito anos e reside em Belo Horizonte.

Ocanto projeta ainda que a discussão deva se estender, especialmente levando em conta processos eleitorais que vão ocorrer nos próximos meses em diferentes países que receberam a diáspora venezuelana, incluindo o Brasil. “A superação do autoritarismo não pode significar a substituição de um domínio por outro. Esse debate, atravessado por tensões entre democracia, soberania e ingerência internacional, tende a ocupar um lugar central nas eleições de 2026 do Brasil, assim como os futuros processos eleitorais da nossa região. Mais do que uma disputa eleitoral, trata-se de definir qual projeto político será capaz de articular democracia substantiva, justiça social e autodeterminação nacional no contexto latino-americano contemporâneo”.

Em linha com o pensamento de Ocanto, a rede PsiMigra, formada por profissionais, estudantes e pesquisadores da Psicologia no campo da migração, emitiu um posicionamento no qual critica a instrumentalização da questão venezuelana por grupos políticos.

“Reafirmamos que o repúdio à intervenção imperialista estadunidense não implica apoio ao governo de Nicolás Maduro. Trata-se de um regime autoritário e ditatorial, marcado pela repressão política, pelo enfraquecimento das instituições democráticas e por reiteradas violações de direitos humanos”. Ao mesmo tempo, prossegue a nota, “a violação da soberania de um povo não pode ser naturalizada nem legitimada por discursos que se digam humanitários ou democráticos, uma vez que, historicamente, intervenções externas produzem sofrimento psíquico coletivo, aprofundam conflitos sociais e intensificam processos de violência, luto e desamparo”.

Cenário para venezuelanos fora do país

Na Europa, países como Alemanha, França, Reino Unido e Itália suspenderam a análise de pedidos de refúgio de sírios logo após a deposição de Bashar al-Assad, em dezembro de 2024. Logo, a suposta mudança de governo pode fazer com que certas administrações locais passem a não tolerar ou até mesmo forçar que os venezuelanos retornem à terra natal, independentemente de já estarem estabelecidos ou não nos locais atuais ou mesmo de desejarem essa volta.

No Chile, o presidente eleito José Manuel Kast – que toma posse em março – tem a linha dura na temática migratória como um de seus eixos. Entre as promessas de campanha está a criação de um “corredor de devolução de migrantes”, mirando os que se encontram em situação indocumentada – entre eles, muitos venezuelanos.

No Brasil, alguns incidentes podem servir para um alerta semelhante. Em entrevista nesta terça-feira (6), o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, disse esperar “que os venezuelanos não precisem mais vir” à capital paulista uma vez que Maduro não está mais no poder, embora tenha complementado que “caso venham, serão acolhidos”.

Em Teresina (PI), uma mulher – cuja identidade não foi revelada – chamou a atenção ao abordar índígenas venezuelanos da etnia warao pedindo que eles retornassem para a Venezuela após a prisão de Maduro. O caso foi registrado em vídeo que circula pelas redes sociais e levou a uma manifestação da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no Piauí, que alertou contra xenofobia e violações de direitos humanos da comunidade venezuelana na cidade.

Esse cenário já é antevisto e criticado pela nota do PsiMigra. “Recusamo-nos a aceitar que o povo venezuelano seja tratado como peça de manobra em disputas geopolíticas globais. Apoiamos o direito à liberdade de escolha sobre o território ou país em que qualquer pessoa deseje viver e rejeitamos quaisquer posturas xenófobas que tentam incentivar o retorno imediato da população para a Venezuela, como se esta intervenção mudasse de maneira imediata a situação socioeconômica do país. De igual modo, rejeitamos que se use o drama humano em contextos de deslocamento forçado como ferramenta política pelos governos autoritários da região”.


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